quarta-feira, 25 de novembro de 2020

COLUNAS

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Agora, a Copa é dos grandes

terça-feira, 24 de junho de 2014

Foi como Louis Van Gaal queria desde que a classificação para as oitavas de final ficou assegurada ainda na segunda rodada da fase de grupos com os 3 a 2 sobre a Austrália: "Se eu pudesse escolher, preferia não enfrentar o Brasil, embora Croácia e México também sejam adversários difíceis" - confessou o treinador holandês em entrevista ao site da FIFA no domingo, dia 22.

Nesta segunda, dia 23, a Holanda venceu o bom time do Chile por 2 a 0 em São Paulo e ficou esperando que o Brasil goleasse Camarões por 4 a 1 em Brasília e o México vencesse a Croácia por 3 a 1 no Recife. Agora é problema de Van Gaal encarar o sólido sistema defensivo mexicano e a permanente disposição da equipe comandada por Miguel Herrera para contra-atacar em velocidade, frequentemente em bloco, como tanto gosta de fazer a própria Holanda.

Os problemas de Luiz Felipe Scolari são de outra ordem. Antes de tudo, ele precisa encontrar um jeito de fazer a Seleção jogar de forma mais compacta, como se viu nos últimos jogos da Copa das Confederações e se chegou a vislumbrar em alguns momentos do segundo tempo da goleada desta segunda-feira sobre Camarões. Os primeiros 225 minutos do Brasil na Copa do Mundo foram motivo de preocupação permanente para a torcida - e certamente também para o seu treinador.

A Costa Rica e outras valentes equipes que nos desculpem, mas, daqui em diante, a Copa do Mundo é para os grandes. A cada rodada, é matar ou morrer. Os coadjuvantes já cumpriram seu papel e irão morrendo de um em um. E o Brasil, cinco vezes campeão e única seleção presente em todas as Copas, vai arriscar a vida contra o Chile, sábado, em Belo Horizonte. Será o primeiro de três exercícios de sobrevivência antes da finalíssima do dia 13 de julho. O que nos dá confiança é o segundo tempo dos 4 a 1 sobre Camarões.

Novamente esgarçado entre uma linha de retaguarda e outra de frente, quase sem meio de campo durante todo o primeiro tempo, embora tenha saído com a vantagem de 2 a 1, o Brasil mudou no segundo, com Fernandinho no lugar de Paulinho, ressuscitando o futebol de Oscar e Fred e até se dando ao luxo nos últimos 20 minutos de poupar Neymar, novamente o grande destaque do jogo. Ramires, após substituir Hulk antes da metade da segunda etapa, também ajudou a fazer do Brasil uma equipe mais compacta e fluente.

A Seleção ainda enfrenta outros problemas, como a inconstância de Daniel Alves nas ações defensivas, mas Felipão mostrou que tem alternativas para dar mais mobilidade a este time que, em determinados momentos, se posta no campo em linhas rígidas e distantes como se disputasse um jogo de pebolim. E, entre as virtudes da equipe chilena, uma das principais é a movimentação constante dos seus jogadores. Outra é a coragem para buscar sempre o ataque, muitas vezes até de forma temerária.

É claro que o Chile vai dosar a ousadia contra o Brasil, mas não deixará de exercitar a vocação ofensiva que foi despertada pelo argentino Marcelo Bielsa e vem sendo retrabalhada, nos últimos anos, por seu compatriota Jorge Sampaoli. Por isso, o Brasil não pode deixar despovoado o meio de campo, como aconteceu nos 3 a 1 sobre a Croácia, se repetiu muitas vezes no 0 a 0 com o México e voltou a acontecer durante quase todo o primeiro tempo dos 4 a 1 sobre Camarões.

É mais claro ainda que o Brasil tem de impor ao Chile a condição de pentacampeão do mundo e dono da casa. Por isso, tem de atacar sempre, embora com volúpia controlada para não dar a Vidal, Alexis Sánchez e Vargas os espaços que eles tanto desejam. Está chegando a hora dos verdadeiramente grandes, mas todo cuidado é pouco diante dos emergentes. É o que esta Copa tem mostrado até agora.

Marrento

Ótimo técnico, Jorge Sampaoli culpou o futebol mostrado pela Holanda pela derrota do Chile no jogo que definiu a ordem de classificação do grupo B: "Foi um jogo mais favorável para eles, porque nós quisemos jogar, a Holanda, não".

Em parte, o argentino marrento tem razão: o Chile teve 64% de posse de bola contra 36% da Holanda. Em compensação, os holandeses finalizaram 13 jogadas de ataque, oito delas no gol de Bravo; e os chilenos concluíram apenas sete vezes, umazinha só no gol de Cillessen.

Bom para os dois

Um empate entre Estados Unidos e Alemanha na quinta, dia 26, classificará as duas seleções para as oitavas de final. Alguém acredita que Joachim Löw e Jurgen Klinsmann colocarão seus times no ataque?

Craque merece respeito

Antes da Copa, o cientista britânico Stephen Hawking fez uma prece e um deboche, registrados no Fim de Papo da coluna de 2 de junho: "Precisamos de um árbitro europeu. Os árbitros europeus têm mais empatia com o futebol inglês do que com bailarinas como Luis Suárez".

Antes de enfrentar o Uruguai, o técnico inglês Roy Hodgson também provocou o goleador Luis Alberto Suárez Díaz: "Você pode ser um grande jogador na sua Liga, mas precisa fazê-lo na Copa do Mundo para ser reconhecido como um dos grandes em todos os tempos".

Menos de um mês depois de passar por uma artroscopia no joelho esquerdo, Luisito Suárez fez os dois gols que despacharam os ingleses de volta para casa e mantiveram o Uruguai na Copa pelo menos até a decisão da segunda vaga do Grupo D nesta terça, dia 24, às 13 horas, contra a Itália. O jogo foi apitado pelo europeu Carlos Velasco.

É urgente que se traduza Armando Nogueira para o inglês. Assim, Hawking and Hodgson poderão aprender com o craque imortal da crônica esportiva: "Deus castiga quem o craque fustiga".

Ele

O francês Karim Benzema, com três gols e duas assistências, fora um pênalti perdido, é o rei das estatísticas entre todos os atacantes, mas ninguém jogou mais bola nesta Copa do que o holandês Arjen Robben, também autor de três gols, uma assistência, inúmeras arrancadas do meio do campo até a área adversária e mais de 90% de acerto nos passes. Só não fez gol contra o Chile, mas participou ativamente dos dois.

Por enquanto, é o craque da Copa.

Hermanos

Os três técnicos argentinos que vieram ao Brasil - Alejandro Sabella (Argentina), Jorge Sampaoli (Chile) e José Néstor Pekerman (Colômbia) - estão nas oitavas de final.

Felipão, o único

A desclassificação da Espanha de Vicente Del Bosque deixa o nosso Felipão como o único treinador que pode igualar nesta Copa o feito do italiano Vittorio Pozzo, duas vezes campeão do mundo, em 1934 e 1938.

Nunca houve Copa como esta

Aconteça o que acontecer daqui até 13 de julho, esta já é uma Copa como nunca se viu:

# Em 36 jogos até agora disputados na fase de grupos, a média de gols é de três por jogo.

# No tão badalado grupo da morte, com os campeões mundiais Uruguai, Itália e Inglaterra, a Costa Rica foi a única seleção a se classificar antecipadamente para as oitavas de final.

# Pela primeira vez nos últimos anos, se viu o craque Cristiano Ronaldo despenteado num campo de futebol. Foi no Alemanha 4 x 0 Portugal da segunda-feira da semana passada, dia 16.

# Atual campeã mundial, a Espanha foi eliminada logo na segunda rodada da fase de grupos, após ser goleada por 5 a 1 pela Holanda na primeira.

# A Inglaterra, campeã em 1966, também foi eliminada na segunda rodada.

# Depois de marcar apenas um golzinho em duas Copas, o cracaço Messi parece ter desencantado por aqui - fez um na estreia contra a Bósnia e, aos 46 do segundo tempo, garantiu o 1 a 0 para a Argentina contra o Irã.

# Miroslav Klose marcou seu 15º gol numa Copa do Mundo apenas um minuto após entrar em campo para ajudar a Alemanha a empatar com Gana por 2 a 2. O goleador alemão, nascido polonês, igualou assim o recorde histórico do nosso fenômeno Ronaldo e passou a ser o terceiro jogador a fazer gols em quatro edições da Copa - 2002, 2006, 2010 e 2014. Antes dele, o feito era exclusividade de Pelé e do também alemão Uwe Seeler, ambos nas edições de 1958, 1962, 1966 e 1970.

# A Globo tem atrasado o Jornal Nacional para mostrar, entre outras joias de pequeno valor futebolístico, Japão 0 x 0 Grécia, Honduras 1 x 2 Equador e Nigéria 1 x 0 Bósnia.

Só falta aparecer um atacante que marque pelo menos 13 gols nos campos do Brasil, como fez o francês Just Fontaine na Suécia em 1958.

Parece fácil

Se Juninho Pernambucano tivesse mostrado em campo no Brasileirão de 2013 um quarto do que tem ensinado na tevê aos jogadores que disputam a Copa do Mundo, eu não estaria sofrendo com o nosso, tanto meu quanto dele, Vasco na Segundona.

Sumiço

Pelo que se viu (ou não se viu) até agora, o Fuleco é mais um animal brasileiro em extinção.

Fim de papo

"Não há milagres no futebol. Seria mentira dizer que éramos top. Não é verdade, tínhamos muitas limitações. Se não estamos todos no alto nível, não conseguimos ganhar". - Cristiano Ronaldo, antes mesmo de Portugal selar definitivamente sua sorte na Copa do Mundo

Atualizado em: 24/6/2014 07:24

COORDENAÇÃO

Roberto Benevides é jornalista, foi por muitos anos colunista e o editor do caderno de esportes de O Estado de S. Paulo, trabalhou também no JB, na Folha de S.Paulo, nas revistas Veja, Exame, Quatro Rodas, Placar e Época. Nos últimos dois anos, fez a coordenação editorial de uma coleção de 15 livros sobre esportes olímpicos publicada pelo editora do Sesi.

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