quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

COLUNAS

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Quando é mesmo que o Brasil vai jogar nesta Copa?

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Temos dois problemas pela frente: o que a Colômbia está jogando e, mais grave ainda, o que o Brasil não tem jogado. É preciso mudar esta equação para que tudo não acabe na sexta-feira em Fortaleza.

A Seleção ainda está devendo uma partida realmente empolgante nesta Copa. Até agora, viveu de Neymar, dos zagueiros Thiago Silva e David Luiz, do volante Luiz Gustavo e só continua viva porque, no mata-mata contra o Chile, o goleiro Júlio César fez três milagres, salvando um chute de Aránguiz aos 19 minutos do segundo tempo do 1 a 1 e os pênaltis cobrados por Pinilla e Alexis Sánchez na decisão vencida por 3 a 2.

Em que vestiário se terá perdido aquele futebol instigante e intenso dos últimos jogos do Brasil na Copa das Confederações?

O time é o mesmo. No papel. Em campo, há uma distância abissal entre a mobilidade criativa do campeão da Copa das Confederações e a correria infrutífera do aspirante ao hexa mundial. Aquele Brasil compacto, organizado e insistente no ataque que a torcida chegou a vislumbrar em alguns momentos do segundo tempo dos 4 a 1 sobre Camarões na última rodada da fase de grupos deu pequenos sinais de sobrevida até fazer 1 a 0 no Chile, mas se transformou progressivamente num bando apressado e nervoso depois de levar o empate e encontrar dificuldades para virar o placar.

O árbitro inglês Howard Webb prejudicou o Brasil, não marcou um pênalti em Hulk, deixou passar em branco sucessivas faltas em Neymar, desconheceu a lei da vantagem em vários lances, mas nada justifica o futebol desarranjado e nervoso de boa parte do segundo tempo e da prorrogação. A Seleção tem de melhorar, e muito, para ultrapassar, nas quartas de final, o bom time da Colômbia, que venceu o Uruguai por 2 a 0 com absoluta autoridade, muita categoria e mais uma ótima exibição do garoto James Rodríguez.

"Esta é a Copa do Mundo de melhor nível técnico que já vi" - proclamou o italiano Fabio Capello, que não conseguiu classificar a Rússia para os jogos de mata-mata, mas conhece de dentro do campo e do banco o que é o Mundial, pois, como jogador, fracassou com a Itália em 1974, embora tenha até marcado o seu golzinho antes de se despedir na fase de grupos, e, como treinador, levou a Inglaterra às oitavas em 2010, caindo diante da Alemanha de Joachim Low por 4 a 1.

Capello tem razão, embora Brasil x Chile e Costa Rica x Grécia não tenham sido jogos de boa qualidade técnica, talvez porque, como advertiu o alemão Franz Beckenbauer em artigo na Folha de S.Paulo, ainda no sábado, "as coisas não continuarão assim", em referência à animação ofensiva da primeira fase. O homem que, como nosso Zagallo, foi campeão do mundo como jogador e como técnico, previu: "A partir das oitavas, a tática pode prevalecer". Não é por outro motivo que, nos primeiros quatro confrontos das oitavas, a média de gols já caiu - de 2,83 por jogo na primeira fase para 2,25.

Mesmo assim, a qualidade técnica é indispensável às seleções que pretendem chegar à decisão do título em 13 de julho. E é algo que o Brasil tem de mostrar urgentemente para que possa chegar lá com a autoridade que Alemanha, Holanda, França e a emergente Colômbia têm mostrado até aqui e a Argentina, menos um pouco, também continua devendo.

Quando é mesmo que o futebol brasileiro vai estrear na Copa?

A diferença: Arjen Robben

Não é pouco o que a Costa Rica fez até agora na Copa. Depois de despachar os campeões do mundo Itália e Inglaterra na fase de grupos, eliminou a Grécia na decisão por pênaltis neste domingo, dia 29, após jogar mais de 45 minutos no 1 a 1 do tempo normal e na prorrogação com apenas dez em campo. Mais não pode querer.

Afinal, o adversário das quartas no sábado, em Salvador, será a Holanda. O time de Robben já levou o susto que poderia levar. Bem que o México mereceu vencê-lo até pelo menos os 10 minutos do segundo tempo no confronto em Fortaleza. No entanto, satisfeito com a vantagem por 1 a 0, em gol de Giovani dos Santos aos 3, o técnico Miguel Herrera repetiu o erro do holandês Louis Van Gaal no primeiro tempo e abdicou de jogar.

Os mexicanos foram para a defesa e a Holanda, depois de ficar todo o primeiro tempo se defendendo na esperança de um contra-ataque que lhe abrisse o caminho para a vitória, resolveu partir para o ataque. Arjen Robben fez a diferença mais uma vez. Criou as melhores jogadas de ataque, cobrou o escanteio que terminou no gol de empate, marcado por Sneidjer aos 42 minutos, e, já nos descontos, sofreu o pênalti que Huntelaar cobrou para fazer 2 a 1 e despachar o México.

A hora é dos verdadeiramente grandes.

Exausto

"A gente sai cansado de tanto que participou dessa partida" - reclamou Roger Flores depois de comentar na Globo o Itália 0 x 1 Uruguai da primeira fase. Logo ele que nunca se cansou num campo de futebol! Não que corresse muito. Muito pelo contrário...

Ranking

Quatro de seis seleções colocadas entre as 16 primeiras do ranking da Fifa em junho não conseguiram sobreviver à fase de grupos da Copa: Espanha (primeira da lista), Portugal (quarto), Itália (nona) e Inglaterra (décima). A Ucrânia (16ª) nem sequer veio à Copa.

Em compensação, chegaram às oitavas de final a França (17ª colocada no ranking), o México (vigésimo), a Argélia (22ª), a Costa Rica (28ª) e a Nigéria (44ª).

Lembranças

Antes de embarcar de volta para Portugal, Cristiano Ronaldo tomou as devidas providências para não carregar apenas frustrações na mala. Deu um rolezinho na rua 25 de Março, em São Paulo, e comprou algumas lembrancinhas mais felizes do que a campanha da sua seleção na Copa.

Brincadeirinha, né?

As andanças de Cristiano Ronaldo são uma bem humorada ação da agência Señores, de São Paulo, que trouxe da Turquia o mais famoso sósia do craque, o advogado Gokmen Akdogan, e o levou para passear pelo Brasil afora.

Para ver outras imagens do 'craque português' em ação fora dos campos, clique aqui.

Mate, mas não morda

Os esportes, especialmente o futebol, são uma linguagem criada pelo homem como forma de codificação e, portanto, de sublimação dos atos de agressividade das eras primitivas e, portanto, é natural que uma infração às regras tão surpreendente quanto as repetidas mordidas do uruguaio Luisito Suárez em seus marcadores seja punida com algum rigor.

A Fifa, no entanto, exagerou na dose, somando nove jogos e mais quatro meses de suspensão e uma multa milionária à proibição da presença do craque uruguaio em ambientes do futebol, algo que só encontra paralelo na 'legislação' de algumas ligas esportivas dos Estados Unidos. Não condiz com a cultura do futebol, muito menos com uma competição disputada em campos do Brasil.

Proibir Suárez de frequentar estádios, campos de treinamento e concentrações é um exagero que soa absurdo aos brasileiros obrigados a dividir arquibancadas e cadeiras especiais com assassinos que vitimaram dezenas de outros torcedores na última década em jogos domésticos e até internacionais - como chora ainda hoje a família do garoto boliviano Kevin Spada, assassinado por um sinalizador atirado por corintianos no jogo contra o San José, em Oruro, pela Libertadores do ano passado.

Nenhum dos assassinos dos últimos dez anos está preso. E muitos, talvez todos, continuam frequentando os estádios, provavelmente até as arenas da Copa.

Fora das regras

Não se sabe se por conta própria ou por obediência a recomendações dos organizadores, os árbitros praticamente aboliram algumas regras do futebol e não veem ou fazem que não veem nesta Copa:

# Jogadores que seguidamente os peitam em protesto contra suas decisões.

# Jogadores que ignoram suas marcações e continuam jogando, inclusive chutando a bola para o gol quando eles apitam alguma infração.

# Jogadores que, ao tentar alcançar a bola, põem em risco a integridade física do adversário, mesmo sem tocá-lo, ou seja, cometem jogo perigoso.

Dentro do jogo

Em compensação, é impressionante o número de lances em que os árbitros têm atrapalhado o time que está atacando, colocando-se na trajetória da bola e tocando ou se deixando tocar por ela. Não se veem tantos erros de colocação do árbitro nem em peladas na praia.

Antimarketing

Exatamente às 15h53 do sábado, dia 28, enquanto rolava a cobrança de pênaltis para decidir se Brasil ou Chile passaria às oitavas de final, uma amiga minha recebeu um SMS da Vivo com a informação de que a conta dela vencerá nesta terça-feira, 1º de julho.

A Vivo, como se sabe, é uma das patrocinadoras da Seleção Brasileira.

Fim de papo

"Neymar é a mais rara das aves na fauna do futebol: um bailarino-artilheiro, um malabarista que esbanja invenção sem jamais perder de vista que, se a arte é bem-vinda no futebol, só costuma virar obra-prima quando a rede balança". - Sérgio Rodrigues, também autor de uma obra-prima, O Drible, em artigo na edição eletrônica de Veja/Placar

Atualizado em: 30/6/2014 07:27

COORDENAÇÃO

Roberto Benevides é jornalista, foi por muitos anos colunista e o editor do caderno de esportes de O Estado de S. Paulo, trabalhou também no JB, na Folha de S.Paulo, nas revistas Veja, Exame, Quatro Rodas, Placar e Época. Nos últimos dois anos, fez a coordenação editorial de uma coleção de 15 livros sobre esportes olímpicos publicada pelo editora do Sesi.

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