domingo, 28 de fevereiro de 2021

COLUNAS

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Ano novo, vida velha

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

"American historian Robert M. Levine, director of Latin American Studies at the University of Miami, has once commented that Brazilians are a kind of people who 'pride themselves on being especially creative in their array and variety of gambit suitable for bending rules'. Actually, they pride it so much that they have even elevated the bending of legal norms to a highly prized institution: the jeito or jeitinho.

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The social mechanism known as jeito can be adopted in many legal and non-legal situations. A jeito can be asked, for instance, when the queue in a bank is too long and a person argues that he cannot wait for his turn. Lawyers can also apply it in the form of a 'favour' (legal or illegal) requested to court employees. Finally, it can also be granted by a public inspector who condones the failure of a company to comply with a statutory provision for considering it somehow uneconomic, unjust or unrealistic".

Augusto Zimmermann,

Jeitinho, Brazil's Creative Way to Break the Law

and Feel Virtuous about It

(clique aqui)

Que é o hábito? Diz-se que ele não faz o monge. Mas também se diz que ele cria uma segunda natureza. Não sei como as coisas estão por esse país afora, mas, para quem sempre conviveu com a elegância feminina, até porque eu era filho de costureira e sobrinho de alfaiate, sendo atualmente esposo de uma fã da Coco Chanel, a substituição do vestido pelas calças compridas, faça-me o favor. Fossem calças femininas ainda seria algo aceitável, mas a moda do unissex nivelou tudo por baixo. Isso quando as tais calças não trazem buracos no joelho, na coxa, na canela ou sei lá onde mais. E para não falar no pretendido ar surrado, provocado pelo desbotamento proposital do tecido. Para mim, trata-se de um hábito furado.

Verdade que se pretendeu amenizar a coisa, reduzindo as pernas das calças a um mínimo, dando-lhes um pretenso toque mais feminino, lembrando as pin-up girls dos ano 50, com seus saltos altíssimos. Menos mal. Dia desses vi no shopping uma mulher de costas, segurando a mão de uma criança. Dado o tamanho do short, tive a curiosidade de ver a tal moça de frente. Como avó da criança até que ela estava com boa aparência, pesassem os gambitos e as varizes.

A palavra "hábito", já se vê, compreende muito mais do que a vestimenta, como sabeis. Dia de aniversário ou fim de ano, lá vêm os votos de parabéns e desejos de felicidade. Amigo que é amigo não envia cartão, a não ser que tenha bolado algo muito diferente. A Patrícia, por exemplo, no ano passado mandou cartões em cujo envelope aparecia selo com o rosto dos filhos. Originalíssimo, não?

Desejar a um amigo "Feliz Natal e Próspero Ano Novo" é pedir para romper a amizade. Amigo que é amigo telefona ou manda e-mail convidando para um almoço, um jantar, um brunch ou um cafezinho. Até porque amigo não precisa de data para presentear amigo. Frequentador habitual de livraria, se eu bato os olhos em determinada obra, salta uma ficha: é a cara de fulano. Ou fulana. É comprar o livro, intimar o amigo ou amiga para um encontro e comemorar o seu desaniversário. Que há de tão difícil nisso?

Pior é receber tais votos de pessoas que você nunca viu na vida, como me acontece no aniversário e no final do ano. Árvores e mais árvores derrubadas para nada. Qual o sentido disso? Será que alguém acredita na sinceridade de tais mensagens?

Isso para não falar nos votos fúnebres. "Meus pêsames" diz-lhe alguém na fila dos cumprimentos quando comparece à encomendação de um defunto que te é caro. Pergunte a ele: "Que quer dizer isso?". Ele fará um circunlóquio e terminará falando em "condolências", ficando tudo na mesma. Em compensação, se, quando ele adoecer, você for ao hospital apresentar os pêsames ou as condolências, ele e os familiares te botarão porta a fora. "Eu ainda não morri seu agourento!", berrará ele.

De onde vem a palavra pêsames? Certamente de "pesa-me muito tua moléstia" ou "pesa-me muito a morte de teu pai". Rigorosamente, o pesar é expressão de tristeza, seja pela morte, seja pela doença de alguém. Ou por algum ato difícil de suportar, como a perda do emprego ou um divórcio. "Isso me condói", ou seja, produz dor. Ou condolência.

Já que tocamos no desagradável assunto, experimente perguntar a dez de seus amigos o que significa "féretro". Certamente, onze errarão. Entretanto, o jornal, ao noticiar a morte de alguém importante, diz que o féretro sairá do necrotério tal para o cemitério qual. Como ficamos?

Quer mais: entre numa casa funerária e diga ao atendente que você está interessado num féretro. Quer apostar que ele arregalará os olhos? Talvez seja melhor dizer que quer comprar um esquife.

Isso para não falar nas tais exéquias, que serão realizadas, dependendo da importância do defunto (defunctu vita = "aquele que já se desobrigou dos encargos da vida") ou finado (particípio passado do verbo finar, irmão gêmeo de findar) ou cadáver (caro data vermibus, ou "carne dada aos vermes"), na igreja matriz.

Curioso esse modo solene com que nos referimos às coisas relacionadas com a morte, quando o falecido merece nosso respeito: passamento, desencarne, féretro, condolências, encomendação, exéquias, defunto, cadáver, esquife. Quando não é alguém tão louvável, a terminologia é bem outra: "O presunto foi desovado no lixão".

O que eu queria mesmo era desejar aos meus leitores, cujo número, como na velha piada, é chiquitito pero cumplidor, um próspero Natal e um feliz Ano novo, embora o Natal já tenha passado e, certamente, você foi aquinhoado com muito mais do que aquilo a que se achava com direito. Quanto à felicidade, entra ano e sai ano e eu continuo na mesma ignorância (clique aqui). Você, certamente, ficaria feliz se viesse a constatar que os promotores e os juízes começaram a dedicar-se com mais afinco às suas atividades e estão mandando para a cadeia safados de todos os quilates, nem que sejam colegas. Quem me garante, porém, que você não é um desses safados? O que mostra a sabedoria do Einstein, ao dizer que tudo é relativo, menos a morte. Talvez você sonhe com o dia em que advogados inescrupulosos parem de convencer delegados idem a montar aquilo que nos corredores das delegacias se chama inquérito nati-morto, no qual foram, consciente e voluntariamente, desprezadas garantias óbvias constantes da chamada "cláusula do devido processo legal", como declarará o promotor anos e anos depois dos fatos, mandando refazer tudo aquilo, com a consequente prescrição retroativa da ação penal, extravagância tão brasileira como a jabuticaba, cujo sabor, porém, é bem melhor e mais fácil de engolir, com caroço e tudo.

Como quer que seja, nos momentos mais difíceis lembre-se daquele louco varrido que dava marteladas na própria mão. Cada golpe era seguido de um berro. O médico plantonista, depois de desarmá-lo, indagou: "Mas isso não dói?". E o outro: "Só quando o martelo desce. Quando ele sobe, que felicidade!".

Atualizado em: 12/1/2012 11:18

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