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Pecados interiores

sexta-feira, 14 de março de 2008

Atualizado em 13 de março de 2008 14:32

 

"A verdade é que apenas Deus pode conhecer Deus".

Joseph Campbell

"- Você acredita em Deus, vô ?"

Será que os netos não têm mais nada para perguntar aos seus avôs ? Eu aqui descansado, tentando decifrar um livro do Guimarães Rosa, e vem esse fedelho me desafiar com suas dúvidas existenciais.

Marquei a página do livro até onde eu havia conseguido chegar, coloquei-o sobre a mesinha, ao lado do abajur e de outros três livros que disputam entre si a prioridade da leitura, sentei meu neto em meu colo e tomei fôlego para uma conversa longa.

Como falar de algo tão transcendente sem ser pedante nem ser, como direi ?, ingênuo ? Conheço meus netos e sei que eles estão sendo criados com toda liberdade e num clima de diálogo, sem a imposição de verdades absolutas, como era comum no meu tempo de criança e como sei que ainda ocorre em certas famílias, principalmente quando os pais não têm tempo para dialogar com os filhos ou, por modéstia ou ignorância, se acham sem competência para isso.

"- Para que eu fale de um assunto desses, primeiro quero saber o que você já sabe a respeito dele" comecei, malandramente, invertendo, de certa forma, o problema por ele trazido.

Ele falou de coisas vagas, fantasiosas, que, certamente, havia aprendido em aulas de religião. São os conceitos tradicionais, que falam na criação do mundo, no surgimento do primeiro casal, em pecado, em céu e inferno e coisas tais. Uma criança que tem o mundo diante de si, por força da internet, aprendendo ali o que deve e o que ainda não precisa aprender, aceitará essas histórias que intimidavam nossos pais e nossos avós ? Será que não há um modo mais adequado para despertar a criança para os valores transcendentais ? Para a chamada conduta ética ?

Abri um dos livros que estavam sobre a mesinha e dei para ele ler uma das páginas. Era um desses best-sellers do dia, traduzido para o português, numa linguagem sem afetação. Ele leu atenciosamente o texto por duas vezes e depois, a meu pedido, explicou-me, sem grande dificuldade, aquilo que havia lido.

Depois, entreguei a ele um livro de poesia e repeti o mesmo processo. Agora ele embatucou na hora de me explicar o que havia lido. Olhou o nome do autor e me indagou quem era Fernando Pessoa. Sem comentar sua dificuldade, indaguei-lhe se ele seria capaz de cantar as primeiras estrofes do nosso hino nacional, pois eu já sabia que uma vez por semana eles são obrigados a cantá-lo no colégio. Ele sapecou o "ouviram do Ipiranga as margens plácidas de um povo heróico o brado retumbante". Mandei que ele parasse aí e me explicasse, com suas palavras, o que aquilo queria dizer.

"- Agora você me pegou" disse ele.

"- Quer dizer que vocês cantam o nosso hino todas as semanas e os professores nunca lhes explicaram o que isso quer dizer ?" indaguei.

"- Eu nem sabia que isso quisesse dizer alguma coisa" disse-me o cínico. Em lugar de um sermão sobre a má qualidade do ensino em nosso país, propus a ele que puséssemos em ordem direta aquela frase. "Aliás esse é um exemplo daquilo que os gramáticos chamam de hipérbato, ou seja, a colocação das palavras em uma frase fora da ordem a que estamos acostumados. Logo logo o teu professor de português lhe ensinará isso".

"- Algum dia ainda vou aprender isso tudo e serei tão culto como você, vô", bajulou-me o garoto. Passamos então à ordem direta daquela pomposa frase : "as margens do (riacho do) Ipiranga ouviram o brado de um povo heróico". Eis o que o poeta quis dizer.

"- Mas um riacho tem ouvidos, vô ? "

"- Aí é que entra algo que nos ajuda a entender a linguagem religiosa. Nem sempre aquilo que está sendo dito significa aquilo que parece significar. Por causa disso, surgem pessoas que se dispõem, de boa ou de má fé, a mostrar às pessoas o significado daquilo que nossa inteligência não consegue entender".

"- Eu, por exemplo, não entendi nada de todo esse seu discurso, vô".

"- Então me diga: você acredita que exista a Austrália ?"

"- Claro, vozão. Eu vi na televisão um programa que mostrava o deserto da Austrália e os cangurus saltando pra todo lado".

"- Mas quem lhe garante que aquele deserto é mesmo na Austrália e não na África ? Quem lhe garante que aqueles animais estranhos, que têm as pernas da frente bem menores do que as pernas de trás, não é um truque de cinema, um efeito especial como alguns personagens da série Guerra nas Estrelas ?", provoquei.

O garoto ficou sério, pensou um pouco e saiu-se com esta : "Quer dizer que eu não devo acreditar em tudo que me mostram ? Em tudo que me contam ?"

Dei uma sonora gargalhada e um abraço no meu neto mais velho.

"- Você agora falou como certos filósofos gregos, que diziam exatamente isso : desconfie sempre. Eu não aceito essa filosofia, porque ela torna a vida um inferno. Já imaginou eu pondo em dúvida se você é meu neto, pondo em dúvida se a água que sai da torneira está boa para se beber, se a comida que me servem no restaurante não estará envenenada, se a notícia que li no jornal é mentirosa e assim por diante. Quem consegue viver assim?"

"- Mas eu também não posso aceitar tudo o que me dizem, é ou não é ?" diz ele com seriedade.

"- Viu como isso é complicado ? Pois quando alguém, por mais importante que seja, afirma que Deus lhe disse alguma coisa, a primeira pergunta que nossa inteligência faz é : se ninguém sabe como é Deus; se ele, ao que tudo indica, não usa carteira de identidade, como é que aquela pessoa, mesmo estando de boa fé, sabe que falou com Deus ?"

"- Então esse problema não tem solução", concluiu meu esperto neto primogênito.

"- Algumas pessoas, de fato, entregam os pontos e chegam a afirmar que Deus não existe, o que é uma grande bobagem. O fato de eu nunca ter estado na Austrália e nunca haver tocado num canguru não me dão a certeza de que eles não existam. Se eu pegar um avião e for à Oceania, que é um outro continente, eu poderei saber, sem ter de confiar na palavra dos outros, se a Austrália e os cangurus existem ou não".

"- Isso quer dizer que, se eu pegar um foguete e for pelo espaço eu acabo descobrindo se Deus existe e onde ele está ?" disse o garoto.

A conversa estava indo mais longe do que eu esperava, mas eu não poderia encerrá-la sem dar um fecho razoável ao assunto, para não deixar meu neto mais confuso do que estava antes. Dizer a ele que só na nossa Via Láctea, uma das milhões de galáxias que há no universo, deve haver mais de 200 bilhões de estrelas e que, de acordo com qualquer cálculo de probabilidades, deve haver algum outro ambiente no espaço sideral onde a vida, tal como a conhecemos na Terra, é possível, seria algo adequado à idade dele ?

"- Então me responda o seguinte : o que é o sol para você ?" indaguei-lhe.

O garoto, sem pestanejar, foi objetivo : "é uma bola de fogo que circula no céu e produz luz e calor".

"- Bravo. Bem na mosca. Se você olhar esse mesmo céu à noite, especialmente quando não há lua, você verá um número incalculável de estrelas. Que é uma estrela ?"

"- É um pontinho luminoso azulado".

"- Pois fique sabendo que a maioria daqueles pontinhos luminosos azulados são também bolas de fogo, que produzem luz e calor. Em torno de cada uma dessas estrelas talvez girem planetas, como ocorre com o nosso sol, que, saiba você, é também uma estrela, menor do que muitos daqueles pontinhos azulados".

A surpresa de meu neto, diante de minha revelação, foi muito menor do que imaginei que seria.

"- E o que isso tem a ver com Deus ?" foi tudo o que ele disse.

"- Eu estou tentando mostrar que tanto o sol como as demais estrelas que vemos à noite representam uma parcela mínima, quase insignificante de um conjunto de estrelas que se chama Via Láctea. A Via Láctea é apenas uma das inúmeras galáxias que compõem o universo, cujo número exato nós desconhecemos".

"- E onde entra Deus nisso tudo ?" indagou o garoto, já demonstrando certa impaciência.

"- A nossa experiência nos ensina que tudo o que existe teve um criador. Se você vê na calçada um montinho de cocô" disse eu, usando, de caso pensado, um objeto de que ele certamente não se esqueceria, "você conclui que o criador daquele objeto foi um cachorro, até porque cocô não surge do nada. Certo ?"

Ele não tinha como discordar de mim.

"- Ocorre, porém, que você não tem como saber qual a raça nem a cor do criador daquele objeto. O que, no entanto, você consegue saber é que o criador é muito maior do que aquilo que ele criou. De acordo ?"

Ele não deixou por menos: "você está tentando me dizer que Deus é um enorme cachorro e que esses bilhões de estrelas são como cocôs que ele deixou no espaço ?"

Não pude deixar de dar uma gargalhada estrondosa, diante da irreverência do garoto. Agora era aproveitar a deixa.

"- Em termos poéticos, sua comparação não seria de se jogar fora, principalmente se levarmos em conta o que os homens fizeram com nosso planeta. Na verdade, o que estou tentando mostrar é que, pelo fato de nós conhecermos a obra, isso não significa que conseguiremos conhecer o seu autor. No caso do universo, nem podemos dizer que conhecemos a obra toda, pois ainda sabemos muito pouco a respeito dele. A rigor, nós sabemos quase nada. Quantas galáxias ele tem ? Isso compreende quantas estrelas ? Qual o tamanho do espaço ocupado por isso tudo ? Nós não temos resposta para essas perguntas".

"- E Deus deve ser maior do que isso tudo" diz meu neto, deixando-me emocionado.

"- É exatamente isso. Se nós não temos condição de conhecer a obra criada, como podemos atrever-nos a dizer que conhecemos seu criador, que, como bem disse você, deve ser maior e mais complexo do que ela ?"

"- E como saímos dessa, vô ?" indaga-me o garoto, com certa apreensão na voz.

"- Acho que a solução mais prática é esta: a nossa inteligência nos diz que nós nascemos para sermos felizes. E também ela nos mostra que nós não conseguimos ser felizes se as pessoas à nossa volta não forem também felizes. Se a idéia de quem nos criou foi a de permitir que cada um de nós alcance a felicidade, podemos extrair disso uma regra geral: não faça ao próximo aquilo que você não gostaria que ele lhe fizesse. E trate o próximo como gostaria de ser por ele tratado".

"- Ou eu irei para o inferno. É isso ?" indaga o guri.

"- Eu não gosto de falar em céu e inferno, porque acho que podemos ensinar as crianças a descobrir que fazer a coisa certa traz um prazer que não depende de uma futura gratificação. E que fazer a coisa errada acaba causando um enorme mal-estar, com sentimento de culpa e arrependimento, que fará a pessoa concluir que esse não é o melhor caminho. Ao menos para a maioria das pessoas. Talvez esse sofrimento é que seja o verdadeiro inferno".

"- Acho que por hoje chega, vozão. Tenho que pensar em tudo isso, que já é muito para minha pobre cabecinha", disse meu neto.

Finda a exposição, meu primogênito deu-me um beijo no rosto e saltou do meu colo. Antes que ele se fosse, fiz-lhe uma última pergunta, que, de certa forma, concluía tudo o que eu havia tentado ensinar-lhe.

"- Você beijou meu rosto porque se sente bem quando está comigo ? Porque sabe que isso me faz feliz ? Ou porque está interessado em ganhar um bom presente no seu aniversário ?"