terça-feira, 24 de novembro de 2020

COLUNAS

Publicidade

A miopia do mercado

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Há quem afirme que o tal do "mercado financeiro e de capital" é uma parcela bem informada da opinião pública. Nem tanto ao céu e nem tanto ao mar. O mercado (não apenas o financeiro e de capital) é a representação, historicamente construída, de certos interesses, sobretudo os capitalistas. Não se pode igualar a dinâmica do mercado com a da sociedade, pois isto seria um reducionismo incabível. De outro lado, não se pode imaginar que o "mercado" seja uma ficção descolada da realidade: é como já dito a "construção" histórica que permite que os preços dos bens e serviços flutuem ao sabor das informações disponíveis e expectativas formadas.

A harmonia entre os interesses representados no mercado financeiro e de capital - este enquanto parcela de todo o "mercado" - e os interesses sociais é vital para o desenvolvimento econômico e social. Por sua vez, é a política que permite que sejam exercidos os checks and balances necessários à arbitragem dos interesses específicos do mercado financeiro e de capital e da sociedade como um todo. Não se pode "socializar" o mercado e nem se pode mercantilizar de forma absoluta a sociedade. Caso uma destas escolhas absolutistas seja feita, o caminho é o do atraso ou da desestabilização política. Como afirmava o pensador alemão Karl Mannheim (1893-1947), não se pode tornar a forma de conhecer as coisas um ato meramente lógico (digo eu: como o mercado), mas é preciso acrescer a este conhecimento elementos de natureza não-teórica advindos da vida social e das experiências dos indivíduos. Uma rápida olhada na história nos ensina aonde desembocou a União Soviética em pouco mais de 70 anos de socialismo científico e como as crises capitalistas do início século XX acabaram por causar grandes conflagrações políticas, incluso o nazismo e fascismo.

As próximas eleições gerais brasileiras serão provavelmente marcadas por uma disputa ideológica feroz. De um lado os governos do PT serão apresentados como dissociados dos interesses do mercado. Isto resultou, segundo esta versão, num completo fracasso econômico que atolou o país num crescimento medíocre e numa perspectiva pouco promissora. De outro lado, o situacionismo tentará provar ao distinto eleitor que os avanços sociais foram fundamentais para tornar o país mais igualitário, aspecto este paradigmático frente à história brasileira. A oposição, por esta visão, estaria organizada para evitar novos avanços sociais.

Nem precisamos ir muito longe para constatarmos que estes posicionamentos eleitorais servirão apenas para obscurecer um debate mais verdadeiro sobre o futuro do país. A questão mais importante para o eleitor talvez seja como harmonizar a construção de uma sociedade moderna do ponto de vista capitalista e calcada em avanços sociais que curem as mazelas da ignorância e da pobreza. Discutir este tema implica em menos desconstruções e muito mais em orientações no sentido do desenvolvimento e da civilização. Pode parecer pueril esta posição, mas não nos resta alternativa se enquadrarmos a próxima corrida eleitoral num perfil meramente de forma sem conteúdo concreto. O Brasil está muito atrasado em relação ao mundo global e necessita urgentemente de reformas capitalistas e sociais, ao mesmo tempo e em larga envergadura.

Do ponto de vista do mercado financeiro e de capital as variações mais recentes das cotações adquiriram o perfil ideológico da política: a cada notícia ruim na órbita do governo as ações das nossas principais blue chips estatais variam para cima e vice-versa. A chamada "análise fundamentalista" se transformou em um jogo automático no qual o mercado observa o próprio umbigo e acaba por esquecer que a sociedade é algo muito maior e à política cabe muito mais que ajustar tarifas de empresas elétricas e da Petrobras. A sociedade brasileira é complexa e cheia de variantes e o próximo presidente terá de repensar sua liderança no sentido de estabelecer a necessária harmonia entre os vários interesses existentes na sociedade. Mesmo porque em todos estes anos de governos petistas, não se pode dizer que o mercado teve seus interesses contrariados. Ao contrário, muitos deles foram muito bem satisfeitos. Da mesma forma, o período tucano não foi tão liberal quanto imaginam os operadores financeiros. Olhados os últimos 20 anos houve conquistas e derrotas e na somatória destas o país ainda está longe de seu potencial, seja do ponto de vista capitalista, seja do ponto de vista social.

É preciso que esta parcela organizada da sociedade, denominada de "mercado" não caia na armadilha do jogo político dicotômico que está sendo construído nesta corrida eleitoral. Isto pode contribuir para a pouca efetividade do debate que se aproxima depois da Copa do Mundo. Ademais, pode ser uma armadilha na qual os melhores interesses do mercado acabem tropeçando e sendo dragados.

Atualizado em: 16/7/2014 08:05

COORDENAÇÃO

Francisco Petros é advogado, sócio responsável pela área societária, compliance e de governança corporativa do escritório Fernandes, Figueiredo, Françoso e Petros Advogados. Economista e pós-graduado em finanças. Trabalhou por mais de 25 anos no mercado de capital, em instituições financeiras brasileiras e estrangeiras. Foi presidente da APIMEC - Associação Brasileira dos Analistas e Profissionais de Investimentos do Mercado de Capitais (2000-2002).

Publicidade