quarta-feira, 27 de janeiro de 2021

COLUNAS

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EUA e China: sinal de alerta

terça-feira, 6 de agosto de 2019

O Brasil é, obviamente, caudatário desse processo.

O futuro é naturalmente opaco, mas o populismo político, com fortes feições reacionárias e o atolamento do crescimento econômico estão deixando o horizonte muito cerrado.

O processo de globalização e liberalização de mercados produziu ao redor do globo um enorme incremento da riqueza em detrimento do aumento do capital. O investimento capenga enquanto os gastos em bens de alto valor, inclusos os imóveis e bens de luxo, sobem. Os sinais são de aumento gritante das diferenças entre as classes sociais. No capitalismo norte-americano, jamais os mais ricos ganharam tanto em relação aos mais pobres. Essa constatação, em menor medida, vale também para os outros países centrais do capitalismo.

O impacto desse processo é o aumento gradual, constante e relevante das tensões políticas. Líderes de estirpe populista estão a se apropriar do discurso estridente do anti-globalismo, nacionalismo, racismo e do uso dos valores ditos tradicionais para vociferarem as ansiedades das multidões abandonadas pelo processo de desenvolvimento capitalista. Ademais, as instituições burguesas, notadamente a democracia liberal está sob o jugo de lideranças que estão a testá-las no intento de concentrar mais poder na forma mais personalista, quiçá ditatorial ou autoritária.

A ordem jurídica internacional é sempre mais caótica que a interna de cada país como bem doutrinaram George Frost Kennan e Raymond Aron. No contexto da globalização vigente e do vasto arsenal militar atômico usado como "meio diplomático", o jogo tende a ser cada vez mais não-cooperativo diante do populismo interno dos países.

Donald Trump é a manifestação mais presente desse processo. Faz um jogo interno de médio prazo, pensando, de um lado, nas eleições do ano vindouro e, de outro, em variáveis estratégicas, tais como, o atraso tecnológico dos EUA frente à China (e.g. na área da tecnologia 5G) e na captura comercial das empresas norte-americanas pelo 'Gigante do Oriente'. Enquanto isso, seu eleitorado no Meio-Oeste do país fica à espera de algum resultado concreto que até agora não veio. Com efeito: o discurso político tem de radicalizar uma vez mais para manter sob controle o eleitorado do populista-republicano. Do lado democrata, o jogo se torna confuso, pois a defesa de suas plataformas tradicionais, mais voltadas para o mercado interno, conflita com a pauta populista de Trump. Forma-se, então uma enorme confusão, cujo desfecho eleitoral é completamente incerto.

O que não é incerto é que o jogo de Trump no mercado internacional é de risco enorme. A subida das tarifas alfandegárias para combater as importações chinesas é de duvidoso resultado do ponto de vista da atividade econômica e coloca o mundo inteiro em frenética expectativa que contamina o consumo e o investimento. Afora a reação chinesa de retaliar os EUA por meio de equivalente aumento de tarifas contra produtos norte-americanos, agora vê-se o governo de Pequim realizando manobras cambiais, desvalorizando sua moeda, o renminbi. Isso significa que a "guerra comercial" saiu de sua versão convencional de usos de tanques e infantaria (tarifas e outras restrições) para armamentos não-convencionais, quiçá a bomba atômica (desvalorizações cambiais contínuas). Os chineses, ao desvalorizar a sua moeda, facilitarão as suas exportações para os EUA e para os países vinculados ao dólar (como o Brasil), mas também dificultarão os investimentos realizados em dólar que se tornarão mais custosos em termos comparativos. Importante lembrar que o sistema financeiro chinês é extremamente regulamentado pelo governo comunista e sob seu controle agirá no interesse da política econômica do país. Esse não pode ser o caso do sistema financeiro dos EUA que não necessariamente acompanhará Trump em sua aventura populista-econômica. Obviamente, que há riscos para o lado chinês, tais como, o aumento dos preços das commodities que pode afetar a inflação doméstica e o próprio nível de consumo interno do país. Todavia, a aposta que Pequim faz no âmbito da política cambial parece trazer mais riscos para os EUA, pois coloca a maior economia mundial frente a dilemas perante os seus principais aliados, os quais hoje estão rebaixados à categoria de segunda classe. A ordem mundial também está sob risco.

O Brasil é obviamente caudatário desse processo. Além de ser menos relevante no comércio mundial, está submetido a uma longa estagnação, desde meados de 2014. Por aqui a retomada do investimento é bastante incerta e o consumo está maculado pela baixa renda e pelo imoral desemprego. A sociedade quer acreditar que a reforma da previdência social é um "novo começo", mas isso parece ser algo mais imagético do que propriamente real. Claro que construir uma previdência mais isonômica e justa é essencial, mas de ilusões não se pode viver. É hora de enfrentar desafios reais. Somos um país de analfabetos funcionais, desagregado por anos de atraso tecnológico e por aventuras econômicas. Falta-nos capacidade de organização política e agora o discurso volta a ser meramente ideológico. Estamos diante de devaneios de Bolsonaro enquanto lá fora a coisa pode acabar em um tremendo pesadelo provocado por Trump.

Atualizado em: 6/8/2019 10:40

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