terça-feira, 27 de outubro de 2020

COLUNAS

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O mercado do vírus

terça-feira, 17 de março de 2020

É tempo de dar proporção aos riscos, não os minimizar,
mas também não os engrandecer

Em artigo anterior ("O vírus do mercado", de 4/3/2020) fiz uma reflexão sobre os "efeitos do vírus sobre o mercado". Naquele artigo alertei para o fato de que não deveríamos subestimar o efeito do maléfico vírus corona vez que "previsões iniciais sobre cada uma delas (as pandemias) falharam por demais. Para o bem e para o mal". Agora verificamos que o efeito do vírus se agigantou perante os principais países do mundo e, enfim, chegou a nossa vez de enfrentar o problema de frente. A previsão falhou "para o mal..."

As cotações dos ativos estão derretendo: a título de ilustração, o Índice SP500 perdeu ¼ do seu valor entre 19/2/2020 e 16/3/2020. Interessante que o processo de queda começou sem grande volume de negociação, possivelmente por estarmos diante de um fato relativamente inédito, e, aos poucos, os vendedores foram ganhando força.

Certamente há pânico no mercado a ponto de os investidores terem reagido negativamente até quando as autoridades monetárias injetaram recursos no mercado e reduziram para zero as taxas de juros, como foi o caso do Federal Reserve. Das teorias da conspiração até a simples percepção de que vem uma recessão forte logo a frente, poucos tiveram consistência analítica para bem informar o tal do mercado.

O que não faltou foram as fake news e líderes populistas, liderados por Donald Trump, minimizando os efeitos do vírus. O presidente norte-americano até explicitou xenofobia com o "vírus estrangeiro" que atacava o país. Agora o populista americano se rende à realidade.

Obviamente, é muito difícil diante das batalhas, ter a frieza e as informações que permitam vislumbrar minimamente o desfecho dessa tragédia. Todavia, uma coisa é certa: os preços dos ativos estavam elevados antes do início da queda do mercado e os investidores, ao redor do mundo, estavam muito comprados. O efeito do processo de redução da alavancagem (posições compradas em ativos acima do valor disponível no caixa) já seria devastador. Com o vírus correndo solto, o ajuste foi rápido e violento, desta feita para baixo. Usualmente em situações como essa, depois de certo tempo os investidores com horizontes de mais longo prazo têm a chance de comprar ativos de qualidade bem mais baratos. O que assusta nesse momento é que enorme ceticismo tomou conta do mundo e os efeitos da crise estão se espalhando para além dos hospitais caóticos. Há a presunção de que mercados são operados dentro da racionalidade. Ocorre que no momento é o pânico a única razão dos movimentos dos preços.

Conceitualmente, no uso do jargão do mercado, "pânico" ocorre quando os investidores tem visões bastante distintas sobre o retorno esperado de determinado ativo que seja compatível com o risco, posto que o risco é desconhecido (ou de difícil determinação). Assim sendo, a volatilidade (grau de incerteza sobre o retorno esperado) é muito elevada.

É exatamente a situação atual: ninguém parece capaz de auferir qual será o efeito da crise sanitária sobre a economia mundial e local.

O que me parece certo é que as medidas adotadas pelos governos para combater o vírus são insustentáveis do ponto de vista lógico. Não parece provável que as pessoas possam ficar sistematicamente reclusas sem que isso acabe por afetar o abastecimento de bens, especialmente de comida. Portanto, teremos de ver como as coisas andarão nas próximas semanas. Até lá muito álcool gel.

Um raciocínio simples indicaria que o ajuste de preços no mercado não deveria ir muito além do que foi. Se considerarmos que os preços dos ativos estão relacionados com o "valor intrínseco", ou seja, pelo valor presente dos fluxos de caixa futuros, a recessão vindoura pode não afetar mais de um ano. Logo, a parcela do fluxo de caixa futuro é relativamente pequena em relação ao valor total desse fluxo (que é o valor da empresa). O que seria um ou dois anos em um fluxo de dez anos mais o valor da perpetuidade dos resultados das empresas? Depois de tanta queda dos preços, estruturalmente os ativos podem ter descontado os excessos otimistas dos últimos anos. Obviamente, falo de uma maneira geral, não estou me referindo às especificidades de certos ativos.

De todo modo, não dá para minimizar o que está a ocorrer. Estou apenas construindo um pensamento minimamente lógico em meio ao comportamento volátil e eventualmente irracional dos investidores.

Também não quero aqui minimizar o "financismo" que prevalece no mundo capitalista. Não parece razoável que haja um deslocamento tão grande entre a realidade econômica e aquela que é vivida nas mesas de operações, estas sempre focadas em interesses e visões de curto prazo. De outro lado, também temos a desigualdade social, as tensões políticas externas e internas, os riscos cibernéticos e os temas ambientais como assuntos que são deixados de lado em prol dos interesses financistas.

Creio que estamos diante de um fato inédito desde a grande guerra que terminou em 1945: as pessoas estão recolhidas como que a espera de um bombardeio. Essa pandemia realmente impressiona.

Todavia, é tempo de dar proporção aos riscos, não os minimizar, mas também não os engrandecer. Um enorme ajuste econômico está a caminho, mas o horizonte continua lá. É preciso olhá-lo com certa frieza para que não nos desesperemos. Não estou tão pessimista quanto verifico que o tal do mercado está.

Atualizado em: 17/3/2020 10:33

COORDENAÇÃO

Francisco Petros, é advogado, sócio responsável pela área societária, compliance e de governança corporativa do escritório Fernandes, Figueiredo, Françoso e Petros Advogados. Economista e pós-graduado em finanças. Trabalhou por mais de 25 anos no mercado de capital, em instituições financeiras brasileiras e estrangeiras. Foi presidente da APIMEC - Associação Brasileira dos Analistas e Profissionais de Investimentos do Mercado de Capitais (2000-2002).

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