quinta-feira, 26 de novembro de 2020

COLUNAS

Publicidade

Em vez de ou ao invés de

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

O leitor Jânio Paiva Albuquerque, da Petrobras, envia-nos a seguinte mensagem: "Não estaria incorreto o uso da expressão 'ao invés de' no texto desta migalha?

'Personagem-título

Ao invés de fazer comentários sobre a ida do médico ministro da Fazenda ontem ao Senado, preferimos colar abaixo as manchetes dos jornais pátrios. Há migalhas para todos os gostos.' (Migalhas 1.294 - 17/11/05). Saudações.'

Envie sua dúvida


1) Cuidado com essa expressão, cujo significado é em lugar de. Ex.: "Em vez de português, procure estudar matemática".

2) Não confundir com ao invés de, cujo significado é ao contrário de.

3) Alguns autores, como Napoleão Mendes de Almeida1, defendem a possibilidade de que a primeira expressão possa ser utilizada em lugar da segunda, mas não o inverso.

4) Nesse sentido também há a síntese de Josué Machado: "Em vez de que dizer em lugar de; ao invés de significa ao contrário de. No entanto, em vez depode substituir ao invés de, mas ao invés de não pode substituir em vez de".2

5) Outros, porém, como Vitório Bergo, não permitem confusão alguma, e fazem total diferença entre essa expressão, com o sentido de em lugar de, e a locução ao invés de, com o significado de ao contrário de3.

6) Desse último posicionamento também é o Padre José F. Stringari, para quem "a locução ao invés de não tem parentela nenhuma com em vez de", trazendo em colaboração exemplos de autores os mais abalizados:

a) "Em vez de livro, prometeu-lhe o Espírito Santo" (Camilo Castelo Branco);

b) "Nada aqui pomos que seja por nós inventado; muito ao invés disto, nos ativemos à exposição do mestre universaldo espiritismo" (Carlos de Laet).4

7) Edmundo Dantes Nascimento, com a corroboração de exemplos significativos, também faz a distinção: em vez de "significa mera substituição", enquanto ao invés de traz a "ideia de oposição" e é "semelhante a ao revés de":

a) "Absolveu, ao invés (ao revés) de condenar" (oposição);

b) "Condenou a dois anos em vez de três" (substituição).5

8) Lembrando ser "comum a troca entre expressões parônimas" e que não se há de confundir a locução considerada com ao invés de, anotam Regina Toledo Damião e Antonio Henriques que "a expressão em vez de não exige sentido de situação antônima; basta a ideia de mera substiruição".6

9) Nesse mesmo sentido é a doutrina de Arnaldo Niskier: "ao invés de só se usa quando há ideias opostas, contrárias; quando as alternativas não são opostas, utiliza-se em vez de".7

10) O melhor parece ser acolher a lição majoritária, com a integral distinção entre as referidas expressões.

11) De modo específico para o caso da consulta, fixa-se, por primeiro, o sentido exato do texto: 'Em lugar de fazer comentários..., preferimos colar..." Estabelecida a exata significação, vê-se, ante as observações feitas, que só se pode dizer, no caso, "Em vez de...", jamais "Ao invés de...", ainda para a posição mais liberal da Gramática. Certo, portanto, o nosso leitor, ao apontar o equívoco do nosso Migalhas.

_________

1Cf. ALMEIDA, Napoleão Mendes de. Dicionário de Questões Vernáculas. São Paulo: Editora Caminho Suave Ltda., 1981. p. 26.

2Cf. MACHADO, Josué. Manual da Falta de Estilo. 2. ed. São Paulo: Editora Best Seller, 1994. p. 182.

3Cf. BERGO, Vitório. Erros e Dúvidas de Linguagem. Rio de Janeiro: Livraria Editora Freitas Bastos, 1944. v. II, p. 100.

4Cf. STRINGARI, Padre José F. Canhenho de Português. São Paulo: Editorial Dom Bosco, 1961. p. 60.

5Cf. NASCIMENTO, Edmundo Dantes. Linguagem Forense.5. ed. São Paulo: Saraiva, 1982. p. 83.

6Cf. DAMIÃO, Regina Toledo; HENRIQUES, Antonio. Curdo de português Jurídico. 2. ed. São Paulo: Atlas, 1994. p. 60.

7Cf. NISKIER, Arnaldo. Questões Práticas da Língua Portuguesa: 700 Respostas. Rio de Janeiro: Consultor, Assessoria de Planejamento Ltda., 1992. p. 32.

__________

* Publicado originalmente em 16/8/06.

Atualizado em: 11/8/2006 09:04

COORDENAÇÃO

José Maria da Costa é graduado em Direito, Letras e Pedagogia. Primeiro colocado no concurso de ingresso da Magistratura paulista. Advogado. Mestre e Doutor em Direito pela PUC/SP. Ex-Professor de Língua Latina, de Português do Curso Anglo-Latino de São Paulo, de Linguagem Forense na Escola Paulista de Magistratura, de Direito Civil na Universidade de Ribeirão Preto e na ESA da OAB/SP. Membro da Academia Ribeirãopretana de Letras Jurídicas. Sócio-fundador do escritório Abrahão Issa Neto e José Maria da Costa Sociedade de Advogados.

Publicidade