quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

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Benfeito, Bem-feito ou Bem feito?

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

O leitor Álvaro Lorencini envia a seguinte mensagem ao Gramatigalhas:

"Prezado dr. José Maria da Costa: No seu texto de estreia publicado no último domingo, a nova ombudsman da Folha de S. Paulo escreve a certa altura da sua coluna: 'Enquanto há jornal, o importante é que seja benfeito' (sic). Nesse caso, eu diria 'bem feito', no sentido de bem elaborado, bem fabricado, etc. Entretanto o VOLP da Academia registra essa forma 'benfeito', que os dicionários ainda não acataram. Gostaria de seu douto parecer em mais essa questão gramatical. Atenciosamente."

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1) Um leitor encontrou a seguinte frase: "Enquanto há jornal, o importante é que seja benfeito". E indaga se a forma correta é benfeito ou bem feito, até porque, ao consultar o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, editado pela Academia Brasileira de Letras, deu ele exatamente com benfeito, ali discriminado especificamente como adjetivo, posição essa que os dicionários ainda não acataram.

2) Estabeleça-se uma importante premissa: a Academia Brasileira de Letras detém a delegação legal para listar oficialmente os vocábulos que integram nosso léxico, bem como para determinar qual sua grafia correta. E ela o faz por meio da edição do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa.

3) Ora, ao tempo em que se responde a esta consulta, a última edição escrita do VOLP é a de 2009, e nela realmente se registra benfeito como um adjetivo e também como um substantivo .

4) Com a observação de que, em algumas épocas, a par da disponibilização escrita do VOLP em livro específico, a ABL também faculta ao leitor a consulta on-line em seu site, anota-se que, no instante em que se elabora esta resposta ao leitor (dezembro de 2015), a edição virtual do VOLP, retificando sua última posição escrita, registra benfeito apenas e tão somente como substantivo, e não mais como adjetivo. E é a esse novo posicionamento oficial que se deve prestar obediência.

5) Abrindo-se um parêntese, louve-se a atitude da ABL, a qual, na dedicatória da edição de 2009, chama os usuários da língua "a colaborar com achegas, sugestões, críticas e correções" no aperfeiçoamento de tal obra. Trata-se de posicionamento de quem entende o idioma como ser vivo e mutável, compreende a necessidade de eventuais modificações no curso do tempo, vê que seu trabalho é passível de equívocos e se põe em atitude de verdadeira humildade, com a disposição de corrigi-los. Essa alteração em seu banco eletrônico de dados põe isso em evidência.

6) Respondendo, a seguir, na prática, à indagação do leitor: a) na atualidade, existe benfeito em nosso léxico, mas apenas como substantivo; b) seu emprego como adjetivo não atende aos padrões de correção do idioma; c) também não encontra respaldo a forma bem-feito; d) o adjetivo, assim, deve obedecer à grafia bem feito.

7) Confiram-se, portanto, os exemplos a seguir, com a indicação, entre parênteses, de sua correção ou erronia: a) "Enquanto há jornal, o importante é que seja benfeito" (errado); b) "Enquanto há jornal, o importante é que seja bem-feito" (errado); c) "Enquanto há jornal, o importante é que seja bem feito" (correto).

8) Em adendo, sem querer causar confusão ou polêmica, acrescenta-se que, contrariando a postura da ABL, a) o dicionário Houaiss não registra benfeito como substantivo e dá bem-feito (com hífen) como forma correta para o adjetivo; b) o dicionário Aurélio também não faz constar benfeito como substantivo, mas aponta benfeito (em uma só palavra) como adjetivo.

9) Ou seja: a) ambos se opõem à ABL, ao ignorarem benfeito como substantivo; b) e ambos dela divergem quanto ao adjetivo, um por preconizar a forma bem-feito (com hífen), e outro por lecionar a grafia benfeito (em uma só palavra).

10) Ante esse quadro, é oportuno ressalvar que, sem desprezo algum pelo utilíssimo trabalho prestado pelos dicionaristas ao idioma, quando há divergência entre algum deles e o VOLP, a razão deve ser creditada sempre a este último, que é a palavra de quem detém a autoridade oficial para definir aspectos linguísticos dessa natureza.

Atualizado em: 24/10/2018 08:25

COORDENAÇÃO

José Maria da Costa é graduado em Direito, Letras e Pedagogia. Primeiro colocado no concurso de ingresso da Magistratura paulista. Advogado. Mestre e Doutor em Direito pela PUC/SP. Ex-Professor de Língua Latina, de Português do Curso Anglo-Latino de São Paulo, de Linguagem Forense na Escola Paulista de Magistratura, de Direito Civil na Universidade de Ribeirão Preto e na ESA da OAB/SP. Membro da Academia Ribeirãopretana de Letras Jurídicas. Sócio-fundador do escritório Abrahão Issa Neto e José Maria da Costa Sociedade de Advogados.

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