sábado, 24 de outubro de 2020

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É proibido - Como concordar?

quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

A leitora Cláudia Ribeiro envia a seguinte indagação ao Gramatigalhas:

"Encontrei a seguinte frase em um livro: 'foram precisos vários minutos para remover a neve que bloqueava a porta'. A expressão 'foram precisos' me soou muito estranha e inadequada. A construção está correta? Obrigada!"

 

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1) Uma leitora encontrou em um livro a seguinte frase: "Foram precisos vários minutos para remover a neve que bloqueava a porta". A expressão foram precisos lhe soou estranha e inadequada. Por isso indaga se ela está certa.

2) Em realidade, expressões como é bom, é necessário, é preciso, é proibido apresentam problemas quanto às concordâncias nominal e verbal.

3) Se o sujeito é genérico (não vem precedido de artigo ou palavra especificadora), a expressão fica invariável, no masculino singular: "É proibido entrada".

4) Se o sujeito é específico (tem antes de si algum termo que o determina), a expressão concorda com o nome a que se refere: "É proibida a entrada".

5) Se ocorre elipse do verbo ser, continuam valendo as recomendações feitas. Exs.: a) "Proibido entrada"; b) "Proibida a entrada"; c) "Proibido armas a tiracolo"; d) "Expressamente proibido animais na praia".

6) A respeito da concordância observada, Aires da Mata Machado Filho refere lição de Said Ali, o qual - na tentativa de explicação da invariabilidade do adjetivo em tais casos - recorre à elipse de um verbo, cujo objeto direto seria o substantivo subsequente às locuções em apreço.

7) Assim, "é preciso paciência" valeria o mesmo que "é preciso ter paciência".

8) Após noticiar a referida doutrina, porém, tal autor (MACHADO FILHO, 1969a, p. 573-6) - no que é seguido por Antenor Nascentes, em posição que parece mais acertada - dá preferência à lição de Mário Barreto: "Não se diga que a língua portuguesa não tem gênero neutro; diga-se antes que nela há o neutro, mas que a sua forma se confundiu com a do masculino. Em português, como em toda língua, o neutro distingue-se, no pensamento, do masculino, posto que já não se distingue um do outro exteriormente, por formas gramaticais particulares ao masculino e ao neutro, formas que se tornaram idênticas pela obliteração das antigas terminações que os diferençavam".

9) E Eduardo Carlos Pereira (1924, p. 229), lembrando que tal sintaxe é "um dos vestígios interessantes do gênero neutro em português", justifica que, em expressões desse jaez, "bom, necessário, proibido assumem a forma aparentemente masculina, porém realmente neutra, visto que os substantivos a que se referem, tomados em sua generalidade abstrata, assumem o sentido vago, no qual como que se oblitera o conceito genérico".

10) Carlos Góis (1943, p. 94), por seu lado, vê em construções dessa natureza a "elipse de termos de uma segunda oração do período, da qual o único elemento sobrevivente é o tal nome no plural", acrescentando que a concordância expressa é a mais usual entre os autores, exemplificando com o Padre Vieira: "Para esta visão são necessários olhos".

11) Em termos práticos, tomando por referência a frase "é proibido entrada", significativa é a síntese que Silveira Bueno fazia a um de seus consulentes: "Quando o substantivo (entrada) é tomado em toda a sua generalidade, sem determinação alguma, assume a forma neutra o adjetivo, permanecendo invariável. Mas se o snr. colocar o artigo antes de entrada, então deverá fazer a concordância" (1938, p. 222-3).

12) Cândido de Oliveira (s/d, p. 69) sintetiza a questão em duas regras para tais expressões: a) os adjetivos "ficam invariáveis quando não há artigo a"; b) contudo, "se houver artigo [e, obviamente, for ele feminino], vem a forma feminina".

13) Em outra obra, assim explana Silveira Bueno, em mesmo sentido: "Quando determinada palavra é tomada em toda a significação, sem a menor restrição ou determinação, pode o adjetivo permanecer no masculino sem concordar com o termo a que se refere. Assim se diz: é proibido entrada, é necessário gramática, cerveja é bom para engordar. Basta que se ponha o artigo para que a concordância passe a ser obrigatória: é proibida a entrada..., é necessária a gramática, a cerveja é boa para engordar" (1957, p. 375).

14) Por sua vez, ensina Vitório Bergo (1944, p. 106) ser concordância regular e permitida "Eram precisas despesas"; observa, todavia, não ser "condenável a concordância 'Era preciso despesas', notadamente com o substantivo não definido".

15) Mesmo em casos de ocorrente determinação, observa Artur de Almeida Torres que, "às vezes, porém, ou porque haja elipse de um infinitivo, ou porque perdure o sentido de neutralidade, o predicativo não concorda com o sujeito determinado". Exs.: a) "Não era preciso esta minuciosa genealogia" (Machado de Assis); b) "É necessário uma derradeira prova de esforço" (Alexandre Herculano); c) "Era preciso muita cautela" (Camilo Castelo Branco).

16) E justifica tal gramático: "Pode-se subentender, em tais casos, os verbos ter ou possuir: É necessário (ter ou possuir) muita cautela" (TORRES, 1966, p. 164).

17) É interessante registrar que à possibilidade de permanência do verbo no singular, mesmo "figurando na frase um nome no plural posposto com a 'aparência de sujeito'", Carlos Góis (1943, p. 123) dá o nome de discordância verbal.

18) Com essas observações, assim se conclui em resposta direta à leitora: a) no caso do exemplo por ela trazido, o circunlóquio a ser considerado é "foram precisos vários minutos"; b) nesse torneio, é preciso atentar à expressão vários minutos; c) ora, vários é o modificador suficiente para fazer variar a concordância da expressão é preciso; d) está, portanto, plenamente correta a concordância do exemplo por ela trazido, a saber "foram precisos vários minutos"; e) quanto a outras possibilidades de concordância, vale a pena ler as observações e o ensino dos gramáticos, tais como acima referidos.

Atualizado em: 8/1/2020 08:42

COORDENAÇÃO

José Maria da Costa, é graduado em Direito, Letras e Pedagogia. Primeiro colocado no concurso de ingresso da Magistratura paulista. Advogado. Mestre e Doutor em Direito pela PUC/SP. Ex-Professor de Língua Latina, de Português do Curso Anglo-Latino de São Paulo, de Linguagem Forense na Escola Paulista de Magistratura, de Direito Civil na Universidade de Ribeirão Preto e na ESA da OAB/SP. Membro da Academia Ribeirãopretana de Letras Jurídicas. Sócio-fundador do escritório Abrahão Issa Neto e José Maria da Costa Sociedade de Advogados.

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