quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

COLUNAS

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Porém - No meio da frase? E com vírgula?

quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

O leitor Bruno Moreira envia a seguinte mensagem para a seção Gramatigalhas:

"Prezado Dr. José Maria, primeiramente peço que desculpe minha insipiência. Esclareça minha dúvida, por favor. Qual a forma correta para a expressão a seguir: 'Discordo, porém, da multa aplicada' ou 'Discordo porém da multa aplicada'. Ou ainda nenhuma das duas. Agradeço desde já a atenção."

Envie sua dúvida


1) Um leitor indaga qual das duas frases é correta: a) "Discordo, porém, da multa aplicada"; b) "Discordo porém da multa aplicada". E, aventando a possibilidade de nenhuma delas estar correta, pede auxílio.

2) A dúvida do leitor, em realidade, abrange dois aspectos de discussão: a) procura saber se as conjunções adversativas (porém, todavia, contudo, entretanto) podem estar no meio da oração, e não no começo; b) como se dá a questão do emprego das vírgulas.

3) Num primeiro aspecto, é certo que diversos autores e diplomas legais preferem intercalar entre vírgulas, no meio da oração, as conjunções adversativas a fazê-las iniciar as orações, o que também é correto. Exs.: a) "Sucedeu, porém, que como eu vinha cansado, fechei os olhos três ou quatro vezes" (Machado de Assis); b) "A interrupção, porém, aberta por um dos credores solidários aproveita aos outros" (CC/1916, art. 176, § 1°).

4) Não se sabe bem, todavia, de onde se originou um estranho ensino (mas é certo que Cândido de Figueiredo, por exemplo, o repete), que pretende não se poder começar uma oração com algumas conjunções adversativas, sobretudo com porém. Para os gramáticos que defendem esse ponto de vista, a conjunção adversativa jamais deve iniciar uma oração, mas deve vir posposta ao primeiro ou aos primeiros termos do segmento em que se insere. Vejam-se os seguintes exemplos, com a indicação e a erronia para os seguidores dessa corrente: a) "O magistrado inquiriu a testemunha; não foi, porém, bem sucedido" (correto); b) "O magistrado inquiriu a testemunha, porém não foi bem sucedido" (errado); c) "O réu podia estar na audiência; não podia, porém, interferir" (correto); d) "O réu podia estar na audiência; porém não podia interferir" (errado).

5) Indagando-se acerca da correção de principiar uma oração com tal conjunção adversativa, contudo, Assis Cintra responde pela afirmativa, argumentando que, "desde os mais velhos escritores da língua até os mais modernos, todos eles iniciam frases com a conjunção citada". E refere exemplos dos mais abalizados mestres de nossa língua em todos os períodos (CINTRA, 1922, p. 26-31): a) "Porém já cinco sóis eram passados" (Camões); b) "Porém não se imagine o pecador estar destituído de verdadeiro arrependimento" (Padre Manuel Bernardes); c) "Porém, já neste tempo andava outro gênero de profecia mais temeroso" (Frei Luís de Sousa); d) "Porém todos os clássicos de todos os tempos ma deparam frequentemente assim colocada" (Rui Barbosa); e) "Porém casos há em que a preposição que acompanha o complemento direto não é expletiva" (Mário Barreto).

6) Ainda para refutar esse ensinamento, traz-se a lição de Silveira Bueno: "O ensino geral de que as orações adversativas não podem começar pela conjunção porém, devendo esta vir sempre depois das primeiras palavras, é totalmente sem fundamento. Veja estes exemplos de Vieira, que, por certo, ninguém me vai dizer que não sabia escrever corretamente: 'Porém, todas estas cousas verdadeiramente grandes... etc.'; 'Porém, nós como morremos?'; 'Porém se sucedesse alguma vez não ser assim...'. Pode-se, portanto, começar a oração adversativa com a conjunção porém, tomando por exemplo o maior escritor da língua portuguesa" (1957, p. 331).

7) Outra não é a lição de Luciano Correia da Silva: "Já se ensinou que não se devem usar no início da frase as adversativas em geral (porém, no entanto, todavia, contudo, etc.), que precisam ocupar, entre vírgulas, posição intermediária... Todavia, essa regra não encontra respaldo literário, uma vez que os melhores escritores nunca a observaram". E lista ele exemplos de autores insuspeitos no vernáculo (SILVA, L., 1991, p. 47): a) "Porém, como ela (a sentença) foi pronunciada definitiva e declaradamente..." (Padre Vieira); b) "Entretanto, vida diferente não quer dizer vida pior" (Machado de Assis); c) "Contudo, certas formas de encantamento que observamos na vida contemporânea parecem confirmar a cediça verdade..." (Carlos Drummond de Andrade).

8) É oportuno acrescentar que, se, quanto ao estilo, pode ser mais fluente pospor a conjunção em tais casos, essa já é outra questão, que escapa à analise e ao questionamento acerca da correção de tal emprego, atestada à farta pela autoridade dos exemplos citados.

9) Essas observações valem para outras conjunções igualmente adversativas: todavia, contudo, entretanto.

10) Uma análise de nossa legislação permite extrair as seguintes ilações a esse respeito: a) o mas, como é de regra, sempre inicia oração e não pode ser intercalado; b) as demais conjunções adversativas às vezes começam as orações, às vezes se intercalam entre seus termos; c) por questão de estilo, contudo, é perceptível a preferência pela intercalação.

11) Num segundo aspecto, deve-se atentar aos seguintes pontos: a) quando começa uma segunda oração, a conjunção a separa da primeira, e essa divisão de orações normalmente é marcada por vírgula ou ponto e vírgula; b) considerada na oração por ela iniciada, avulta observar que, já que o papel da conjunção é ligar orações, seu lugar natural é o início da oração por ela começada; c) por essa razão, se a conjunção inicia a oração, normalmente não há vírgula para separá-la do termo que lhe vem a seguir; d) se, porém, por questão de estilo, se quer intercalá-la entre os termos da oração a que pertence, então essa intercalação vem marcada por duas vírgulas, uma antes e outra depois da conjunção.

12) Confiram-se os seguintes exemplos, todos corretos, a comprovarem os aspectos teóricos acima referidos: a) "Não queria dormir; porém sucedeu que fechei os olhos por três ou quatro vezes"; b) "Não queria dormir; sucedeu, porém, que fechei os olhos por três ou quatro vezes"; c) "O magistrado inquiriu a testemunha, todavia não foi bem sucedido"; d) "O magistrado inquiriu a testemunha; não foi, todavia, bem sucedido".

13) Respondendo diretamente ao leitor, confiram-se os seguintes exemplos, alguns por ele trazidos e outros com variações, todos com a indicação de sua correção ou erronia entre parênteses: a) "... porém discordo da multa aplicada" (correto); b) "... porém, discordo da multa aplicada" (errado); c) "... discordo porém da multa aplicada" (errado); d) "... discordo, porém, da multa aplicada" (correto).

Atualizado em: 17/1/2020 12:08

COORDENAÇÃO

José Maria da Costa é graduado em Direito, Letras e Pedagogia. Primeiro colocado no concurso de ingresso da Magistratura paulista. Advogado. Mestre e Doutor em Direito pela PUC/SP. Ex-Professor de Língua Latina, de Português do Curso Anglo-Latino de São Paulo, de Linguagem Forense na Escola Paulista de Magistratura, de Direito Civil na Universidade de Ribeirão Preto e na ESA da OAB/SP. Membro da Academia Ribeirãopretana de Letras Jurídicas. Sócio-fundador do escritório Abrahão Issa Neto e José Maria da Costa Sociedade de Advogados.

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