quarta-feira, 25 de novembro de 2020

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Autópsia ou necrópsia?

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

O leitor Emílio de Oliveira e Silva envia-nos a seguinte mensagem:

 

"Deu no Migalhas que, segundo relatório preliminar da autópsia, Slobodan Milosevic morreu em conseqüência de um enfarte do miocárdio (Migalhas 1.371 - 13/3/06 - "Milosevic morreu de enfarte"). Ora, se autópsia consiste no exame de si mesmo, não seria o caso de substituir este termo por necropsia (exame de cadáver)? Fica a dúvida para o Dr. José Maria da Costa. Abraços!"

 

Também indaga Aparecido Nunes Barbosa:

 

"No texto há a afirmação de que Badan fez 'autópsia' (Migalhas 1.741 - 18/9/07 - "Migas - 10" - clique aqui). Qual a terminologia indicada, esta ou necropsia? Sou estudante de Direito, busco com esta indagação o aprendizado, espero contar com a ajuda deste."

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1) Em termos de análise de seus elementos componentes, autópsia vem do grego: auto (por si mesmo ou pessoalmente - e não de si mesmo) + psia (ação de ver ou examinar). Significa, em suma, analisar por si mesmo ou analisar pessoalmente. E aqui já se verifica que não quer dizer examinar a si próprio.

2) Necropsia também vem do grego: necro (morte, morto ou cadáver) + psia (ação de ver ou examinar).

3) Para Domingos Paschoal Cegalla, autópsia é um "termo usado impropriamente em Medicina Legal, em vez de necropsia, que é a perícia feita em cadáver para apurar a causa do óbito (causa mortis)".1

4) Por outro lado, leciona Eliasar Rosa que necropsia é "neologismo criado para substituir autópsia, que, entretanto, não vingou".2

5) Quanto à prosódia da primeira das palavras mencionadas - ou seja, no que tange à correta pronúncia e localização da sílaba tônica no vocábulo - veja-se que o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa - veículo oficial da Academia Brasileira de Letras para apontar quais as palavras existentes em nosso léxico, assim como para definir qual sua grafia e pronúncia adequadas - em sua edição de 2004, registra autópsia, mas não autopsia.3

6) Quanto ao segundo dos termos, por seu lado, o VOLP registra apenas necropsia, e não necrópsia.4

7) Ora, ao editar o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, a Academia Brasileira de Letras age por delegação legal, de modo que sua palavra é a própria lei, no que concerne aos aspectos de sua incumbência. Desse modo, conclui-se, por um lado que está oficialmente autorizado o emprego dos substantivos autópsia e necropsia, mas não de autopsia nem de necrópsia.

8) Por outro lado, embora necropsia tenha conteúdo etimológico mais preciso, nada impede em nosso idioma o emprego de autópsia. Os vocábulos coexistem no idioma e se prestam a expressar o mesmo significado e a mesma realidade.

__________

1CEGALLA, Domingos Paschoal. Dicionário de Dificuldades da Língua Portuguesa. 2. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999, p. 46.

2ROSA, Eliasar. Os Erros Mais Comuns nas Petições. 9. ed. Rio de Janeiro: Livraria Freitas Bastos S.A., 1993, p. 98.

3Cf. Academia Brasileira de Letras. Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa. 4. ed., 2004. Rio de Janeiro: Imprinta, p. 87.

4Cf. Academia Brasileira de Letras. Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa. 4. ed., 2004. Rio de Janeiro: Imprinta, p. 549.

Atualizado em: 2/10/2007 12:30

COORDENAÇÃO

José Maria da Costa é graduado em Direito, Letras e Pedagogia. Primeiro colocado no concurso de ingresso da Magistratura paulista. Advogado. Mestre e Doutor em Direito pela PUC/SP. Ex-Professor de Língua Latina, de Português do Curso Anglo-Latino de São Paulo, de Linguagem Forense na Escola Paulista de Magistratura, de Direito Civil na Universidade de Ribeirão Preto e na ESA da OAB/SP. Membro da Academia Ribeirãopretana de Letras Jurídicas. Sócio-fundador do escritório Abrahão Issa Neto e José Maria da Costa Sociedade de Advogados.

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