sábado, 24 de outubro de 2020

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Namorar com

quarta-feira, 10 de junho de 2009

A leitora Maria Anésia Cançado envia ao Gramatigalhas a seguinte mensagem:

"Bom dia, senhores! Mais uma vez agradeço Migalhas recebidas e envio dúvida relacionada à linguagem jornalística, que sempre me intriga: Namorar com? A mim, sempre soa estranho... É correto ou não o uso dessas expressões? Grata."

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Namorar com

1) Quer no sentido de desejar ardentemente algo, quer no significado de cortejar, galantear, trata-se de verbo transitivo direto (construído sem qualquer preposição). Ex.: "O rapaz namorou a vizinha durante dois anos".

2) Atente-se a que não admite ele a mesma regência verbal de casar, não aceitando, assim, ser construído com a preposição com, razão pela qual é errônea a frase: "O rapaz namorou com a vizinha durante dois anos".

3) Nessa mesma esteira, observem-se particularmente as construções errôneas com os pronomes comigo, contigo e consigo que, etimologicamente, trazem implícita a preposição com. Assim a frase "Você quer namorar comigo?", conhecido quadro de um programa de auditório, deve ser corrigida para "Você quer me namorar?".

4) Veja-se, em confirmação, que, para Luís A. P. Vitória, trata-se de "verbo transitivo direto" e "não admite, pois, a preposição com".1

5) Vitório Bergo o insere no rol daqueles verbos que merecem especial cuidado quanto à regência: namorar, e não namorar com.2

6) Ronaldo Caldeira Xavier, fundando-se em lição de Hildebrando Affonso de André, insere a expressão namorar com alguém no rol dos italianismos a serem evitados e aconselha sua substituição por namorar alguém.3

7) Atento à linguagem forense, Edmundo Dantès Nascimento aponta erros de regência desse verbo até mesmo em sentenças de anulação de casamento ou de separação judicial, com o emprego da preposição com ("Namorava com ele"), alertando que o correto é Namorava-o.4

8) Anote-se que, em lição não aplicável à norma culta, Evanildo Bechara ressalta seu uso coloquial com a preposição com, "influenciado talvez pela regência de casar".5

9) De igual modo, Aires da Mata Machado Filho, sem explicação alguma nem abono de autor autorizado, observa de modo simplista e telegráfico: "Usam-se as duas regências".6

10) Silveira Bueno, contrariando entendimento majoritário e alegando inexplicáveis questões de "psicologia do verbo", aduz que tal vocábulo traduz "ação que requer companhia, e a preposição adequada é com".7

11) Após citar lição de Silveira Bueno no sentido da possibilidade de emprego da sintaxe namorar com, acrescenta Luciano Correia da Silva "outro fato, que determina usos e costumes em nossa língua: a analogia. A analogia com o verbo casar com, vizinho de namorar, pode ter influído para que tivéssemos o namorar com, mais visto no Rio, Norte e Nordeste".8

12) Celso Pedro Luft também considera normal o emprego da regência namorar com, argumentando com a existência da idéia de companhia, de encontro.9

13) A par do fato da inexistência de cunho científico para tal proceder, todavia, acresce observar que Francisco Fernandes, em postura mais harmônica com a tradição e com a ciência, cita diversos exemplos, ora tendo o verbo como intransitivo, ora como pronominal; em momento algum, todavia, cogita da estrutura namorar com.10

14) Ante tais considerações, o melhor posicionamento continua sendo empregá-lo simplesmente como verbo transitivo direto, sem possibilidade de regência com a preposição com, no que concerne aos textos que devam submeter-se ao padrão da norma culta.

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1Cf. Vitória, Luís A. P. Dicionário de Dificuldades, Erros e Definições de Português. 4 ed. Rio de Janeiro: Tridente, 1969. p. 169.

2Cf. Bergo, Vitório. Consultor de Gramática e de Estilística. Rio de Janeiro: Livraria Editora Zelio Valverde, 1943. p. 212.

3Cf. Xavier, Ronaldo Caldeira. Português no Direito. 9 ed. Rio de Janeiro: Forense, 1991. p. 91.

4Cf. Nascimento, Edmundo Dantès. Linguagem Forense. 5 ed. São Paulo: Saraiva, 1982. p. 91.

5Cf. Bechara, Evanildo. Moderna Gramática Portuguesa. 19. ed., segunda reimpressão. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1974. p. 319.

6Cf. Machado Filho, Aires da Mata. "Análise, Concordância e Regência". In: Grande Coleção da Língua Portuguesa. São Paulo: co-edição Gráfica Urupês S/A e Edinal - Editora e Distribuidora Nacional de Livros Ltda., 1969. vol. 2, p. 734.

7Cf. Bueno, Silveira. Português pelo Rádio. São Paulo: Saraiva & Cia., 1938. p. 101.

8Cf. Silva, Luciano Correia da. Manual de Linguagem Forense. São Paulo: Edipro, 1991. p. 164.

9Cf. Luft, Celso Pedro. Dicionário Prático de Regência Verbal. 8. ed. São Paulo: Ática, 1999. p. 375.

10Cf. Fernandes, Francisco. Dicionário de Verbos e Regimes. 4. ed., 16 impressão. Porto Alegre: Globo, 1971. p. 431.

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Atualizado em: 5/6/2009 10:45

COORDENAÇÃO

José Maria da Costa, é graduado em Direito, Letras e Pedagogia. Primeiro colocado no concurso de ingresso da Magistratura paulista. Advogado. Mestre e Doutor em Direito pela PUC/SP. Ex-Professor de Língua Latina, de Português do Curso Anglo-Latino de São Paulo, de Linguagem Forense na Escola Paulista de Magistratura, de Direito Civil na Universidade de Ribeirão Preto e na ESA da OAB/SP. Membro da Academia Ribeirãopretana de Letras Jurídicas. Sócio-fundador do escritório Abrahão Issa Neto e José Maria da Costa Sociedade de Advogados.

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