sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

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Stella Com S

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Poderia ser nome de mulher, mas não é. No entanto é o nome de um amor. Amor tão intenso como o despertado pela mulher amada. Não diria ter sido um amor à primeira vista. Aliás, não me lembro se foi ou não. Pouco importa, pois importa sim ter sido um amor sólido, duradouro, eterno.

A rua Stella é a síntese da minha infância e da minha juventude. Não morei nessa rua. Ou melhor, fui nela morar logo que me casei. Lá ficamos por quase dois anos, residindo na vila de baixo, localizada em frente ao campo do Olímpicos da Vila Mariana, glorioso time de várzea. Morei durante a minha vida, vida de criança e de jovem, na rua Cubatão quase esquina com a Stela.

Mas foi nessa rua que eu construí o meu mundo, meu rico mundo infantojuvenil. Meu e de mais dez, quinze, vinte componentes da denominada Turma Stella - T.S. - Os mais antigos se conhecem há mais de cinquenta anos. Há até os que estudaram juntos no primário, na mesma classe. A maioria já ultrapassou os sessenta anos. Esse amado reduto da nossa infância e da nossa juventude nos proporcionou uma época gloriosa de amizade, companheirismo e solidariedade.

Disse haver construído o meu mundo na Stella, na verdade, a minha personalidade e o meu caráter foram forjados no lar e na rua. Sim, a rua Stella contribuiu e muito para a minha formação. Era o nosso mundo, o nosso reino. Nossos espaços eram a Rua Stella, a Rua Cubatão e adjacências; o campo do Olimpicos Futebol Clube; os bares das redondezas; uma chácara localizada em Diadema; o bilhar "Vermelhinho", na Rua Machado de Assis; os boliches, então na moda; o Pacaembu, o Morumbi; o centro da cidade, e ela como um todo, pois nos sentíamos os seus donos.

Não nos largávamos, a nossa convivência era diária. Sentíamo-nos soberanos. Fazíamos o que queríamos. Mais ou menos o que queríamos, pois o nosso querer por vezes esbarrava em obstáculos intransponíveis, representados pelas limitações impostas pelos nossos pais, pelos atentos e vigilantes pais das "meninas" por vezes pelos vizinhos, pelos componentes das outras turmas do bairro e, por vezes, até pela polícia...

Abro um parêntesis para lamentar que os obtusos administradores da cidade deixaram que a ganância imobiliária superasse a necessidade da cidade proporcionar espaços de lazer e de convivência aos seus munícipes, especialmente aos jovens das camadas menos favorecidas. Hoje são raros os campos de várzea.

Na Stella nós brincávamos, namorávamos, jogávamos futebol na rua, ou em qualquer canto, por mais precário que fosse. Disse que brincávamos, é verdade, e não éramos crianças. Já adolescentes não tínhamos nenhum escrúpulo ou constrangimento. A nossa rua era ocupada literalmente para os nossos jogos. Quando não era o futebol eram jogos que hoje não mais são praticados, pois, tristemente, perdeu-se o espaço das ruas. Brincávamos de "mãe da rua", de "mãe da lata" e de "lasca Romeu". Em um deles batia-se com um cinto naqueles que não adivinhassem a mímica feita por quem segurava o cinto ("lasca Romeu"). Já no outro se procurava derrubar quem tentasse atravessar a rua em uma perna só, ("mãe da rua"). O denominado "mãe da lata", não me recordo bem, mas igual aos outros implicava em delicadezas físicas... Esses inofensivos folguedos, não muito diferentes do futebol americano ou do rúgbi, mas sem nada que nos protegesse eram um suplício, verdadeiro terror para os moradores da Stella. A implicância, verdadeira aversão, era por nós incompreendida, pois apenas vez ou outra uma janela era quebrada; os jardins das casas danificados; um carro mal estacionado era amassado; um incauto transeunte atingido; ou a educação e a sensibilidade dos moradores eram agredidas pelo nosso palavreado pouco respeitoso, próprio das contendas esportivas, que não raras vezes se transformavam em contendas físicas.

Nós brincávamos, mas também brigávamos, quer entre nós quer com as turmas de outras ruas, ou mesmo de outros bairros. As brigas por vezes eram com hora marcada. Realmente, não eram duelos, mas marcávamos hora e local para acertarmos as nossas diferenças. O local sempre, ou quase sempre era o mesmo. O já mencionado campo do Olímpicos da Vila Mariana. As brigas tinham um ritual, uma liturgia. Fazia-se um risco no chão, quem primeiro ultrapassasse a linha divisória estava sujeito a tomar o primeiro tapa. Na realidade, quase todas as brigas não passavam dos atos preparatórios, pois eram raros os que atravessavam a fronteira. Depois de algum tempo de ofensas e bravatas, os adversários se cansavam e iam embora.

Mas, quando as brigas efetivamente ocorriam ou no "campinho" ou na rua, ou em festas, aliás, nestas eram muito comuns, elas eram incruentas. Naqueles românticos tempos não se matava, apenas se exercitava. Quando brigávamos entre nós, então, sempre havia a posterior confraternização regada à cerveja.

Atualizado em: 25/2/2011 10:36