sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

COLUNAS

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Chácara Zizi

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Era uma propriedade com aproximadamente vinte e quatro mil metros, equivalentes a um alqueire paulista. Localizava-se em Diadema, ainda não elevada à categoria de município. Na verdade, era uma pequena vila, chamada, salvo engano Vila Conceição, com uma igreja, um bar empório e pouquíssimos habitantes. Não possuía asfalto e era carente de muitos outros benefícios urbanos. No entanto, ou talvez por tais características, possuía o encanto de um bucólico vilarejo. Não me lembro de Diadema ser cortada por nenhum riacho, mas deveria haver algum.

Frequentei a chácara Zizi, nome em homenagem à minha avó paterna, em dois momentos da minha vida. Na infância e na adolescência. Foram experiências distintas. Eu tenho algumas vagas e agradáveis lembranças das idas da família à chácara quando era criança.

Recordo-me que havia problemas com a energia para a iluminação da casa. Existia uma máquina, movida à querosene ou à gasolina, que deveria ser acionada por uma cordinha. A geradora estava localizada na garagem, e meu pai se incumbia do seu funcionamento. A torcida era grande. Todos ansiosos aguardavam a luz surgir na casa e na própria garagem. Quando isso não ocorria de imediato, meu pai ia perdendo a paciência, até que dava um fatal puxão na corda. Pronto, arrebentada outra deveria ser providenciada. Começava outra luta, esta travada pelas mulheres que exercitavam a sua capacidade de improvisação. Usavam pedaços de corda, pano rasgado e até fios de lã. Enquanto não retornava a paciência de meu pai e a luz, a escuridão era quebrada apenas por um grande lampião.

Imagem que também tenho nítida na memória é a de minha avó fazendo pães em forno apropriado, que ficava fora da casa. Os pães eram colocados e retirados do forno de alvenaria com uma enorme pá de madeira e eram comidos na hora em que ficavam prontos. Quentes, a manteiga derretia. Até hoje tenho a agradável sensação de os estar comendo. Do aroma também me lembro.

Lembro-me das frutas da chácara. Na verdade, não havia um pomar, mas sim inúmeras árvores frutíferas espalhadas pelos quatro cantos e que nos forneciam jabuticabas, goiabas, pequenas mexericas e mangas. Como eu era de pouca agilidade física, não as colhia em uma das árvores. Esperava que caíssem ou que alguém as colhesse para mim. As jabuticabas enchiam bacias que eram distribuídas a quem as quisesse. Das goiabas restou o aroma, pois o sabor não me agradava, a não ser quando transformadas em doce. As mexericas, azedinhas e abundantes em caldo, deixavam inesquecível cheiro nas mãos ao descascá-las. As mais apreciadas eram as mangas, estupendas mangas.

Havia um pequeno campo de futebol, que na minha infância também servia de quadra de tênis. Rodeado pelas árvores, tinha em uma das laterais uma fileira de pé de café. Para mim, um enorme cafezal . . . Ao lado do campo havia um alpendre onde a família se reunia para os almoços.

Quando dormíamos na chácara, eu me fazia acompanhar de uma bela cartucheira de madrepérolas, que continha dois revólveres dourados. Ao deitar-me pendurava as "armas" na porta e sentia-me protegido e seguro.

Por falar em armas, há uma história corrente na família que meu tio Eugênio Mariz de Oliveira Neto - Marizito - combatente de trinta e dois, escondera seu fuzil na chácara, enterrando-o em algum lugar. Jamais se comprovou tal fato. No entanto, já crescido, eu encontrei uma caixa de lata repleta de balas, provavelmente a munição do misterioso fuzil.

Depois da infância voltei a ir à chácara Zizi, já a partir dos catorze, quinze anos até ela ser vendida. A família já não ia mais. Outra gente passou a usufruir daquele paraíso campestre. Era a minha gente, tal como a minha família. Éramos gente da rua, da nossa rua Stella. Éramos da rua e também de rua, pois dela não saíamos. O nosso mundo era a Stella e adjacências. A casa servia apenas para as refeições, assim mesmo algumas delas e para dormir, isto por indeclinável imposição dos pais.

No fim da década de cinquenta e início da seguinte, passamos a ir à chácara com grande regularidade. Pegávamos o ônibus Diadema na rua Domingos de Moraes. Nunca éramos em menos de quinze. Levávamos bola, chuteiras, naquele tempo eram chamadas também de chanca, algumas vezes camisas de clubes de futebol e, pasmem, alguns entravam no ônibus portando espingardas de chumbo. Não se assustem, pois a fauna era preservada. A pontaria dos caçadores era ridícula.

O trajeto era longo. Saíamos por volta das oito horas e não chegávamos antes das nove. Mas, era sempre uma festa. Sempre uma festa, que se prolongava durante todo o dia, até o anoitecer, quando voltávamos. Por vezes, a festa era entremeada por acalorados bate bocas, que se transformavam em confronto físico, de imediato contido e findo com a confraternização dos contendores. Os entreveros ocorriam sempre nos embates futebolísticos travados no que achávamos fosse um campo de futebol. As partidas eram constantemente interrompidas ou pelas brigas, ou porque perdíamos a bola ou ainda porque as traves caiam.

A chácara possuía uma vegetação exuberante. Com grandes árvores, mata densa, cortada por alamedas que conduziam à sua parte baixa, onde havia um riozinho que formava um pequeno lago aonde nadávamos, ou melhor nos molhávamos. No entanto, o que mais a ornamentava eram as hortênsias. Maravilhosas hortênsias existentes na entrada da chácara, do portão até a casa e ao seu redor.

Lateral à cerca de arame que fazia divisa com outra propriedade, nos fundos da chácara, corria um estreito caminho que ligava as suas duas extremidades. Nesse caminho existia uma imagem de Nossa Senhora, dentro de uma pequena gruta. Nos referíamos à ela como a "santinha".

Além da casa principal, casa simples, havia a casa do caseiro. Em frente a ela algo somente visto em gravuras e fotos de outros países: um moinho de vento. Na verdade, a chácara nos oferecia contato com coisas absolutamente inexistentes em São Paulo. Além do moinho de vento, da "santinha", das árvores frutíferas, da máquina de produzir energia, das hortênsias, do forno para pães, havia um chiqueiro, com porcos de verdade, uma máquina para moer cana e fazer garapa, um milharal, um fogão à lenha e uma enorme caixa d'água.

A chácara nos proporcionava uma ruptura dos nossos padrões urbanos. Entrávamos em contato com um pequeno mundo rural, que para nós era absolutamente desconhecido.

Ademais, nós nos sentíamos livres de quaisquer proibições. Por vezes chegamos a invadir um propriedade vizinha, para usufruir a piscina lá existente. Ficávamos até a inevitável expulsão, sob a mira de espingarda que imaginávamos fosse de sal ou de chumbinho. Naquela época não se atirava para valer.

Na realidade, na nossa trajetória de vida, há símbolos marcantes. A chácara Zizi teve um significado extraordinário em minha vida. Como bucólico espaço físico simbolizou a fuga da vida urbana para a rural; bem como a transposição dos afazeres do estudante e do iniciante trabalhador para o ócio, para os folguedos, para o esporte - mal praticado, diga-se. Era a maravilhosa vagabundagem exercitada com amigos fraternos, inesquecíveis cúmplices de uma inesquecível experiência existencial.

Atualizado em: 7/10/2011 09:13