terça-feira, 24 de novembro de 2020

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A pele que habito - Parte 2

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

 

A pele que habito - Parte 2


A segunda situação pode ser ilustrada com a capacidade de o intérprete-mediador orientar seu cliente estrangeiro, um attorney nesse caso, dizendo a ele, por exemplo, que tipo de construção frasal funcionaria melhor para se obter a resposta de maneira mais direta possível de uma testemunha brasileira, a qual ele estaria inquirindo.

 

Imagine a cena: uma testemunha brasileira é indagada por um juiz norte-americano sobre sua a profissão. "Are you a journalist?", pergunta o juiz. "Você é jornalista?", diz o intérprete. "Veja bem", diz o brasileiro, "ultimamente eu estava trabalhando de...". "Lately, I have been working...", continua o intérprete.

 

O juiz norte-americano assume um olhar intrigado com a resposta, pois ele espera - e quer - uma resposta objetiva. A testemunha brasileira acha importante explicar todos os detalhes de sua carreira profissional informando sobre o que ela própria acha mais relevante sobre o que significa ser ou não ser jornalista.


Essa simples situação pode causar efeitos adversos ao processo judicial. Explico. Na cultura anglo-americana, existem as chamadas yes or no questions. De trato mais pragmático, os anglo-americanos ficam chateados ou contrariados quando a suas perguntas não dadas respostas objetivas, iniciadas por sim/não nesse caso.


Eles estão acostumados a uma resposta do tipo 'answer first', ou seja, primeiro responda ("Sim, sou jornalista". "Não, não sou".) e só depois explique - e se, porventura, lhe for perguntado. Qualquer comportamento que se esquive dessa normalidade pode gerar antipatia e truncar a comunicação.

 
Ao intérprete e ao tradutor que fazem a mediação entre sistemas jurídicos é imprescindível, não apenas conhecer a terminologia jurídica, mas também dominar os aspectos culturais, orientando o cliente acerca de fenômenos linguísticos que, em princípio, poderiam até parecer banais, mas que em muitos casos têm o condão de acelerar o procedimento, minimizando o tempo gasto em depoimentos, o trabalho dos juízes e honorários de advogados.


É por isso o tradutor ou intérprete tem, muitas vezes, como aspecto importante de seu trabalho de especialista em comunicação, a preparação das partes, das testemunhas, dos advogados e mesmo do juiz ou árbitro para lidar com a cultura estrangeira. Trata-se de um trabalho altamente especializado no qual o tradutor e/ou intérprete qualificado é o único profissional capaz de recuperar um entendimento mais fino da pele habitada pelos envolvidos na relação processual, dando fluidez à comunicação entre os interlocutores e reduzindo o tempo e recursos despendidos.

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Atualizado em: 27/1/2012 14:43

COORDENAÇÃO

Luciana Carvalho Fonseca é professora doutora do Departamento de Letras Modernas (DLM) da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH/USP) e da pós-graduação em Tradução (TRADUSP). Fundadora da TradJuris - Law, Language and Culture e autora dos livros "Inglês Jurídico: Tradução e Terminologia" (2014) e "Eu não quero outra cesárea" (2016).

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