quinta-feira, 22 de outubro de 2020

COLUNAS

Publicidade

Política & Economia NA REAL n° 124

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Lula e Dilma: diferenças vitais

Para entender o que pode mudar no governo Dilma em relação ao governo Lula, em políticas e estilo, é preciso observar algumas diferenças entre o presidente e sua sucessora. Lula é pragmático, Dilma ideológica. Lula, não é dado a grandes elucubrações, seu projeto sempre foi, no fundo, acabar com a pobreza, fazer todos os brasileiros comerem três vezes por dia. Dilma tem projetos de transformações estruturais. Formado no sindicalismo, Lula é conciliador. Dilma é catequizada na luta política - tem lado escolhido, além do sentimento de classe e do companheirismo que move Lula. Lula não tem ideias pré-concebidas, Dilma tem posições sobre tudo. Lula age, trabalha e administra na base de, digamos, uma dialética muito peculiar. Deixa haver conflitos internos no seu entorno, ausculta as reações e decida pelo que entende ser o de maior aprovação. Foi assim na vida sindical. Nas assembleias, tinha um aliado para defender cada posição - a favor da greve, contra a greve, a favor da aceitação da proposta, contra a proposta. Olhava a reação da plateia e depois optava pela que tinha tido maior aceitação.

Lula e Dilma no governo

No governo não foi diferente. Veja-se na economia. Enquanto teve dois nomes afinados no comando da economia - Palocci e Meirelles - tinha no Planalto, principalmente na Casa Civil, primeiro com José Dirceu e depois com Dilma, a antítese. Para lembrar : foi Dilma, com a classificação de "rudimentar", que fulminou uma proposta de Palocci de zerar o déficit nominal do setor público. Curiosamente, a mesma ideia que, dizem, ela namora agora. Depois Lula deixou o contraponto ao BC para Mantega e Luciano Coutinho. E administrou a política pendularmente entre um e outros até a crise de 2008, quando passou a prevalecer a posição Fazenda - BNDES. Dilma, anuncia-se, não aplicará a mesma dialética lulista. A equipe econômica estará submetida inteiramente a ela e não terá contrapontos - seguirá a linha nacional-desenvolvimentista que ela adota. Por isso, não deve haver mais espaço para Meirelles no BC. E Palocci corre o risco de ter de pousar no ministério da Saúde. Para o bem e para o mal, é uma mudança e tanto.

Lula em evidência

Lula convocou uma entrevista conjunta dele e da presidente eleita, atrasando a viagem de férias de Dilma, somente para dizer que quem vai mandar no governo Dilma será ela mesma. Inusitado se dissesse o contrário. Depois, Lula convocou rede obrigatória de televisão e rádio para saudar a saudável eleição nacional, dizer bem do futuro com Dilma e propor um desarmamento dos espíritos. Inusitado se dissesse o contrário. Como as duas aparições não trouxeram novidades, eram totalmente dispensáveis, parecem inexplicáveis. Não são, não. Basta ver os noticiários de televisão, com a presidente entrante ocupando cada vez mais espaço e o presidente que sai desaparecendo do noticiário para se compreender tudo.

Lula desmistificado em livro

Vem aí um livro de um jornalista com todas as credenciais para analisar o poder e suas intimidades. Trata-se de uma obra que joga elevadas taxas de realismo sobre a mitificação de Lula. Esta coluna teve acesso ao conteúdo da obra. É explosivo.

G-20 sob risco

Muitas análises dão conta que o G-20 está sob o risco de deixar de ser um fórum funcional para tratar das grandes questões econômicas internacionais. Não é apenas uma possibilidade, caso os EUA mantenham sua posição em relação à desvalorização do dólar no mercado internacional. É quase certeza. Por duas razões agudas : (i) não há da parte dos países emergentes, sobretudo a China comunista, nenhuma estratégia alternativa que seja implementável e que seja satisfatória para os homens de Washington ; (ii) diante da ausência de uma estratégia alternativa é muito provável que os países emergentes e os países ricos se dividam para criar as suas próprias estratégias nacionais na defesa em relação à queda do dólar norte-americano. Neste item, a China mostrará seus dentes de dragão sem se preocupar muito com os outros "companheiros" emergentes (dentre os quais o Brasil).

O FMI original

O governo brasileiro se orgulhou muito de, juntamente com a China, ter aumentado sua participação no órgão multilateral. Pois bem : o FMI é algo decadente e disfuncional como vai provar, mais uma vez, a adoção da recompra de títulos do tesouro norte-americano por parte do Fed, e que resultará numa desvalorização do dólar. A guerra cambial que deve vir por aí foi a razão pela qual Lord Keynes sugeriu a criação do FMI na conferência de Betton Woods, em 1944. O FMI seria uma espécie de "caixa de compensação cambial" na qual os países superavitários depositariam suas reservas e financiariam os países deficitários nas contas externas. Assim, se evitaria a guerra cambial entre eles. Pois bem : o FMI nunca foi isto porque os EUA ao constatarem que iam ganhar não somente a guerra contra os nazistas e japoneses, mas que o dólar ia ser a moeda internacional em substituição à libra. A guerra cambial está aí e o FMI não serve para nada.

O Leviatã Econômico

Todos os caminhos de Dilma na economia levam a um aumento da presença do Estado na economia. A CPMF é a mais visível. Mas há muito mais. As obras da Copa do Mundo devem ganhar grande estímulo nas próximas semanas e meses com a participação de governos locais e o Federal ; o BNDES se prepara para ser uma espécie de seguradora para títulos privados de longo prazo (o balcão de negócios nesta área se agrega a um volume de crédito enorme para o setor privado) ; as obras do PAC ganharão reforço estatal significativo logo no início da nova administração. Não há no Brasil nenhuma força política relevante a impedir este processo. Ao contrário : a provável volta da CPMF mostrará que a docilidade do Congresso e dos governadores - de todas as cepas políticas - com o governo Federal deve ser maior que com Lula neste início da nova administração petista.

Choremos a Argentina, de novo

A morte de Kirchner foi apenas mais um capítulo na atual cena trágica do país rival do Brasil no futebol. A inflação de 30% - ou mais - e os efeitos da guerra cambial lá fora são fatores suficientes para jogar a Argentina numa nova, e enorme, crise econômica. Os investimentos brasileiros naquele país aumentaram demasiadamente nos últimos anos, com a Petrobras liderando este processo. Se somarmos à crise argentina os riscos estratégicos da Venezuela chegaremos à conclusão que há aí um ponto nevrálgico para os riscos externos do Brasil, além do problema cambial no mundo. Quem se dispõe a discutir isto no Congresso Nacional ?

Radar NA REAL

5/11/10  

TENDÊNCIA

SEGMENTO Cotação Curto prazo Médio Prazo
Juros ¹
- Pré-fixados NA estável alta
- Pós-Fixados NA estável alta
Câmbio ²
- EURO 1,3943 queda estável
- REAL 1,6964 estável/queda estável/baixa
Mercado Acionário
- Ibovespa 72.606,53 estável/alta estável/baixa
- S&P 500 1.221,06 estável/alta estável
- NASDAQ 2.577,34 estável/alta estável

(1) Títulos públicos e privados com prazo de vencimento de 1 ano (em reais).
(2) Em relação ao dólar norte-americano
NA - Não aplicável

Começo delicado

Do ponto de vista do apoio da sociedade, não dá um bom pontapé um governo que, sem discutir as questões na campanha, esquecendo-se deliberadamente delas, pode se inaugurar com a recriação da CPMF e mudanças nas regras das cadernetas de poupança. Lula e Dilma puseram para circular as notícias sobre a CPMF, usando como laranjas um grupo de governadores. Assim, o tema já frequenta os debates do grupo de transição.

Uma paraestatal ?

Depois de uma trégua no segundo turno, voltou às mesas decisórias em Brasília o processo de caça  - ou cassa ? - ao presidente da Vale, Roger Agnelli. O novo governo quer indicar o novo executivo da empresa, para torná-la mais cordata. Agnelli caiu em desonra depois que demitiu funcionários no auge da crise e resistiu às sugestões oficiais de investir também fortemente em siderúrgicas. Pode ser uma "reestatização" branca.

Em busca de piso e teto

Vai demorar algum tempo para que todas as feridas da derrota oposicionista cicatrizem. Isso se as do tucanato vierem a cicatrizar de fato. Há mágoas profundas e vaidades ainda em profusão. A disputa pela liderança no PSDB pode ser fatal. As eleições municipais já estão na rua. Para além das questões pessoais - quem será quem no novo oposicionismo - há também o desafio de saber como será esse novo oposicionismo. A oposição só sobreviverá forte e unida se for capaz de formular um projeto para o Brasil diferente do que aquilo que sendo aplicado e será continuado. Terá de mostrar porque o que ela propõe é melhor, não basta apenas criticar e dizer que pode gerir melhor. Tem de apresentar alternativa, com detalhamento e profundidade.

Ingenuidade

Só quem acredita em mula sem cabeça acreditou, durante a campanha presidencial, nas promessas de desoneração de impostos. Só quem convive com sacis acredita que a proposta de volta da CPMF, com codinome CSS, é uma iniciativa autônoma de governadores estaduais e não tem nenhum dedo nem de Lula nem de Dilma.

Incompatibilidade

Continuam sem se dar bem o ministério da Educação e o Enem, eles não se entendem embora habitem o mesmo espaço oficial. Neste fim de semana, foi a entrega de um caderno de questões incompleto e com falhas e a distribuição da folha de gabaritos com erros que alertaram sobre a falta de credibilidade do exame. Certamente, a culpa será atribuída à gráfica e não a quem deveria conferir se estava tudo certo. Em 2006, o Enem foi cancelado depois que o Estadão revelou o vazamento da prova. Em 2009, houve erro no gabarito do INEP. No início de 2010, o mesmo INEP divulgou o gabarito errado de quase mil estudantes. Em agosto de 201,0 vazaram dados sigilosos de alunos. E, no entanto, o ministro Fernando Hadad é cotado para permanecer no posto no futuro governo ou ganhar uma nova missão. É um dos queridinhos de Lula e do PT para futuras missões eleitorais em SP. Deve ser a tal de "meritocracia" a que tanto tem aludido a presidente eleita quando fala na formação de sua equipe.

Dois filões

Para entender a razão de muitos partidos e muitos políticos desprezarem cargos ministeriais e propugnarem vagas mais modestas em estatais ou em fundos de pensão das empresas oficiais :

- Para 2011 as estatais têm uma previsão de investimentos de R$ 107 bi. E mais de 600 cargos executivos de nível, com salários superiores de R$ 20 mil, preenchíveis sem concurso.

- Os fundos de pensão dos empregados das estatais, em tese privados, mas que o governo controla com fervor, têm hoje um patrimônio de mais de R$ 500 bi para investir.

Cotações do ministeriômetro - capítulo II

Repetimos a lista da semana passada. Os novos nomes em relação a lista anterior estão em destaque em itálico. Ainda não tivemos exclusões. Acrescentamos uma nova categoria - "credores". São aqueles que fizeram algum tipo de sacrifício em nome da eleição de Dilma e agora esperam recompensas. Algumas foram solenemente prometidas. A partir da próxima coluna vamos registrar apenas as inclusões e exclusões. Dilma vai aproveitar a companhia do presidente Lula na viagem ao G-20 em Seul para discutir com ele os convites que pretende fazer. Nenhum nome surgirá esta semana. Já depois dos feriados a angústia dos candidatos deve crescer. Ainda mais para a gente do PMDB que, segundo Michel Temer, não reivindica cargos, mas está à mercê do que Dilma e Lula determinarem.

Casa Civil - Antonio Palocci, Maria das Graças Foster, Fernando Pimentel, Paulo Bernardo

Planejamento - Nelson Barbosa, Fernando Pimentel, Luciano Coutinho, Aloizio Mercadante

Secretaria Geral da Presidência - Gilberto de Carvalho, Antonio Palocci

Direitos Humanos - Gabriel Chalita

Ciência e Tecnologia - Aloizio Mercadante

Educação - Gabriel Chalita, Aloizio Mercadante

Petrobras - Maria das Graças Foster, Guido Mantega, Antonio Palocci

Saúde - Antonio Palocci

Integração Nacional - PMDB, PSB, Ciro Gomes, PT

Minas Energia - Graça Foster (assim ela gosta de ser chamada), Edison Lobão

Cidades - Moreira Franco, Marta Suplicy, PP, PSB, PMDB, Fernando Pimentel

Itamaraty - Antonio Patriota, José Maurício Bustami, José Viegas, Mangabeira Unger

Fazenda - Luciano Coutinho

Transportes - Henrique Meirelles, PMDB, PT, PR

Cultura - rol abre-se com mais de 20 nomes, entre eles o ator José Abreu, a senadora Ideli Salvatti, o sociólogo Emir Sader, Celso Amorim

BNDES - Ciro Gomes, Nelson Barbosa

Porto de Santos - PSB

Caixa Econômica Federal - Moreira Franco

Banco Central - Alexandre Trombini, Luciano Coutinho, Nelson Barbosa

Justiça - José Eduardo Cardozo
Agricultura - Blairo Magi
Vale do Rio Doce - Mantega, Gabrielli (ver nota acima)
Comunicações - Hélio Costa
Previdência - Luis Sérgio
Turismo - Luis Sérgio
Desenvolvimento Agrário - Joaquim Soriano
Desenvolvimento Social - Gilberto de Carvalho, Patrus Ananias

Avulsos

Fabio Barbosa (Santander)
Abílio Diniz

Empresário (grife, como Roberto Rodrigues e Luis Furlan no primeiro ministério de Lula)

Sindicalista
Antonio Carlos Valadares

Miriam Belchior (no Palácio do Planalto)

Clara Ant (no Palácio do Planalto)

Alexandre Teixeira (Apex)

José Eduardo Dutra
Credores
Henrique Meirelles
Aloizio Mercadante
Patrus Ananias
Ideli Salvatti

Lulômetro

 

Vamos inaugurar esta semana também os postos que são cogitados para o futuro ex-presidente Lula. A especulação também corre solta nesse campo :

- Fazer churrasco no sítio em São Bernardo (anunciada por ele há tempos, mas aparentemente descartada).

- ONU

- FAO

- Banco Mundial

- Dirigir um projeto específico para erradicação da fome na África

- Conselheiro de Dilma

- Palpiteiro no governo Dilma

- Tutor da futura presidente

- Caixeiro viajante das reformas, especialmente a reforma política.

Atualizado em: 8/11/2010 16:13

COORDENAÇÃO

Francisco Petros, é advogado, sócio responsável pela área societária, compliance e de governança corporativa do escritório Fernandes, Figueiredo, Françoso e Petros Advogados. Economista e pós-graduado em finanças. Trabalhou por mais de 25 anos no mercado de capital, em instituições financeiras brasileiras e estrangeiras. Foi presidente da APIMEC - Associação Brasileira dos Analistas e Profissionais de Investimentos do Mercado de Capitais (2000-2002).

José Marcio Mendonça, é jornalista e comentarista político; editou o Caderno de Sábado, o suplemento de Cultura do Jornal da Tarde e foi chefe de redação da sucursal de Brasília dos jornais: O Estado de S.Paulo e Jornal da Tarde. Apresenta: A Palavra de Quem Decide na Rádio Eldorado e escreve para o Portal Estadão e no Blog: A Política como Ela é.

Publicidade