domingo, 29 de novembro de 2020

COLUNAS

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Política & Economia NA REAL n° 132

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Política econômica em mudança

Há a máxima - muito desgastada, diga-se - de que "não existe almoço grátis". Pois bem : Dilma terá de escolher entre o combate à inflação e o nível de atividade. Tão simples assim : a manutenção da atividade no atual patamar gerará inflação maior e incompatível com as metas estabelecidas pelo próprio governo. E vice-versa. Deve-se notar que a inflação já é um fenômeno consistente e perigoso. Além disso, se o governo resolver operar em favor de uma taxa de câmbio mais depreciada, haverá mais combustão para a inflação. As medidas de contenção de crédito anunciadas pelo BC na última sexta-feira não são suficientes para conter o galopante consumo. São, ademais, uma alerta relevante de que o crédito excessivo dá sinais de deterioração em termos de adimplência e comprometimento da renda disponível da classe média (incluindo a "nova classe média") e da classe de baixa renda.

Investimento sob risco

Quando se restringe o crédito, a demanda agregada como um todo é afetada. Por mais que as autoridades tentem segmentar o crédito de curto e longo prazo (o que é correto), evitando efeitos nefastos sobre o investimento, as restrições de crédito tendem a se generalizar e atingem os investimentos de médio e longo prazo. O que significa que projetos de expansão acabam por ser prejudicados e o papel dos bancos oficiais permanece muito relevante. O problema é que a capacidade do governo emprestar para financiar os investimentos não é infinita. Ao contrário : está bastante limitada pelos riscos fiscais que causam a transferência de recursos do Tesouro. Portanto, devemos esperar menor nível de investimento, muito embora com efeitos menores que no caso do consumo.

COPOM, Selic, etc.

Não deve vir aumento da Selic na próxima e última reunião de 2010. Se virá na primeira de 2011, ficará por conta do "novo BC" : se este estiver comprometido de fato com a política de metas, terá de haver aumento. Caso contrário, a leitura do tal de mercado será negativa, relativamente à política monetária do governo de Dilma. O caso aqui não é fazer uma aposta. É o de verificar a ação governamental e agir depois dos fatos. Há dentro do governo correntes de opinião sobre a condução da política monetária. A presidente terá de optar. Desta opção nascerão as expectativas em relação à inflação, em particular, e à política econômica, em geral. O resto é ruído nos jornais.

É a política, estúpido

Em complemento às análises econômicas, algumas considerações de teor menos, digamos assim, técnico :

1. É curioso, para dizer o menos, que se tenham tomado medidas, um mês depois da eleição, para combater problemas da economia brasileira que, durante a campanha, a presidente eleita e o ministro da Fazenda diziam não existir, embora apontados por especialistas e não apenas identificados com a oposição - ameaça inflacionária, excesso de consumo, crédito mais ou menos frouxo.
2. É curioso que as medidas entrem em vigor às vésperas da última reunião do Copom no governo Lula, quando mais e mais entendidos acham que o BC já deveria ter começado a elevar os juros. Lula, como está visível, não aceita nem um mínimo grão de areia no salto alto que alimenta sua popularidade. Nem Dilma parece querer começar o governo com uma pedra dessas.
3. Para muitos é um sinal das dificuldades - das resistências - de realizar um ajuste fiscal necessário ao corte do consumo via governo.
4. Seria também sinal de que o governo ainda não encontrou uma saída para o Real valorizado.

A Irlanda é vítima

Ao contrário daquilo que muitos analistas brasileiros e estrangeiros opinaram, o caso da Irlanda não é de irresponsabilidade na condução da política de crédito bancário. O país quebrou por causa da crise bancária generalizada na Europa (e nos EUA, obviamente). O socorro aos bancos do país é que gerou um endividamento excessivo do tesouro irlandês. A falta de sensibilidade da Alemanha e do BCE contribuiu para que o país ficasse à deriva da fortíssima especulação contra o seu financiamento externo. Com consequências ainda incertas sobre Portugal e, perigosamente, sobre a Espanha. Mais uma vez, o governo de Angela Merkel prova que a Alemanha continua mostrando que não está apta a liderar a Europa do ponto de vista político e econômico devido ao seu comportamento jurássico que espalha crises pelos países-membros da UE. É bem provável que a crise persista crescendo, se o governo alemão continuar com suas propostas ortodoxas para um cenário muito heterodoxo. Com crise bancária não se brinca.

Radar NA REAL

3/12/10   TENDÊNCIA
SEGMENTO Cotação Curto prazo Médio Prazo
Juros ¹
- Pré-fixados NA estável alta
- Pós-Fixados NA estável alta
Câmbio ²
- EURO 1,3304 alta alta
- REAL 1,6870 estável/alta estável/alta
Mercado Acionário
- Ibovespa 69.766,10 estável/baixa estável/baixa
- S&P 500 1.224,71 estável/alta alta
- NASDAQ 2.591,46 estável/alta alta

(1) Títulos públicos e privados com prazo de vencimento de 1 ano (em reais).
(2) Em relação ao dólar norte-americano
NA - Não aplicável

Confronto adiado ?

Reza um antigo truísmo botocudo, cheio da sabedoria, que "o jogo só termina quando acaba". Para as relações do governo com os partidos e o Congresso, o jogo não se encerra com a posse dos ministros e nomes de escalões superiores escalados pela presidente para acompanhá-la na jornada presidencial - é apenas o início. Mas para um início, a iniciante nas coisas das "mumunhas" políticas Dilma lavrou um gol a se confirmarem as informações disponíveis até o momento desta manhã de terça-feira em que a coluna está indo para o ar : ela está dando um nó, uma chave de cadeia, nos decantados profissionais do PMDB. A cota peemedebista, oferecida por Dilma, perdeu substância - o PMDB não levará os Transportes, as Comunicações, as Cidades, a Integração Nacional, alguns dos seus sonhos de consumo. Ficará com os já usados Minas e Energia e Agricultura, talvez o problemático (se for para ser bem administrado) ministério da Previdência e o desconhecido Turismo (por causa da divisão do dinheiro da Copa e da Olimpíada com os Esportes). E como prêmio de consolação, se quiser, terá o Assuntos Estratégicos, ou seja, cinco ministérios para chamar de seus.

Vai ter troco ?

O panorama traçado na nota acima é o que se desenha até esta coluna ser publicada. Nunca se sabe, porém, se a política brasileira gira como o mundo. De toda forma, o sorriso peemedebista, depois de escancarado, está um tanto amarelado. A questão é saber em que curva do Congresso o partido de Temer vai esperar Dilma. O PMDB não é de levar desaforos pra casa. Lula tentou resistir e cedeu. No início, desprezou um acordo com o PMDB negociado por José Dirceu. Depois do mensalão, deu quase o céu ao PMDB, enciumando até o PT. E nunca teve a fidelidade total. Que o diga a derrota da CPMF. O PMDB ajudou a oposição a acabar com o imposto.

Amigos, amigos...

Em nome do nordeste, os petistas Jaques Wagner (Bahia) e Marcelo Deda (Sergipe) acertaram a paz com Eduardo Campos (PSB/PE). O medo da hegemonia ministerial do sul e do sudeste os uniu. Foi, porém, união circunstancial. Há petistas enciumados com a desenvoltura e o prestígio em Brasília do governador pernambucano. Campos, que quando mais jovem carregava o apelido de Dudu Beleza, desperta ciúmes também no seu partido. Que o digam os irmãos Gomes, Ciro e Cid.

Mineirice

Não é propriamente de felicidade o sentimento nutrido pelo PMDB de MG em relação ao futuro governo Dilma. Pelo menos por enquanto. Os petistas das Gerais, que na gestão Lula chegaram a deter nada menos do que cinco ministérios, farejam que com a futura presidente podem ficar com uma mísera pasta, para Fernando Pimentel. Consideram-se abandonados, depois de terem feito o sacrifício de apoiar Hélio Costa para o governo estadual e injustiçados depois de terem dado a Dilma uma estrondosa votação no Estado.

Mineirice II

Não é propriamente de paz o sentimento nutrido pelo PSDB de MG em relação ao grupo tucano que segue a liderança de Serra. Embora a sua vocação tancrediana esteja na base do "paz e amor", é com impropérios que tucanos das Gerais se referem ao ex-candidato. Entendem os mineiros que, como Serra disse que em 2010 era a sua vez de conquistar a candidatura, agora ela já passou.

Pedras no mocassim

A oposição continua, ao mesmo tempo, apática e conturbada. De um lado, desde as eleições, não marcou nenhuma posição, não disse o que pretende - se pretende algo mais substancial. De outro, administra problemas. O PSDB tem Serra, um inconformado. O DEM, tem Kassab, um político em busca de espaço. A continuar assim, destina-se à irrelevância.

Vírus da discórdia

Se duas novidades que Dilma pode adotar em seu governo vingarem, a presidente eleita pode estar criando fontes de intermináveis enxaquecas para si mesma. A primeira, dada como certa desde a campanha, é a criação de uma assessoria especial no Planalto, como uma existente na Casa Branca, com um grupo de especialistas em diversas áreas para ajudá-la na análise das políticas propostas pelos ministérios e conferir sua execução. Muitos ministros não vão ficar satisfeitos com isto. Nem todos têm a passividade de Celso Amorim, que aceitou a dividir o espaço com Marco Aurélio Garcia e, em um tempo, até com José Dirceu. A segunda, especulada esta semana, é a divisão entre os ministérios da Comunicação e da Ciência e Tecnologia na condução do Plano Nacional de Banda Larga, entre o pacato Paulo Bernardo e o atropelador Aloizio Mercadante. Não é receita de paz.

O valente Juca Ferreira

O ministro da Cultura, Juca Ferreira, faz tão desbragada campanha para continuar no cargo no futuro Dilma que, além de reunir artistas e intelectuais chapas-brancas para eventos em defesa de sua permanência, convocou um espaço obrigatório no rádio e na televisão para dizer que a cultura brasileira vai indo bem, obrigado. Graças a ele, naturalmente. Ferreira é um "verde" que se negou a apoiar a candidata de seu partido, Marina Silva, para sacrificar-se no ministério da Cultura de Lula no apoio à candidata oficial. Se a moda pega e todos os 37 atuais ministros passarem a convocar horários no rádio e na TV...

Ministeriômetro - Notas técnicas 3

Para entender a lista na nota seguinte, alguns esclarecimentos :

- Os atuais ministros não confirmados, continuam na luta. Mesmo Celso Amorim, que fora do Itamaraty, pensa ser aproveitado em outro local.
- Dilma deve criar pelo menos dois outros ministérios (ou secretarias como tal) e descartar um - o da Comunicação Social.
- Criamos duas outras categorias : "quase confirmados", sobre os quais falta apenas a palavra oficial, e "genéricos", para convidados sem designação da pasta.
- Na lista estão não só estatais, mas também órgãos cobiçados por seu valor financeiro e eleitoral. É o caso da Funasa, por exemplo, do Ministério da Saúde, e do Porto de Santos, hoje na Secretaria dos Portos.
- Acrescentamos mais duas torres ao edifício dos cargos, o BB e os Correios, ambos arduamente disputados pelo PT e o PMDB.
- Há estatais novas no ar : a do petrosal, uma para o São Francisco transposto, a do tem bala (quando ele sair), até uma nova diretoria na Petrobras. Sem contar que há gente querendo reviver uma para o setor de seguros. E uma nova agência reguladora, a Agência Nacional de Comunicações (Anacom), paralela à Anatel.

Ministeriômetro - Capítulo X

O rol do início da semana :

Confirmados

Ministério da Fazenda - Guido Mantega
Ministério do Planejamento - Miriam Belchior
Assessoria Especial da Presidência - Marco Aurélio Garcia
Banco Central - Alexandre Tombini
Justiça - José Eduardo Cardozo
Casa Civil - Antonio Palocci
Secretaria Geral da Presidência - Gilberto de Carvalho

Quase confirmados

Minas e Energia - Edison Lobão
Agricultura - Wagner Rossi
Relações Exteriores - Antonio Patriota
Relações Institucionais - Alexandre Padilha
Defesa - Nelson Jobim
BNDES - Luciano Coutinho
Saúde - Sergio Cortes
Educação - Fernando Hadad
Petrobras - José Sergio Gabrielli
Ciência e Tecnologia - Aloizio Mercadante
Comunicações - Paulo Bernardo

Genéricos

Fernando Pimentel

Candidatos, indicados

Assessoria Especial da Presidência - Nelson Barbosa
Pesca - Ideli Salvatti
Mulheres - Iriny Lopes
Portos e Aeroportos - PMDB, PT e PSB, Henrique Meirelles
Direitos Humanos - Gabriel Chalita
Secretaria de Política das Mulheres - Maria do Rosário, Ideli Salvati
Esportes - Manuela D'Avila
Igualdade Racial - Vicentinho (abre vaga para José Genoíno na Câmara), Luis Alberto, uma mulher afro-descendente
Integração Nacional - PMDB, PSB, Ciro Gomes, PT, Fernando Bezerra Coelho
Cidades - Moreira Franco, Marta Suplicy, PP, PSB, PMDB, Fernando Pimentel, Jose Filippi Junior, Luiz Fernando Pezão, Antonio Carlos Valadares, Mario Negromonte
Transportes - Henrique Meirelles, PMDB, PT, PR, Alfredo Nascimento, Blairo Magi
Cultura - José Abreu, Ideli Salvatti, Emir Sader, Celso Amorim, Antonio Grassi, Ângelo Osvaldo, Ângelo Vanhoni, Fernando Morais
Portos - PSB, Fernando Schimidt
Porto de Santos - PSB
Caixa Econômica Federal - Moreira Franco
Agricultura - Blairo Magi, Osmar Dias, Mendes Ribeiro
Vale - Rossano Maranhão
Previdência - Luis Sérgio, Fernando Pimentel, PMDB
Turismo - Luis Sérgio, Marta Suplicy, Antonio Carlos Valadares, Marcio França. Mendes Ribeiro, Pedro Novais
Assuntos estratégicos - Moreira Franco
Pequena e média empresa - Alexandre Teixeira, Antonio Carlos Valadares, Paulo Okamoto
Desenvolvimento Agrário - Joaquim Soriano. Wellington Dias
Desenvolvimento Social - Patrus Ananias, Moema Passos
Meio Ambiente - Carlos Minc
Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior - Abílio Diniz, Fernando Pimentel
Funasa - PMDB
STF - PMDB
Banco do Brasil - PT, PMDB
Correios - PT, PMDB
Saúde - Fausto Pereira dos Santos, Alexandre Padilha. Jorge Solla

Avulsos

Abrir vaga para José Genoino na Câmara
Abrir vaga para José Eduardo Dutra no Senado
Eva Chiavon
Beto Albuquerque
Marcelo Crivella
Olívio Dutra
Empresário (grife, como Roberto Rodrigues e Luis Furlan no primeiro ministério de Lula)
Sindicalista
Clara Ant (no Palácio do Planalto)
Alexandre Teixeira (Apex)
Jorge Gerdau

Credores

Virgilio Guimarães
Ciro Gomes
Henrique Meirelles (em baixa)
Patrus Ananias
Ideli Salvatti
Osmar Dias

Atualizado em: 6/12/2010 11:33

COORDENAÇÃO

Francisco Petros é advogado, sócio responsável pela área societária, compliance e de governança corporativa do escritório Fernandes, Figueiredo, Françoso e Petros Advogados. Economista e pós-graduado em finanças. Trabalhou por mais de 25 anos no mercado de capital, em instituições financeiras brasileiras e estrangeiras. Foi presidente da APIMEC - Associação Brasileira dos Analistas e Profissionais de Investimentos do Mercado de Capitais (2000-2002).

José Marcio Mendonça é jornalista e comentarista político; editou o Caderno de Sábado, o suplemento de Cultura do Jornal da Tarde e foi chefe de redação da sucursal de Brasília dos jornais: O Estado de S.Paulo e Jornal da Tarde. Apresenta: A Palavra de Quem Decide na Rádio Eldorado e escreve para o Portal Estadão e no Blog: A Política como Ela é.

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