quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

COLUNAS

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Política & Economia NA REAL n° 147

terça-feira, 12 de abril de 2011

Câmbio, juros, inflação...

Podem anotar. O Brasil caminha para uma composição cruel de fatores de risco. A taxa de juros no patamar atual é incompatível com o crescimento sustentável no longo prazo. Para reduzi-la, queiram os políticos e agentes, ou não queiram, será necessário criar um ambiente fiscal sustentável e competitivo (no que tange à taxação). Do lado do câmbio, a variável mais sensível de uma política econômica, a inviabilidade é clara : não há produtividade industrial no Brasil que seja suficiente para combater a concorrência externa. O Brasil vai virar o quintal da China em muitos setores. Do lado da inflação a discussão já ultrapassou os limites do razoável : não é possível ter uma moeda crível com um BC que aceita (implícita ou explicitamente) uma meta de inflação fora de prumo.

Crescimento em queda

Os "indicadores antecedentes", título pomposo para os indicadores econômicos mais recentes projetados para o futuro, já indicam que os agentes econômicos, seja do lado do consumo, seja do lado do investimento, estão tirando o pé do acelerador. Quem tem orçamento (privado) a cumprir pode cravar o crescimento deste ano em 3%, que as chances de acertar são gigantescas. Ou seja, Dilma pode inaugurar seu primeiro ano com uma composição perigosa : inflação para cima, real para cima, juros oscilantes e crescimento (emprego) em baixa. Muito diferente do blábláblá eleitoral do ano passado.

Torcida estranha

Ouviu-se na semana passada da boca de um dos formuladores da política econômica do governo a seguinte frase, cheia de cinismo : "- ainda bem que o câmbio cai para ajudar na inflação". A coisa parece pior que aparenta, não é mesmo ?

Guido, atenção !

Não há propriamente uma conspiração a perturbar a calma do ministro Mantega. A coisa é mesmo às claras. Os agentes econômicos, aqueles que têm poder, falam abertamente sobre conversas com gente do próprio governo que anunciam a decadência de Mantega na geografia do poder brasiliense. Por enquanto, Lula segura a barra, mas tudo na vida tem limite.

Recordar é viver : Carta aos Brasileiros. Lula em 2002

"Como todos os brasileiros, quero a verdade completa. Acredito que o atual governo colocou o país novamente em um impasse. Lembrem-se todos : em 1998, o governo, para não admitir o fracasso do seu populismo cambial, escondeu uma informação decisiva. A de que o real estava artificialmente valorizado e de que o país estava sujeito a um ataque especulativo de proporções inéditas. Estamos de novo atravessando um cenário semelhante. Substituímos o populismo cambial pela vulnerabilidade da âncora fiscal. O caminho para superar a fragilidade das finanças públicas é aumentar e melhorar a qualidade das exportações e promover uma substituição competitiva de importações no curto prazo."

Quem manda ?

O presidente da Petrobras, José Sergio Gabrielli, é um dirigente afeito a ter vida própria no que tange ao governo. Sempre teve liberdade e ocasião de manifestar suas opiniões sobre a maior estatal brasileira e ao segmento de petróleo como um todo. Aqui e lá fora sempre foi enfático, algumas vezes resvalando para certo autoritarismo quando posto à prova. Suas declarações na semana passada sobre futuros aumentos dos combustíveis nada seriam de exageradas não fosse a Petrobras um quase-monopólio com larga influência na política econômica do país. Foi desautorizado por Mantega e por Dilma. Resta saber, como o governo vai coordenar as divulgações sobre temas econômicos tão sensíveis.

Risco-país

O risco do Brasil, embutido nos spreads dos títulos externos do país negociados no mercado internacional, está gravitando ao redor dos 180 pontos, ou 1,80% acima das cotações dos títulos do Tesouro do Tio Sam. Diante da somatória de riscos, este patamar parece o melhor que poderíamos atingir no curto prazo. É verdade que não há nada de assustador que possa acontecer no curto prazo. Todavia, devemos reconhecer que o Brasil já esteve mais atraente. Há pouco tempo, diga-se.

Radar NA Real

8/4/11 TENDÊNCIA
SEGMENTO Cotação Curto prazo Médio Prazo
Juros ¹
- Pré-fixados NA alta alta
- Pós-Fixados NA alta alta
Câmbio ²
- EURO 1,4450 alta alta
- REAL 1,5801 estável/queda estável/queda
Mercado Acionário
- Ibovespa 68.718,00 baixa estável/alta
- S&P 500 1.328,17 estável/alta alta
- NASDAQ 2.780,42 estável/alta alta

(1) Títulos públicos e privados com prazo de vencimento de 1 ano (em reais).
(2) Em relação ao dólar norte-americano
NA - Não aplicável
l

Alckmin e o sindicalismo

Faz todo o sentido a oposição buscar ampliar seu espaço político abarcando segmentos sociais que não fazem parte de sua base tradicional. Todavia, é preciso analisar certas implicações ideológicas e pragmáticas para delimitar o campo de atuação. Note-se, por exemplo, a tentativa do governador Alckmin de pactuar com sindicalistas e patrões. Dois aspectos saltam aos olhos : o primeiro diz respeito à questão da representatividade. Será que as organizações sociais (sindicais e patronais) de fato representam tais segmentos ? O segundo diz respeito à organicidade dos pactos : buscar acordos "pragmáticos" pode fazer sentido no curto prazo, mas podem significar incompatibilidades grandiosas quando observadas à luz de "programas de governo". Talvez seja o caso de travar batalhas ideológicas em torno de grandes temas e não pequenos projetos.

O discurso de Aécio

É saudável não apenas para a oposição, mas também para o governo que os partidos apresentem suas propostas para serem democraticamente debatidas. Sobretudo, quando se vê um empobrecimento do debate político no Brasil. Neste estrito sentido, o discurso do senador Aécio Neves deve ser saudado como oportuno. Todavia, quando analisado no que tange às propostas que realmente fazem a diferença, há um longo caminho a ser preenchido pelo mineiro, em particular, e pela oposição, em geral. É preciso encontrar um campo ideológico que distinga os tucanos e democratas do atual governo. Afinal, o espectro social-democrata foi preenchido, quem diria, pelo PT.

Corte incômodo

O corte do depoimento do sobrinho de Tancredo Neves, Francisco Dornelles, no documentário de Silvio Tendler sobre o político mineiro merece ser melhor esclarecido. Tal depoimento revelaria uma doação de Paulo Maluf à campanha de Tancredo nas eleições para governadores em 1982. Aécio teria pressionado para que o corte desta informação fosse feito. Se for verdade, eis uma péssima contribuição para a história política.

Obama e seu factoide

Ninguém pode duvidar da capacidade de comunicação do atual presidente norte-americano. Aliás, algo que foi exaustivamente demonstrado nas aparições dele aqui no Brasil. Todavia, temos de reconhecer que Obama é a representação precisa do "vazio" político do mundo moderno. Sua condução das principais reformas nos EUA é sofrível e seu combate aos "falcões" de Wall Street um fiasco. Sua aparição como "candidato" à presidência dos EUA tem algo de pomposo e melancólico. Ele, frente a uma confusa e débil oposição, parece um grande líder. Não passa de um imperador com muitos problemas. Se vacilar os bárbaros atacam o Império e aí....

Marina sumiu ?

Afora as informações dando conta das dificuldades partidárias de Marina Silva no PV nada mais sabemos sobre a ex-senadora petista e candidata à presidência da República. Seria ela daquelas candidatas que vêm pra não ficar ?

Vergonha nacional

Verificar que as obras do PAC estão sendo tocadas à margem de políticas sociais que minimizem os impactos sobre os trabalhadores é coisa do século XIX. A situação é crítica e as denúncias estão apenas começando. Muito mais será divulgado.

Vale

A conferir. As mudanças na diretoria da Vale serão mais profundas. A recente adesão dos diretores ao desejo de "ficar" de Roger Agnelli não vai passar em branco. Muito menos as alterações nas políticas, digamos, "públicas", da empresa.

A posição do Zé Dirceu

Vejam o que disse o ex-todo-poderoso José Dirceu em seu blog e que está diretamente ligado ao que dissemos na nota acima (os grifos são nossos) :

"Discordo, e muito, porém, das análises que fazem sobre as mudanças na presidência da Vale, e da Caixa Econômica Federal. Precisavam ser feitas, e expressam exatamente duas questões destacadas nas avaliações dos jornais, uma reforma da gestão pública, tão necessária em nosso país, e a redefinição do papel do Estado e do governo na governança e na gestão de empresas onde é sócio controlador ou principal acionista."

Posição estratégica

Não perguntem muito sobre as posições brasileiras em relação aos países árabes e ao Oriente Médio. A política externa no país passa por uma revisão na qual sobram análises e faltam conclusões (o que é natural face às extraordinárias mudanças por que passam os países da região). O debate é quente. Ainda mais porque há muitos diplomatas policy makers ligados ao ex-chanceler Celso Amorim que resistem às mudanças muito bruscas. Dilma ainda não se interessou muito pelo tema, mas chegará o tempo em que as respostas terão de ser dadas. Muito além dos (corretos) posicionamentos dos país em relação aos direitos humanos.

Prefeitura paulistana e algo mais

A julgar pelo ânimo de Gabriel Chalita, sua candidatura à prefeitura de SP é irreversível. Há duas vontades que movem o deputado paulista : (i) derrotar Kassab, que andou namorando com o PSB de Chalita e (ii) derrotar José Serra, seja este candidato ou não. Os sonhos de Chalita vão muito além da grande metrópole brasileira.

Realengo e o Congresso

Se alguém acha que a tendência do Congresso vai mudar em relação às armas, pode tirar o cavalinho da chuva. Por lá prevalece a idéia da "vingança privada", daquelas que podemos ver nos velhos westerns de Hollywood. Infelizmente, a credibilidade na Justiça estatal é baixa no Brasil. As pessoas desejam exercer sua indignação por meio de um fumegante cano de arma. Infelizmente. É preciso parar de cinismo e convencer a opinião pública de que as armas não valem o risco e não fazem a pretendida vingança. Quem tomará a frente ? Difícil imaginar.

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Atualizado em: 12/4/2011 07:23

COORDENAÇÃO

Francisco Petros é advogado, sócio responsável pela área societária, compliance e de governança corporativa do escritório Fernandes, Figueiredo, Françoso e Petros Advogados. Economista e pós-graduado em finanças. Trabalhou por mais de 25 anos no mercado de capital, em instituições financeiras brasileiras e estrangeiras. Foi presidente da APIMEC - Associação Brasileira dos Analistas e Profissionais de Investimentos do Mercado de Capitais (2000-2002).

José Marcio Mendonça é jornalista e comentarista político; editou o Caderno de Sábado, o suplemento de Cultura do Jornal da Tarde e foi chefe de redação da sucursal de Brasília dos jornais: O Estado de S.Paulo e Jornal da Tarde. Apresenta: A Palavra de Quem Decide na Rádio Eldorado e escreve para o Portal Estadão e no Blog: A Política como Ela é.

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