sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

COLUNAS

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Política & Economia NA REAL n° 148

terça-feira, 19 de abril de 2011

A inflação não vale a missa do crescimento

A presidente Dilma tem repetido continuadamente, apenas com palavras diferentes, que não "tergiversará" com a inflação. Porém, há tantos limites para esta não "tergiversação" :

1. Os juros não podem subir com fervor

2. A economia não pode afundar abaixo dos 4,5%, 5%

3. Os cortes nos gastos públicos não devem atingir investimentos, PACs e programas sociais

Se assim for a decisão da presidente, o governo terá de sacar com frequência medidas "macroprudenciais" cada vez mais criativas para segurar o assanhamento dos preços. Estamos de fato diante de uma nova (velha) economia. O economista Pérsio Arida, um dos idealizadores do Real, diz que pode dar certo. Mas e se não der...

O curto circuito do BC

O atual presidente do BC, Alexandre Tombini, não colabora para que se possa entender com um mínimo de segurança a estratégia do BC. Antes, se trabalhava com um ajuste na taxa de juros de 0,25%. Depois do que Tombini disse em Washington, passou-se a pensar em 0,5%. E alguém poderia até pensar que a taxa ficará no atual patamar.

Autonomia relativa

De fato, nem o BC nem o ministério da Fazenda contam com a autonomia que tinham com Lula para elaborar as linhas de política monetária e fiscal. Afinal, Dilma fez economia e estudou pós-graduação com Luciano Coutinho na Unicamp. Na Casa Civil, com contatos diários com a presidente, está Palocci, ex-Fazenda. Há um rol de opiniões em torno de Mantega.

Gustavo Franco de novo ?

Poucas pessoas têm dúvida : o governo está sustentando boa parte do combate à inflação na crença de que os preços das commodities vão cair e o Real valorizado ajuda a segurar os preços domésticos. A âncora é o câmbio. Igual a FHC em 1999.

Nossa opinião

No que se refere ao Copom de quarta-feira, o importante é saber qual será a mensagem do BC diante de uma inflação perigosamente alta. Subir 0,25% ou 0,5% será o indicador do esforço que o governo está disposto a incorrer. Daqui para frente, a queda do dólar será menos importante para segurar a inflação. O sistema de preços já contempla o dólar fraco como hipótese básica da formação de custos. Se subir, será um agravante relevante a se somar ao quadro inflacionário. A sensação de que o governo está meio perdido no que se refere à política econômica se espalha entre os agentes e os custos para o futuro estão se elevando.

O guru

Quem quiser entender um pouco mais a política econômica de Dilma, aplicada pela dupla Mantega-Tombini, não pode deixar de ler os artigos que o ex-ministro e ex-deputado Delfim Neto, há tempo oráculo do Planalto, publica semanalmente nos jornais "Valor Econômico", "Folha de S.Paulo" e 'Diário do Comércio" de São Paulo. Os argumentos parecem saídos da boca de Dilma, Mantega, Tombini. Ou vice-versa, o que soa mais provável.

Cenário externo

A Europa ainda está a sofrer com a crise de crédito dos países meridionais do Velho Continente. Portugal ingressou no clube dos países que perderam acesso ao mercado de capitais e a Espanha e Itália estão captando recursos externos cada vez mais caros. Um cenário sofrível, principalmente quando se vê a taxa de desemprego em níveis estratosféricos. Nos EUA, o cenário é de recuperação, mas de forma absolutamente condicionada pela debilidade do consumo e investimento, ambos carentes de emprego e crédito. Por tudo isso, as bolsas de valores não saem do lugar há dois meses e os bancos centrais persistem com políticas que oscilam entre preocupações com a inflação e expansão fiscal, de um lado, e fragilidade econômica e de crédito, de outro. O risco deve subir nas próximas semanas.

Grécia vai reestruturar a dívida  

Há uma imensa discussão sobre se a Grécia irá reestruturar a sua dívida externa. Como sempre uma discussão inútil. Basta um pouquinho de pesquisa para saber que o país, com mais de 20% de desemprego, especialmente entre os jovens, não tem a menor condição de manter o regime de pagamentos ao qual está sujeito. Além disso, a União Europeia parece ter virado as costas para o belo país mediterrâneo. A solução virá a partir da afirmação da antiga soberania helênica : realinhar os pagamentos externos ao interesse nacional. A irresponsabilidade do governo local foi imensa, mas ligeiramente menor que a dos investidores. Portugal, Irlanda, Espanha, Itália, etc. terão de tomar suas decisões.

Radar Na Real 

15/4/11 TENDÊNCIA
SEGMENTO Cotação Curto prazo Médio Prazo
Juros ¹
- Pré-fixados NA alta alta
- Pós-Fixados NA alta alta
Câmbio ²
- EURO 1,4422 alta alta
- REAL 1,5935 estável/queda estável/queda
Mercado Acionário
- Ibovespa 66.684,17 baixa estável/alta
- S&P 500 1.319,68 estável/alta alta
- NASDAQ 2.764,65 estável/alta alta

(1) Títulos públicos e privados com prazo de vencimento de 1 ano (em reais).
(2) Em relação ao dólar norte-americano
NA - Não aplicável

Feriado glorioso

É tudo que o governo precisava, embora este não tenha nenhum controle sobre o feriadão de Tiradentes e Páscoa desta semana. Brasília política está gelada e Dilma vai ter alguma folga para tentar ajustar contas que estão sendo cobradas. Mais especificamente, a liberação das emendas parlamentares, com a anulação do decreto pelo qual Lula cancelou os "restos a pagar" de 2007, 2008 e 2009, e mais velocidade na nomeação do segundo escalão. Como quem não quer nada, o PMDB já expediu o bilhete de sua insatisfação. Na votação das regras para o trem bala, pouco menos de 70% dos senadores do partido não ficaram com o governo : ou votaram contra, ou se abstiveram, ou se ausentaram. A mágoa está para transbordar.

Copa em festa

Há mais ou menos 20 dias o presidente da FIFA disse que o Brasil estava atrasado com as obras da Copa do Mundo. Só faltou ser considerado persona non grata no país pelo ministro dos Esportes, Orlando Silva, e por "autoridades esportivas". O ministro torceu o nariz também para uma declaração de Pelé, na mesma ocasião, no qual afirmou que o Brasil corre o risco de dar um vexame mundial. Semana passada, para surpresa geral, divulga-se "direto dos fornos" do IPEA, organismo ligado à presidência da República e duramente controlado por seu presidente, Marcio Pochmann, ex-secretário de Marta Suplicy em SP, um estudo dando conta de que mais de um terço dos aeroportos das cidades-sede da Copa não ficarão totalmente reformados para 2014 e alguns nem para 2016, nas Olimpíadas. Soou estranho.

Nada estranho

No dia seguinte à divulgação do documento do IPEA, o ministério da Fazenda divulgou a lei de Diretrizes Orçamentárias de 2012 com uma norma que limita o poder do TCU de suspender execução de obras sob suspeita de irregularidades. Ainda no mesmo dia, anunciou-se o envio ao Congresso de um projeto de lei tornando mais leves as exigências nas licitações para projetos da Copa e dos Jogos Olímpicos. Mera coincidência ? Para quem acredita em duendes, sim.

Capitalismo à brasileira

Depois de ver resolvido o "problema" Roger Agnelli na Vale, o governo prepara-se para "escolher" o novo presidente da Oi, outra "privatal" (empresa privada com controle estatal) escolhida pelo governo para cumprir os planos do Planalto em áreas estratégicas. A Oi vai ser levada a conduzir o Plano Nacional de Banda Larga de acordo com o programa oficial, uma vez que as outras teles estão resistindo a entrar no negócio como Dilma quer e a Telebrás não dá conta do recado - só dá emprego.

Desmatamento

Se o novo Código Florestal Brasileiro não sair a contento dos ambientalistas privados e de uma boa parte do PT e de assessores de Dilma, não se pode jogar a culpa no deputado Aldo Rebelo (PCdoB/SP), relator da proposta. O governo tem maioria suficiente no Congresso para atropelar quem se puser no seu caminho. Mas ele não quer - nem deve - se indispor com a galinha de ouro do agronegócio.

Um bode para a oposição e o governo

O ex-presidente FHC claramente se expressou mal no trecho do artigo publicado na revista "Interesse Nacional" quando exorta seus companheiros oposicionistas a procurarem conquistar o que se convencionou chamar de a "nova classe média" no Brasil (para alguns a classe média do Lula). Principalmente quando usou, fora de esquadro, a expressão "povão" numa concessão bestamente popular não condizente com o teor de todo o artigo. Por isso apanhou muito (como se diz em Minas, "apanhou para aprender") e deu vezes a muita ironia, a começar pelas de Lula, que como amante do futebol, não desprezou o passe limpo na marca do pênalti.

A discussão de FHC

Tiradas essas questões periféricas, no entanto, Fernando Henrique botou um bode muito, mas muito mesmo, mal-cheiroso na sala eleitoral, não só da oposição, como também do governo. O fato real é que quem não falar para esse público, com 51% da população nacional, corre o risco de perder os próximos passos eleitorais. Aliás, o PT sabe tanto disso que não pensa em outra coisa senão conquistar as classes médias da cidade e do Estado de São Paulo, para poder pegar o governo da capital e, principalmente, o governo Estadual (há mais de 16 anos com o PSDB).

Com Lula foi igual

Outra também não foi a estratégia petista, traçada por José Dirceu, de "amansamento" do discurso e da imagem petista e de Lula no início dos anos 2000, estratégia responsável pela eleição de Lula em 2002, depois de três tentativas presidenciais frustradas. Se tivesse ficado apenas com o "povão" e alguns setores mais intelectualizados da classe média de então, Lula não teria sido emplacado no Planalto, mesmo com todo o desgaste de FHC no seu segundo mandato.

O verdadeiro desafio

O desafio para todos é que essa classe média, agora engordada pela classe média do Lula, tem aspirações concretas e é um tanto quanto mais exigente do que o "povão" do programa Bolsa Família e de outras bolsas. Ele é mais sensível aos suspiros da inflação, pois não tem as proteções das classes mais baixas, já não suporta o SUS, teme pela má educação, sente a baixa qualidade de vida, sabe que os impostos corroem sua renda para lhe dar o retorno devido. Ou seja, exigem outros discursos e outras políticas que não o velho apelo do "tudo pelo social".

Dilma e o povão

Dilma, por exemplo, vem aí com um programa de erradicação da miséria, já aumentou o Bolsa Família, fez uma política generosa para o salário mínimo. E para esta nova classe ? Até agora, mais imposto, pois o IOF no crédito atinge apenas esses novos consumidores. Sem contar que a inflação está batendo na porta. E a oposição, o que tem a dizer ? FHC, querendo ou não, tirou a paz do mundo político, acomodado na dicotomia PT-PSDB, povão versus elite.

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Atualizado em: 19/4/2011 07:39

COORDENAÇÃO

Francisco Petros é advogado, sócio responsável pela área societária, compliance e de governança corporativa do escritório Fernandes, Figueiredo, Françoso e Petros Advogados. Economista e pós-graduado em finanças. Trabalhou por mais de 25 anos no mercado de capital, em instituições financeiras brasileiras e estrangeiras. Foi presidente da APIMEC - Associação Brasileira dos Analistas e Profissionais de Investimentos do Mercado de Capitais (2000-2002).

José Marcio Mendonça é jornalista e comentarista político; editou o Caderno de Sábado, o suplemento de Cultura do Jornal da Tarde e foi chefe de redação da sucursal de Brasília dos jornais: O Estado de S.Paulo e Jornal da Tarde. Apresenta: A Palavra de Quem Decide na Rádio Eldorado e escreve para o Portal Estadão e no Blog: A Política como Ela é.

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