quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

COLUNAS

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Política e Economia NA REAL n° 246

terça-feira, 21 de maio de 2013

O estado da Política

A Política, essa mesma com "P" maiúscula, existe como prática que facilita a solução e encaminhamento de conflitos de interesses dos cidadãos de uma comunidade determinada, seja um país, seja um condomínio. Nesta acepção específica da Política, o Brasil está vivenciando um momento particularmente "perigoso". Os interesses econômicos e sociais estão sendo solucionados por meio de uma classe política movida por interesses eleitorais, quando não por interesses pessoais, e os agentes deles ou desconfiam, ou se aproveitam, quando não fazem as duas coisas. A votação da chamada "MP dos Portos" na semana passada foi mais uma expressão do caos político que vivemos : interesses privados legítimos se misturaram a formas nefastas de interferência política, interesses públicos foram difusamente defendidos ou na base do "toma-lá-dá-cá", o governo viu-se chantageado, bem como chantageou, e assim foi. Isso tudo num contexto de votação de medida essencial ao desenvolvimento brasileiro. Este é o estado da Política.

O estado da Política - II

Afora a demonstração da semana passada no Congresso, vê-se que a corrida eleitoral iniciada pela presidente Dilma e seu tutor, o ex-presidente Lula, deve inviabilizar quaisquer reformas mais substanciais até o ano que vem. Os partidos que apóiam o governo sabem dos anseios palacianos e destes extraem as mais variadas formas de aproveitamento político. Não há coloração ideológica e nem nome de partido que não participe deste caro convescote do Poder Legislativo. A oposição, de outro lado, mostra-se débil, pouco programática e com articulação sofrível. Basta ver a patética (e simbólica) ação política do senador Álvaro Dias (PSDB/PR) flagrado pela Folha de S.Paulo ao apresentar uma emenda à votação da MP dos Portos igual à de um colega do PT, o deputado Luis Sérgio. Neste contexto, preocupa o acúmulo de pautas na agenda nacional : da violência urbana ao controle da inflação, da educação à desindustrialização do país, tudo está pendente de soluções estruturais. Isso enquanto a classe política está ilhada em seus próprios interesses e jogos políticos. Perigo à vista. Para quem quer ver, é claro !

O estado da economia

Procuramos não fazermos previsões categóricas, porquanto estas não são passíveis de serem feitas quando o assunto é economia e política, ou vice-versa. Afinal, a política depende da economia e vice-versa, mesmo que não faltem oráculos soltos no mundo. De todo o modo é possível perceber tendências, até mesmo quando estas não estão visíveis, a partir do exercício do espírito crítico da análise política e econômica. Pois bem : os números recentes da produção industrial e do consumo indicam que o PIB brasileiro este ano está mais para o número pífio do ano passado que para algo entre 3% e 3,5%. De outro lado, é praticamente certo que a fragilidade das relações políticas no Congresso não permitirá nenhum avanço institucional capaz de sanar os problemas estruturais que barram o desenvolvimento. A MP dos Portos foi a grande reforma do ano (vide as duas primeiras notas desta coluna).

O estado da economia - II

Preocupação que deve ser redobrada é a possibilidade de o país vivenciar uma onda de desinvestimento externo, num contexto em que os EUA se recuperam com certa rapidez - basta ver o desempenho das bolsas daquele país - e a Europa dá alguns pequenos sinais de avanços. Além dos avanços na Índia e China (de novo). As melhores expectativas em relação ao Brasil estão no passado por conta dos poucos avanços alcançados pelo atual governo e pelos riscos que decorrem da equação que combina valorização cambial, inflação em alta, desindustrialização e queda dos preços das commodities. Poucas variáveis estruturais do país estão sendo mexidas politicamente para melhor. Quase nenhuma, se observadas as principais (reformas tributária e previdenciária, incentivo à tecnologia, educação e aumento da eficiência da infraestrutura). Felizmente ou infelizmente, as políticas adotadas pelo país têm de atender as expectativas dos agentes econômicos para a taxa de investimento subir. O que se vê é um governo voltado de costas para o capital, sustentado pelo eleitorado mais pobre e encalhado pelos seus presumidos aliados. A economia segue este ritmo.

PSDB e Aécio : agora, o "como fazer"

Aparentemente - em política as aparências costumam enganar, ainda mais se tratando de tucanos de plumagens reais - o PSDB, sob a clara liderança do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, uniu-se em torno de um projeto comum e da candidatura presidencial de Aécio Neves. Até a seção paulista do partido, a mais reticente em relação às pretensões do ex-governador e senador mineiro, parece ter aceitado as regras do jogo, em que pesem as demonstrações de caturrice política do ex-governador José Serra. Em princípio, o PSDB está centrando sua campanha na recuperação do legado da gestão Fernando Henrique Cardoso - estabilização monetária (derrota da hiperinflação), reforma do Estado (especialmente as privatizações) e início das políticas de renda (depois aprofundadas e radicalizadas, no bom sentido, pelo governo Lula). Herança que os tucanos abandonaram nas três campanhas presidenciais em que foram derrotados e que defenderam muito envergonhados.

PSDB e Aécio : agora, o "como fazer" - II

Pode ser um bom começo para aquecer as forças partidárias para o embate eleitoral e solidificar a unidade agora exibida, alcançada a duras penas (coloridas, como só cabe a tucanos de extirpe). Não basta, porém, até porque, até agora, a estabilidade monetária já é uma conquista do país, a memória nacional quase perdeu o seu mentor, e as conquistas sociais estão definitivamente incorporadas ao patrimônio petista. Que, aliás, sabe incorporar muito bem os seus feitos - e também os não-feitos. Além de esconder os malfeitos. Aécio, para se mostrar competitivo, terá de passar da celebração do passado e das críticas à atual condução da política econômica para uma etapa mais avançada do que fazer e como fazer para melhorar a situação atual.

PSDB e Aécio : agora, o "como fazer" - III

Os percalços que a economia nacional está registrando nos últimos meses, como temos comentado em nossas colunas mais recentes, ainda não chegaram com força até as classes que têm o maior cabedal de votos e que decidem de fato no Brasil qualquer eleição : os extratos D, E e a chamada "nova classe média" ou "classe média de Lula". É para esses que os tucanos precisam arranjar um "discurso" e propostas concretas - e principalmente factíveis - para manter a estabilidade da moeda e melhorar a qualidade de vida da população. Os eleitores do que se convencionou também de chamar de o "andar de cima" do extrato social, tirante em algumas camadas, já são votos anti-petistas por natureza. O próprio PT já sabia disso e nas últimas eleições tem feito esforços para mudar isto. A candidatura vitoriosa de Fernando Haddad à prefeitura de SP teve tal viés. Agora, Lula busca novos "Haddads" para concorrer a alguns governos estaduais, especialmente ao de SP. Os tucanos terão de descer de seus poleiros engalanados e pular ao rés do chão se quiserem ser competitivos em 2014. Ficar simplesmente esperando a economia desandar pode significar mais quatro anos de relento na esfera Federal.

Um agravo para Dilma e para as expectativas econômicas

Como comentamos na nota anterior, o "andar de cima" nunca foi de depositar a maior parte de seus votos nos candidatos petistas ou por ele apoiado. Inclusive o empresariado - ele até financia as campanhas, no velho modelo de botar ovos em várias cestas, porém no silêncio das urnas costuma ser mais conservador. Aliás, aqui como acolá, mundo afora. Porém, impressiona como estão se deteriorando rapidamente as expectativas do mundo empresarial no governo Dilma, puxada pelos percalços que a economia vem apresentando e a forma como a política econômica vem sendo conduzida. Essa perda vem sendo registrada, paulatinamente, pelos índices de confiança mais recentes levantados tanto por instituições como a FGV como por entidades empresariais tipo CNI e Fecomércio.

Um agravo para Dilma e para as expectativas econômicas - II

O mais recente sinal dessa deterioração foi retratado por uma pesquisa realizada na semana passada pelo jornal "Valor Econômico". Levantamento feito com presidentes de 97 das 200 maiores empresas do país, durante o Fórum da Associação Brasileira de Recursos Humanos, revelou que 66% deles (56% na sondagem anterior) se revelaram dispostos a votar em Aécio Neves contra apenas 12% para ela, 11% para Eduardo Campos e o restante para Marina Silva e outros. A boa notícia para a presidente é que 68% dos entrevistados dizem que ela será eleita, o que significa que os empresários não acreditam que a deterioração do ambiente econômico que está elevando a insatisfação deles vá chegar à maioria dos eleitores.

Um agravo para Dilma e para as expectativas econômicas - III

De todo modo, a insatisfação dos empresários com o cenário macroeconômico é um dado complicador para a gestão econômica, no momento em que o governo busca reconquistar a confiança deles para ampliar os investimentos na economia nacional. E a política eleitoral está de tal maneira embaralhada com a economia que torna todo o quadro ainda mais confuso. Mais sobre a MP dos Portos no blog "A política como ela é" (Clique aqui).

O jogo político-partidário ficou mais delicado

As forças de informações governamentais dão como uma vitória do governo a aprovação, catimbadíssima como se diz na gíria esportiva, da MP dos portos, sem modificações "destrutivas" ao projeto original e ao parecer do senador Eduardo Braga (PMDB/AM). As distorções mais graves impostas pelos rebeldes aliados nas madrugadas de votação na Câmara, garantem as ministras Ideli Salvatti e Gleisi Hoffman, serão extirpadas por vetos presidenciais. É meio fato esta interpretação oficial. Ao final da maratona, o que se viu é que está totalmente desprestigiada a chamada "coordenação política do governo" e as relações do Palácio do Planalto com seus aliados.

O jogo político-partidário ficou mais delicado - II

Não funcionam nem as resistências de Dilma em não ceder mais do que ela entende do que seria razoável - ceder ela cede, basta ver o rosário de nomeações de aliados - nem ceder além disso, com verbas para as emendas parlamentares e outras promessas sendo liberadas de última hora. O governo fica sempre a mercê do Congresso nos grandes momentos. Diz-se que o grande rebelde desta vez, o líder do PMDB na Câmara, Eduardo Cunha, foi derrotado pelas forças governistas. Ora, se o foi, por que a necessidade de vetos ? E se os vetos podem gerar novas insatisfações e novos embates. A realidade é que a presidente Dilma saiu deste embate, infelizmente para ela e para boa parte dos brasileiros, um pouco mais dependente do PMDB no Congresso. Na última hora o socorro veio para ela de Henrique Alves e, especialmente, de Renan Calheiros. Parecia até que o PMDB jogou afinado para valorizar seu passe : enquanto Eduardo Cunha e sua turma batiam, o comando peemedebista assoprava. Com dois agravantes : o PT não gostou dessa afinação peemedebista. E uma parte do petismo não gostou nada do projeto aprovado. Dilma vai ter de mudar muito seu modo "político" de agir, tanto com o Congresso como internamente. Já começam a pipocar de todos os lados - e não apenas dos discursos da tímida oposição - críticas e observações negativas ao estilo presidencial de ser e de governar.

FT : frustração e o estilo "mandão" de Dilma

Vejamos os dois extratos do editorial do FT de ontem :

"(...) corre o risco, mais uma vez, de frustrar imensas expectativas". "A aparente sensação de bem-estar do Brasil é uma fachada. O crescimento da economia no ano passado foi de menos de 1%, pouco melhor que a zona do euro. Este ano, o Brasil está crescendo menos que o Japão. A inflação está corroendo a confiança do consumidor e há uma sensação de mal-estar. A causa é o abrandamento do investimento, tendência que começou em meados de 2011 e continua. Mais investimento é exatamente o que o Brasil precisa para manter os empregos e tornar-se a potência global a que aspira ser". (...) "O estilo 'mandão' dela não é adequado para a persuasão colaborativa exigida pelo tipo particular de política de coalizão do Brasil. A tomada de decisão tem sido centralizada, o que evita a corrupção, mas retarda o processo. Dilma também tem evitado consistentemente as reformas orientadas para o mercado em favor do protecionismo de alguns setores preferidos e seus lobbies, como as mimadas montadoras"(...)

Para quem tem dúvidas sobre a deterioração da imagem do país, meio editorial basta.

O vencedor é...

Renan Calheiros tornou-se candidato imbatível este ano ao "Troféu Bravateiro-Mor do Brasil", disputa no Brasil que na seara da política sempre teve uma boa centena de pós-doutores aptos a abocanhar o laurel. O senador alagoano e presidente do Senado já ganhou a corrida depois que alardeou que na votação da MP dos portos foi a última vez que a Casa fará algo de afogadilho como fez quinta-feira e que de agora em diante o Senado não votará MPs que lhe cheguem com menos de sete dias antes de caducar. Calheiros fará o que seu senhor - ou melhor, sua senhora - mandar. Escrevam para conferir.

Traduttori, traditori

Só pode ter sido uma traição - ou um grave equívoco do tradutor - a afirmação atribuída ao ex-presidente Lula no evento comemorativo dos dez anos do PT na presidência da República, em Porto Alegre, na presença de Dilma. Não pode ser para valer : "O político ideal que vocês desejam, aquele cara sabido, aquele cara probo, irretocável do ponto de vista do comportamento ético e moral, aquele político que a imprensa vende que existe, mas que não existe, quem sabe esteja dentro de vocês". Como diz o aforismo italiano, traduttori, traditori.

Lençóis maranhenses

Desculpem a ignorância, a falta de informação desses escribas, mas ficamos, por dizer assim, estupefatos, ao descobrirmos que no Maranhão existe um município batizado de Governador Edison Lobão. No futuro devemos esperar também um com o codinome "Ministro Edison Lobão" e uma série de outras municipalidades com o sobrenome "Sarney", uma família que é uma espécie de donatários da província, e à qual Lobão é agregado.

Mais notícias dos lençóis maranhenses

Informações de um blog local - "Blog Marrapa" - reproduzidas pelo blog do jornalista Ricardo Noblat, de Brasília, na semana passada :

"A governadora Roseana Sarney passou pelo maior vexame durante a passagem do governo itinerante por Governador Edison Lobão. Confrontada sobre a qualidade de ensino por um aluno da escola pública, Roseana se viu encurralada.

- Se as escolas não têm qualidade, você tem que cobrar isso dos professores - respondeu a governadora, se esquivando da responsabilidade.

Esperto, o estudante retrucou :

- Eu estou falando é de infraestrutura da sala de aula, escola com estrutura adequada.

Sem reação, ela tenta desviar do assunto :

- Ei, ei, ei, olha aqui. Eu quero saber qual foi sua nota do Enem.

Nisso o estudante desmascara Roseana mais uma vez e acusa a situação do ensino público oferecido pela rede estadual :

- Eu ainda não fiz o Enem, tô sem aula, e tô correndo risco de não fazer o Enem porque não tem professor na sala de aula".

Como diria Millôr Fernandes, pano rápido. E sem comentários, por desnecessários. O Índice de Desenvolvimento Humano o Maranhão já diz tudo.

Radar NA REAL

17/5/13   TENDÊNCIA
SEGMENTO Cotação Curto prazo Médio Prazo
Juros ¹
- Pré-fixados NA alta estável/alta
- Pós-Fixados NA alta estável/alta
Câmbio ²
- EURO 1,2983 estável baixa
- REAL 2,0380 estável estável/baixa
Mercado Acionário
- Ibovespa 55.164,27 estável/queda estável
- S&P 500 1.667,47 estável/alta estável/alta
- NASDAQ 3.498,97 estável/alta estável/alta

(1) Títulos públicos e privados com prazo de vencimento de 1 ano (em reais). 
(2) Em relação ao dólar norte-americano 
NA - Não aplicável

Atualizado em: 20/5/2013 10:04

COORDENAÇÃO

Francisco Petros é advogado, sócio responsável pela área societária, compliance e de governança corporativa do escritório Fernandes, Figueiredo, Françoso e Petros Advogados. Economista e pós-graduado em finanças. Trabalhou por mais de 25 anos no mercado de capital, em instituições financeiras brasileiras e estrangeiras. Foi presidente da APIMEC - Associação Brasileira dos Analistas e Profissionais de Investimentos do Mercado de Capitais (2000-2002).

José Marcio Mendonça é jornalista e comentarista político; editou o Caderno de Sábado, o suplemento de Cultura do Jornal da Tarde e foi chefe de redação da sucursal de Brasília dos jornais: O Estado de S.Paulo e Jornal da Tarde. Apresenta: A Palavra de Quem Decide na Rádio Eldorado e escreve para o Portal Estadão e no Blog: A Política como Ela é.

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