sábado, 28 de novembro de 2020

COLUNAS

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Política e Economia NA REAL n° 248

terça-feira, 4 de junho de 2013

Mudança no rumo econômico

Pode anotar aí : a divulgação do fraco PIB na semana passada, a elevação mais acentuada da taxa de juros básica e a alta do câmbio são evidentes sinais de mudança dos rumos da economia brasileira. Não é que estejamos valorizando strictu sensu os dados. O que estamos a dizer é que estes indicadores são uma espécie de corolário do fracasso da política econômica oficial. A desconfiança aumentou de vez. Há alguns praticando o argumento de que não pode haver falta de confiança quando a Petrobras emite um volume enorme de títulos de renda fixa, a BB Seguridade emite ações em larga escala e houve sucesso nos leilões de áreas de exploração de petróleo. Os dois primeiros fatos estão relacionados com o momento do mercado lá fora e ao pricing das operações. O mercado financeiro atende a relação de risco versusretorno no curto prazo e com uma rationale própria. Nada diretamente relacionado com o PIB e com o futuro no médio prazo da economia brasileira. Quanto aos leilões, o sucesso é óbvio, mas estamos a tratar de uma commodity, segmento no qual o Brasil é um dos campeões mundiais. A frase serve mais ao proselitismo político que à análise dos fatos econômicos.

A hora dos "fatores estruturais"

O momento econômico do país mostra mazelas e variáveis muito mais inquietantes : (i) um processo de desindustrialização acentuado, sem a incorporação de segmentos modernos e necessários à sustentação do crescimento, (ii) perda da dinâmica interna do crescimento pela impossibilidade de incorporar mais consumo oriundo de gastos públicos, (iii) falta de competitividade sistêmica pela ausência de reformas (tributária, infraestrutura, educação, tecnologia, violência urbana, ineficiência judiciária, etc.) e (iv) a antecipação da corrida eleitoral e o aumento dos riscos correspondentes. Há quem veja nestes pontos uma "linha estrutural" perturbando o desempenho conjuntural. Isto é uma questão de visão ou de metodologia. O fato é que os agentes ambicionam ver estas variáveis tomando o rumo certo e, assim, mudando as expectativas. O que de fato se vê é uma completa inoperância do país (não somente do governo) no sentido de iniciar a solvência destas variáveis. Prevalece a letargia do Palácio do Planalto e seus 39 ministérios, a política "feijão com arroz" do ministro Mantega e o Congresso voltado aos seus interesses mais corporativos (na falta de outra palavra). O poder não admite vácuo. Por ora, é o que se vê.

Câmbio vai desvalorizar ?

Os problemas estruturais podem ser muitos, mas são todos passíveis de solução, mesmo que não sejam fáceis. Todavia, consolida-se a ideia de que a atual valorização do real inviabiliza qualquer passo mais certeiro na direção do crescimento sustentado. Como se sabe, é preciso que a taxa real de câmbio venha a se desvalorizar para que a competitividade do país aumente. Isso necessita de três movimentos que não dependem integralmente do governo : (i) a própria alta da cotação nominal do câmbio, (ii) da inflação residual provocada pela alta da taxa de câmbio, (iii) da inflação externa e os efeitos dos termos de troca (quantidade de mercadorias exportadas/importadas e seus respectivos preços). A "solução da valorização cambial" é delicada e provoca num primeiro momento mais desorganização no sistema econômico do que benefícios. FHC manipulou erroneamente o câmbio e o custo foi um segundo mandato medíocre em termos de crescimento. De toda a forma, apostar na alta das moedas estrangeiras frente ao real nos próximos meses faz muito sentido. Assim como, nos seus efeitos negativos do ponto de vista da inflação, salários e atividade econômica. Nessa ordem.

Em busca da credibilidade ameaçada - I

Por mais que o governo tenha reagido "olimpicamente" aos maus indícios vindos do fronte econômico na semana passada, com o PIB diet de 0,6% no primeiro trimestre e a elevação dos juros básico pelo BC de 0,5 ponto percentual - com uma esticada do dólar de mais de 7% em menos de uma semana - a realidade é que o nível de estresse no Palácio do Planalto e adjacências chegou a seu nível mais elevado desde que Dilma assumiu a presidência da República. As cabeças mais coroadas da República e seu espectro político não conseguem entender porque, apesar de todas as medidas adotadas nos últimos meses - foram nada menos que 18 pacotes - de incentivo ao consumo e desoneração fiscal, a economia não deslancha. O mistério está indo além da vã filosofia oficial. O que se viu - a começar por um ministro da Fazenda Guido Mantega desacorçoado, anunciando que o governo não terá novas medidas - foi um governo perplexo, quase atordoado.

Em busca da credibilidade ameaçada - II

O revés que boa parte dos analistas - alguns próximos do oficialismo, com entradas palacianas - havia previsto, mas Dilma e os seus preferiam não ver. A reação agora, salvo recaída de última hora, parece mais realista. Definitivamente desistiu-se de perseguir um PIB de mais de 3% este ano, aceitando-se a tese do BC de que o problema imediato a combater é a inquieta inflação. Não fosse por nada, pelo tudo de estragado que a indisciplina dos preços já causou em décadas passadas no Brasil, pelo recado muito bem dado pelo próprio PIB de janeiro, fevereiro e março : a estagnação (aumento de apenas 0,1%) no consumo das famílias é reflexo direto da rebeldia inflacionária. Aliás, como o BC já havia tentado provar em outras ocasiões e havia sido rechaçado com ceticismo por seus pares governamentais.

Em busca da credibilidade ameaçada - III

É cruel admitir, porém, para Alexandre Tombini e seus subordinados de BC, o raquítico PIB inaugural de 2013 veio mais do que em boa hora : permitiu à autoridade monetária recobrar um pouco a credibilidade que estava se esvaindo por causa de tergiversações anteriores e, o mais importante, pudesse iniciar o combate à renitente inflação antes que o processo inflacionário começasse a fugir totalmente do controle. O mundo político oficial, aparências à parte, engoliu sem deglutir direito a "ousadia" do BC de acelerar o ritmo de elevação da taxa Selic, mas provavelmente lá na frente vai agradecer muito à Tombini e sua turma. Pior seria deixar os riscos correrem frouxos agora e chegar ao período mais agudo da campanha eleitoral, em 2014, com a inflação mais nervosa e comendo a renda e o emprego dos trabalhadores. De forma alguma não foi esta motivação da autoridade monetária, mas a maior contribuição até agora para a campanha reeleitoral de Dilma foi dada pelo BC contrariando o senso comum político. Quem diria !

A voz do PT ?

José Dirceu ainda expressa em boa medida o que se poderia chamar de o "pensamento do PT". Em seu blog, o líder petista expressou a sua leitura sobre a atual política monetária : "Para nossos adversários é preciso mudar o modelo e não apenas subir os juros para reduzir a inflação. Até porque o dragão da maldade já dá sinais de recuo. Basta ler os editoriais dos jornais da direita conservadora. Não nos iludamos, o que está em jogo é nosso projeto político de desenvolvimento nacional e não apenas uma questão de política monetária e/ou da autoridade e autonomia do Banco Central (BC)". Cabe reflexão o enunciado de Dirceu. 

Um ensaio ?

O programa compulsório do PSDB no feriado de quinta-feira no rádio e na televisão, estrelado por Aécio Neves, teve alguns sinais de que o partido pode estar mudando seu discurso eleitoral para questões mais objetivas e mais de alcance do eleitorado. O foco na inflação é proposital : há pesquisas de que os preços já começam a mexer com parte da confiança da população na política econômica. É este o eleitor a ser disputado. O próprio PT já detectou este flanco. Segundo interpretação do presidente do partido, Rui Falcão, uma voz que ouve muito os assobios de Lula antes de se expressar, as conquistas sociais já não são suficientes para reeleger Dilma. O que explica o porquê, mesmo se como estivesse indo para o cadafalso, do mundo político oficial aceitar a demonstração de autonomia do BC aumentando para 8% a taxa básica de juros e indicando que novas doses do amargo remédio podem ainda ser aplicadas este ano. É bater a inflação ou bater a inflação.

Por que a ressalva ?

Resposta do presidente de Lula em entrevista ao jornal colombiano "El Tiempo" a uma pergunta que questionava o fraco desempenho atual da economia brasileira : "Sem arrogância, eu acho que as perspectivas de crescimento são tão promissoras que, ainda que o governo cometa erros, tudo sairá bem". (grifo da coluna). Cometer erros quem ? Quais erros ?

A "nova competência" do governo - I

O choque do PIB raquítico parecer ter dado um solavanco no governo : desde quarta (e a imprensa foi pródiga de informações oficiais sobre isto nos últimos dias) só se fala agora em Brasília "ancorar" o crescimento da economia nos investimentos. O crescimento deste item no PIB no primeiro trimestre já trouxe um novo ânimo, porém o carro-chefe deverá ser o pacote de concessões na área de infraestrutura : portos, aeroportos, rodovias, ferrovias e, obviamente, o pré-sal. Já se fala até em uma "overdose" de leilões no segundo semestre, a partir de setembro : mais de 30 terminais portuários, os aeroportos de BH e RJ, sete de trechos de rodovias, pelo menos duas ferrovias, entre estas o encantado trem bala, o promissor campo petrolífero de Libra... Dinheiro e concorrentes.

A "nova competência" do governo - II

A questão é saber se o governo terá fôlego para tanto e se vai fazer alterações em seus projetos iniciais capazes de atrair mesmo investidores. Embora tenha anunciado, por exemplo, mudanças nos leilões de rodovias, muitos interessados ainda estão reticentes. O ativismo inicial do governo, na base da Lei de Gerson, querendo levar vantagem em tudo, causou muitas desconfianças e vai ser preciso ainda um bom esforço para esta situação ser revertida. O trem bala rola há mais de dois anos e somente na semana passada a Empresa de Planejamento Logístico, responsável por tocar o projeto, passou a admitir aumentar a Taxa Interna de Retorno, uma das reivindicações dos possíveis concorrentes. Além do mais, há uma questão mais prosaica : o governo vai começar a mostrar mais "agilidade no fazer" e "competência na execução". O pacote de infraestrutura foi lançado em agosto passado - e até agora está nos prolegômenos. Antes isto era motivo apenas de discursos da oposição e comentários velados de alguns empresários. Agora, a dita "inapetência gerencial" do governo Dilma está na boca até de alguns de seus mais fiéis aliados.

A base aliada inquieta - I

Político profissional - ou de carreira - é, a começar pelo mais tolo deles, um bicho racional de faro afiadíssimo, capaz de sentir antes de qualquer radar a direção do vento. A maioria no Brasil tem seu GPS completamente direcionado para os endereços palacianos. Ora, a presidente Dilma desfruta, no momento, de uma das mais altas popularidades jamais desfrutada por um governante no Brasil, com índices acima de 80% rivalizando com os do próprio ex-presidente Lula, indubitável campeão de audiência no país neste quesito. Apesar dos vacilos da economia o grau de satisfação dos eleitores, medido pelo trinômio emprego-renda-poder de consumo da maioria dos cidadãos-eleitores, sequer foi arranhado. E, de acordo com bons especialistas nos ramos da ciência econômica e da ciência política, dificilmente o será até a chegada de 2014.

A base aliada inquieta- II

A sobrevivência da maioria quase absoluta da classe política está umbilicalmente ligada a quem tem tais cabedais, com o amparo dos imbatíveis Diário Oficial e uma caneta cheia de tinta. É, no entanto, é cada vez maior a insatisfação dos aliados tradicionais com a presidente Dilma e seu governo. Sem distinção de partidos, embora alguns estejam mais tristes com ela do que outros. Até no PT os amuos já são públicos - e de gente com boa assinatura em cartório. A falta de carinho, de verbas, de cargos, explica em parte as queixas. Porém, isso tudo é relevado quando a companhia é garantia de sobrevivência. É estranho o que está no ar. Será que sua sagacidade no mundo político profissional com praça assentada em Brasília está vendo jabuti em árvore ?

Pobre oposição

No "Globo News Painel" de sábado passado, o competente jornalista William Waack conduziu um debate sobre os rumos da política brasileira - as vacilações do governo no Congresso, a rebeldia da base aliada, a imagem da gerente Dilma, a avaliação do governo da presidente e, naturalmente, a sucessão presidencial. Presentes, três dos mais respeitados analistas da cena nacional : o professor Bolivar Lamounier, Murilo Aragão, da Arko Advice, uma consultoria com sede em Brasília, e o cientista político e professor do Insper, Carlos Melo. Foi quase uma hora de boa e ilustrativa conversa. Pois bem. Em todo esse tempo, em nenhuma ocasião o nome do tucano Aécio Neves, provável candidato ao lugar de Dilma, foi citado. O de Marina Silva passou batido. E o de Eduardo Campos, também já dado como candidato oposicionista, foi falado en passant.

Dilma "nadando de braçada"

A opinião do grupo é a mesma da maioria dos analistas e da política : o mar eleitoral está todo para Dilma. As piranhas que podem ameaçar o nado seguro dela em direção ao segundo mandato são, principalmente, os desarranjos da economia. E adicionalmente seus próprios aliados e os desarranjos de seu próprio governo. A oposição, se não mudar seu discursos ou sua prática, será mera espectadora. Ou se beneficiará de coisas para as quais ela não contribui. Será caudatária de circunstancias políticas e econômicas.

Radar NA REAL

31/05/13   TENDÊNCIA
SEGMENTO Cotação Curto prazo Médio Prazo
Juros ¹
- Pré-fixados NA alta estável/alta
- Pós-Fixados NA alta estável/alta
Câmbio ²
- EURO 1,3074 estável baixa
- REAL 2,1277 baixa estável/baixa
Mercado Acionário
- Ibovespa 53.506,08 estável/baixa baixa
- S&P 500 1.630,74 estável/alta alta
- NASDAQ 3.455,91 estável/alta alta

(1) Títulos públicos e privados com prazo de vencimento de 1 ano (em reais). 
(2) Em relação ao dólar norte-americano 
NA - Não aplicável

Atualizado em: 3/6/2013 10:05

COORDENAÇÃO

Francisco Petros é advogado, sócio responsável pela área societária, compliance e de governança corporativa do escritório Fernandes, Figueiredo, Françoso e Petros Advogados. Economista e pós-graduado em finanças. Trabalhou por mais de 25 anos no mercado de capital, em instituições financeiras brasileiras e estrangeiras. Foi presidente da APIMEC - Associação Brasileira dos Analistas e Profissionais de Investimentos do Mercado de Capitais (2000-2002).

José Marcio Mendonça é jornalista e comentarista político; editou o Caderno de Sábado, o suplemento de Cultura do Jornal da Tarde e foi chefe de redação da sucursal de Brasília dos jornais: O Estado de S.Paulo e Jornal da Tarde. Apresenta: A Palavra de Quem Decide na Rádio Eldorado e escreve para o Portal Estadão e no Blog: A Política como Ela é.

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