terça-feira, 24 de novembro de 2020

COLUNAS

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Política e Economia NA REAL n° 265

terça-feira, 8 de outubro de 2013

2014 : nada será mais como antes - 1

Muita água vai correr ainda debaixo das pontes que cruzam o Capibaribe diante da união entre Marina Silva e Eduardo Campos para formar uma chapa conjunta e concorrer à vaga de Dilma. O primeiro ponto a ser analisado é sobre a viabilidade prática da coligação dos "sonháticos" de Marina com os "socialistas pragmáticos" de Eduardo Campos e a capacidade dessa união de ser uma soma real de votos. Viu-se, por exemplo, já no fim de semana, pelas redes sociais, que os "marineiros" estão divididos :

1. houve os que aplaudiram irrestritamente;

2. houve os que querem a união com Marina na cabeça de chapa;

3. houve os que simplesmente recusaram a união.

2014 : nada será mais como antes - 2

O tempo dirá o acerto ou não do grande e surpreendente lance de Campos e Marina, o mais ousado até aqui da corrida sucessória. Frenéticas pesquisas que os partidos encomendaram imediatamente, agora darão apenas um leve sinal dos efeitos eleitorais da jogada da dupla. Marina já vai aparecer no horário eleitoral obrigatório que o PSB tem direito na quinta-feira. No fim de semana, portanto, pesquisas abertas que alguns institutos estão preparando terão sinais menos tênues da aceitação do acordo PSB/Rede. Todavia, nada em definitivo se saberá em menos de dois ou três meses, até porque os abalos sísmicos obrigarão os adversários da provável (improvável até sábado passado) aliança a mudarem suas estratégias eleitorais. Principalmente Dilma, Lula, PT e aliados.

2014 : nada será mais como antes - 3

De todo modo, algumas afirmações já podem ser feitas :

1. O segundo turno, que Lula passou novamente a sonhar ser possível evitar quando Marina ficou sem partido, agora ficou quase inevitável.

2. Nesse caso, será impossível a chapa governista de Dilma atrair os adversários do primeiro turno. O PSDB é por natureza oposição. Marina e Campos, pelo gesto e pelos discursos, também deram sinais de que não farão acordos com a candidata oficial.

3. Tanto Dilma quanto Aécio (ou Serra, pois há tucanos que ainda não desistiram da candidatura do ex-governador paulista) são atingidos pelo novo quadro. Inicialmente, e aparentemente, os tucanos perdem mais.

4. Marina e Campos são dois potes assim de mágoa com o governo e o PT. Marina deixou claro que os culpa pelas dificuldades que teve para oficializar o Rede. Seu discurso ao lado de Campos foi pesado até ao atribuir tendências "chavistas" ao governo. Campos não perdoa o fato de o governo ter tentado dividir sua liderança no PSB.

5. Se Dilma não conseguir, por quaisquer razões, aumentar seus índices de intenção de votos a níveis próximos dos 50% até o início do ano, o "queremismo" do "volta Lula", que nunca se apaga totalmente, deverá se amplificar fortemente no PT e nos aliados.

6. Os aliados do PT, a começar pelo PMDB, já começaram a se sentir mais imprescindíveis do que nunca ao PT e Dilma e devem aumentar seu preço para continuar na aliança. A reforma ministerial que Dilma necessariamente fará para liberar os ministros e outros auxiliares candidatos ganha outra dimensão.

7. Dilma estava dando um "sufocozinho" no PMDB ao não ter indicado imediatamente o senador Vital do Rego/PB para o ministério da Integração Nacional. Agora talvez tenha de ser mais rápida na decisão.

8. O PMDB, porém, também precisa se cuidar : conforme o andamento da campanha, é possível que a estratégia oficial exija que a aliança governista venha com alguma aparência de "nova", alguma maquiagem de renovada. A dupla Dilma/Temer frente a Campos/Marina pode ficar com cara demais de passado.

Em política, nunca se sabe

Quem disser que sequer imaginou o lance audacioso de Marina e Eduardo Campos é porque estava muito mal informado. Foi a mais surpreendente surpresa político-eleitoral do Brasil em muitos anos.

Palpite infeliz

Em condições normais de temperatura e pressão, nessa altura da disputa presidencial, já teria sido fora de propósito - além de uma demonstração de soberba e arrogância um tanto excessivas - a declaração do marqueteiro e ministro sem pasta de Dilma à revista "Época" desta semana classificando os adversários da presidente como "anões". Ficou ridícula depois do acordo Eduardo Campos/Marina. Não é à toa que em Brasília se diz, há algum tempo, que João Santana já não está mais tão influente quanto era até a queda do prestígio de Dilma e do governo nas pesquisas, na esteira dos movimentos juninos. E ele tem uma conta a pagar, que já está chegando : prometeu que a presidente recuperaria esses índices em quatro meses, portanto, perto do fim do ano.

Mercado subestima o risco político - 1

A inegável carga de inteligência política de Marina Silva ao se alojar no partido de Eduardo Campos esconde outra aposta com efeitos relevantes sobre a economia : a de que o governo Dilma sofrerá um revés econômico maior que o atual. Além disso, Campos e Marina apostam numa "terceira via" associada com a latente insatisfação de substanciais parcelas da opinião pública em relação ao governo petista. O desafio para a dupla será o de criar um cenário ao mesmo tempo possível e razoável para suportar as insatisfações. De fato, não existe um "pensamento econômico" que possa caracterizar Campos e Marina. A leitura do que se conversa nos bastidores e do que se vê em público é que da fonte do PSD/Rede há pouca substância no que concerne à economia. Não à toa, Campos se escora na velha guarda conservadora para ganhar pontos com a elite (Jorge Konder Bornhausen) e Marina Silva conta com o apoio do milionário André Lara Resende, um dos formuladores mais influentes do PSDB.

Mercado subestima o risco político - 2

Será um erro colossal se as elites econômicas do Brasil não cobrarem dos candidatos, em geral, e de Campos/Marina, em particular, um projeto (não um plano) consistente que faça o Brasil retomar o crescimento em bases novas. A desindustrialização é um fenômeno mais que evidente e os fundamentos sistêmicos do Brasil já alcançam o grau de deploráveis para que o país possa permanecer a caminho do centro do capitalismo. Neste sentido, não bastam mais os planos de ocasião, as políticas limitadas e pouco estratégicas. A necessidade do momento requer um plano que possa ser formulado com objetivos de longo prazo. Ao mesmo tempo, o jogo eleitoral exigirá propostas imediatistas para a saúde, previdência, educação e desenvolvimento regional. Entre o discurso e a prática, a política econômica dos candidatos sofrerá um escrutínio além do eleitorado que é o da realidade. O Brasil deixou de ser um país dinâmico para ser um país relativamente atrasado e distanciado dos novos padrões mundiais. Basta ver a Coréia do Sul e a China. O Brasil está mais para o México, receptor de investimentos voltados para as suas maquillas. Este cenário pouco animador "não está nos preços dos ativos" como se diz no mercado. Todavia, os fatos são mais fortes que possam parecer e cobrarão o seu preço político logo à frente.

BNDES merece ser investigado

Se o Congresso valoriza o seu papel de fiscalizador das políticas do poder executivo há uma tarefa republicana a ser realizada : trata-se de investigar como opera e quais os resultados que o BNDES obteve nos últimos anos. É inegável que o banco de desenvolvimento tem de ter papel central na configuração das políticas econômicas do Brasil. O que se vê, contudo, são operações muito estranhas e de resultados duvidosos. Nas últimas semanas soube-se um pouco mais sobre o passivo do banco com o Grupo X de Eike Batista, os ex-supermilionário mundial. Na semana passada, verificou-se a operação do Grupo Oi, cliente prime do BNDES, com a Portugal Telecom. Há ainda as operações do banco com os frigoríficos, bem como outras operações motivadas pela duvidosa "política dos campeões" forjada a partir da cabeça do presidente do BNDES Luciano Coutinho. Se quisermos avançar, precisaríamos entender a política do BNDES na área de cultura, sobretudo no cinema nacional. Como pode uma instituição com o porte orçamentário do BNDES permanecer sem uma avaliação do Congresso ?

Marta Suplicy poderia responder

O escritor Paulo Coelho já discorreu em várias entrevistas sobre os seus "poderes excepcionais". Diz que faz até o vento soprar mais forte. Falando de coisas mais prosaicas, o nosso Alquimista, em entrevista ao jornal alemão "Welt am Sonntag" (Die Welt), informou em alto e bom som algo que deveria ser um tufão na área cultural : "Duvido que todos sejam escritores profissionais." Disse mais : "Dos 70 convidados, só conheço 20, nunca ouvi falar dos outros 50. São, presumivelmente, amigos dos amigos dos amigos. Um nepotismo. O que mais me aborrece : existe uma nova e excitante cena literária no Brasil. Muitos desses jovens autores não estão na lista". O polêmico escritor estava se referindo à lista de 70 convidados do Ministério da Cultura do Brasil, liderado pela ministra Marta Suplicy, que irão à Feira de Livros de Frankfurt, na Alemanha. Será que a ministra da Cultura adotará a postura do "relaxa e goza" para comentar as declarações de Paulo Coelho ?

Metamorfose ambulante

Trajetória partidária do ex-ministro e ex-governador Ciro Gomes desde que começou sua carreira política em Sobral, no interior do Ceará : Arena/PDS - PMDB - PSDB - PPS - PSB - e agora (e até quando ?) PROS. Sim, Ciro é aquele mesmo que não perde a oportunidade de criticar a falta de convicção política dos adversários.

Ambulantes

A contagem não foi encerrada, porém já se conta em mais de 60 o número de parlamentares que trocou de partido até sábado, data fatal para quem pretende concorrer a alguma coisa em 2014 estar filiado a uma legenda. Isto só no plano Federal. Somados os estaduais, o número passa facilmente dos 100, podendo chegar a 200. A maioria foi em direção ao PROS e Solidariedade, criados exatamente para abrir essas brechas.

Para que tantos ?

Entramos na fase decisiva da campanha eleitoral com 32 partidos oficialmente criados. É um exagero em qualquer quadrante do planeta, não há tantas formas de ver o mundo e pensar a gestão pública quando esse número parece indicar. Nem num país com a criatividade política do Brasil. No fundo, entre nós, a questão partidária poderia ser resolvida, como se diz popularmente, com "uma meia dúzia de três ou quatro" legendas, a saber :

- dois partidos de oposição, um mais ou menos e outro menos ou mais - teria 20% da representação política, qualquer legenda ocupasse o Palácio do Planalto no turno.

- dois partidos da situação - o PGN (Partido Governista Nacional) e o PGB (Partido Governista do Brasil) - com 80% da representação política para apoiar o governo de plantão.

Se por acaso a sociedade, contrariada de algum modo, resolvesse trocar o comando do Palácio do Planalto, imediatamente os oposicionistas vencedores passariam a ser o PGN e o PGB, com 80% de adeptos e parte ínfima do ex-governistas formaria a nova oposição. Como já ensinava um velho político mineiro, desses que se orgulhava de nunca ter passado um mísero dia sequer de sua vida política na oposição, seu partido ganhando ou não o Palácio da Liberdade, "não há nada melhor na política do que cafezinho de Palácio de governo".

Outra metamorfose ambulante

Não passará uma semana sem que o governo anuncie algum tipo de modificação nos modelos de privatização (ou concessão, como prefere sempre o Palácio do Planalto) das estradas, rodovias, ferrovias e portos incluídos no Programa de Investimentos em Logística (PIL) para atrair ressabiados investidores. O problema mais sério - embora isto também o seja - não são apenas algumas regras. O problema continua sendo os temores dos possíveis concorrentes com as interferências governamentais nos negócios - não há confiança é no pós-venda, se o acertado vai ser para valer, sempre. O risco de novos "vazios" nas disputas, apesar das concessões que já foram feitas, ainda é grande.

Estranha coincidência

No mesmo dia em teve o dissabor de ver uma de suas notas de crédito rebaixada pela agência de classificação de riscos Moody's, a Petrobras deixou "vazar de forma oficial", veja-se bem, que nos próximos dias anunciará uma bilionária descoberta de petróleo na bacia de Sergipe/Alagoas. Informação depois não confirmada pelo ministério das Minas e Energia. É óbvio que jogava para desviar a atenção para a má notícia, principalmente quando se aproxima o momento em que ela terá de desembolsar R$ 4,5 bilhões para pagar seus 30% no bônus de assinatura no leilão do campo de Libra do pré-sal. O mais grave é que como companhia de capital aberto, ela não pode ser dar ao direito da fazer esse tipo de vazamento. Onde está a CVM que não vê uma coisa dessas ?

CPI da Petrobras

A Petrobras, nos seus 60 anos de idade, ainda pode ser investigada pela CPI que o PMDB prometeu instalar há pouco mais de seis meses ? Ou esta "ameaça" era apenas para dar um recado ao governo ? Com a palavra Michel Temer e seus aliados do partido, especialmente, o deputado carioca Eduardo Cunha.

Duas vozes

É semana de reunião do Copom do BC e, pelas previsões do mercado, com base na última ata do BC e do Boletim Trimestral de Inflação, está vindo mais um aumento de 0,5 ponto percentual na taxa básica de juros. A expectativa está transferida para a última reunião do ano, em novembro. A maioria acredita que virá mais um ajuste na Selic, para cima, de 0,25 ponto percentual e mais nada. Por um bom tempo ela ficaria então em 9,75%, não chegando novamente aos dois algarismos tanto odiados pela presidente Dilma. Há, porém, ruídos nessa interpretação, provocados pelos barulhos do próprio BC. Quando apresentou o Boletim de Inflação, 10 dias atrás, o diretor de política econômica do BC, Carlos Hamilton, disse claramente que a inflação ainda preocupa e exige atenção de cuidados. Já o presidente Alexandre Tombini, em palestra lá fora na semana passada, afirmou a investidores que o ouviam que a inflação está sob controle e é declinante.

Ou é Tombini ou é Hamilton, as línguas estão claramente divergentes

E não é difícil entender a contradição : por mais que as "vozes oficiais" sopradas do Palácio do Planalto digam o contrário, Dilma marca o BC nesta questão da Selic. Os "juros mais baixos da história do país" fazem parte da cesta do marketing eleitoral dela. Daí as divergências de falas entre Tombini (mais político pelo cargo que ocupa) e Hamilton (mais técnico e tido como dos mais ortodoxos da diretoria do BC).

Política e economia nos EUA

A estratégia de negociação dos republicanos no que se refere ao orçamento dos EUA mistura uma enorme dose de ideologia (o grau de intervenção na economia, notadamente no setor de saúde) e um inusitado proselitismo ao pedir que Obama negocie pessoalmente. O intento é claro : (i) reduzir o sistema universal de saúde criado por Obama aos frangalhos e (ii) enquadrar o presidente e seu governo com vistas à próxima corrida eleitoral. Uma aposta que envolve o mundo inteiro uma vez que a dívida pública corre o risco de não ser parcialmente paga. É muito improvável que um cenário mais agudo ocorra, mas o jogo político está mais tenso que poderia um arguto analista imaginar. Para o Brasil os efeitos imediatos são sobre o mercado cambial, mais tranquilo com a queda do dólar norte-americano. Os efeitos mediatos ainda são difíceis de serem estimados já que a guerra dos republicanos deve se propagar por alguns anos. Não à toa o presidente norte-americano está a passear por temas caros aos republicanos, tais como, espionagem e guerra externa. Os lobbies da indústria armamentista agradecem.

Radar NA REAL

4/10/13 TENDÊNCIA
SEGMENTO Cotação Curto prazo Médio Prazo
Juros ¹
- Pré-fixados NA alta estável/alta
- Pós-Fixados NA alta estável/alta
Câmbio ²
- EURO 1,3581 baixa baixa
- REAL 2,2055 estável/baixa baixa
Mercado Acionário
- Ibovespa 52.848,97 estável/baixa baixa
- S&P 500 1.690,50 estável/baixa alta
- NASDAQ 3.807,75 estável/baixa alta

(1) Títulos públicos e privados com prazo de vencimento de 1 ano (em reais).
(2) Em relação ao dólar norte-americano
NA - Não aplicável

Atualizado em: 7/10/2013 11:20

COORDENAÇÃO

Francisco Petros é advogado, sócio responsável pela área societária, compliance e de governança corporativa do escritório Fernandes, Figueiredo, Françoso e Petros Advogados. Economista e pós-graduado em finanças. Trabalhou por mais de 25 anos no mercado de capital, em instituições financeiras brasileiras e estrangeiras. Foi presidente da APIMEC - Associação Brasileira dos Analistas e Profissionais de Investimentos do Mercado de Capitais (2000-2002).

José Marcio Mendonça é jornalista e comentarista político; editou o Caderno de Sábado, o suplemento de Cultura do Jornal da Tarde e foi chefe de redação da sucursal de Brasília dos jornais: O Estado de S.Paulo e Jornal da Tarde. Apresenta: A Palavra de Quem Decide na Rádio Eldorado e escreve para o Portal Estadão e no Blog: A Política como Ela é.

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