quinta-feira, 26 de novembro de 2020

COLUNAS

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Política & Economia NA REAL n° 53

terça-feira, 26 de maio de 2009


Juros nos países ricos, uma equação difícil

A superação da atual crise econômica mundial passa necessariamente pela disponibilização de recursos públicos para cobrir os imensos prejuízos do sistema financeiro e para sustentar a demanda cadente do setor privado. Estamos no início do processo de recuperação da atividade econômica sem que saibamos ainda quanto tempo será necessário, bem como em que intensidade a "nova" demanda se consolidará. O problema deste processo é que os agentes econômicos, sobretudo nos países centrais, passam a desconfiar da sustentação fiscal dos governos no médio e longo prazo. A inflação pode retornar e o aumento futuro da tributação para minorar os déficits fiscais depende da fortaleza política dos governos. Há uma difícil equação a ser resolvida : quando, como e quanto aumentar os juros sem prejudicar a atividade econômica em recuperação. Na dúvida, os investidores estão demandando menos títulos do governo e exigindo mais retorno (taxa de juros) para emprestar recursos para o setor público. Pelas razões acima, a taxa de juros dos títulos do Tesouro norte-americano engatou um processo de alta desde março último quando as expectativas sobre a atividade econômica melhoraram. Os títulos de 10 anos passaram do patamar de 2,50%-2,60% ao ano para o atual nível de 3,45% ao ano. Para cada 1% de alta na taxa de juros o valor de face dos títulos do Tesouro (que são prefixados) se desvalorizou ao redor de 7,5%. Portanto, se a taxa de juros subir rapidamente, os detentores de títulos perdem dinheiro em igual velocidade. Os investidores que antes se protegeram comprando títulos do governo agora passam a temer os prejuízos. Não é à toa que os leilões de títulos dos governos norte-americano e inglês - dois dos mais endividados do mundo - tem demanda decrescente. Note-se que a taxa de juros básica é controlada pelos bancos centrais, mas a taxa de juros dos títulos depende do comportamento do mercado. A tendência da taxa de juros dos títulos de 5 e 10 anos de prazo do Tesouro dos EUA e da maioria dos países mais ricos é de alta. Este processo é muito relevante e deve ser acompanhado, pois pode gerar turbulência no exato momento em que o mercado espera calma para se recompor.

As moedas responderão às taxas de juros

Os movimentos nas taxas de juros dos títulos dos tesouros nacionais das principais economias mundiais há de provocar flutuações no valor das moedas. Muitos acreditam numa sistemática desvalorização do dólar norte-americano frente ao euro e em relação às moedas dos países emergentes. Ocorre que estas possíveis flutuações provocam variações expressivas nos fluxos de capital e de comércio e, portanto, têm relação direta com a atividade econômica. É possível que as políticas econômicas de cada país tentem "compensar" via taxa de juros ou, até mesmo, protecionismo comercial, os efeitos dos movimentos entre as moedas. Trata-se de um processo perigoso e inquietante e que tem deixado as autoridades econômicas dos países centrais em alerta. A volatilidade entre as moedas se elevará nos próximos meses. Isto é muito provável. As consequências deste processo dependerão do grau e da velocidade das desvalorizações entre as moedas.

O Brasil em meio às variações de juros e moedas

O Brasil está mais incólume à crise externa. Todavia, sabemos que não está imune, mesmo sendo um país de economia relativamente fechada. No que tange às prováveis variações nas taxas de juros dos títulos dos tesouros dos países mais ricos e aos prováveis efeitos sobre as moedas, o Brasil deve ser mais afetado em relação ao atual cenário, mesmo que no médio prazo. Afinal, o país é demandante de capital externo e o resultado da balança de comércio é vital para a manutenção da estabilidade da moeda. Há dois agravantes sérios frente aos riscos deste processo : o primeiro diz respeito ao processo eleitoral do ano vindouro. Eleições aumentam o risco em qualquer país, pois trazem inquietações sobre futuras ações do novo governo. Lembremo-nos que o BC também vai mudar de diretoria, provavelmente antes das eleições. O segundo e mais importante problema é a deterioração fiscal que o governo vem construindo ao longo do tempo : a arrecadação cresce em função da atividade econômica, mas as despesas do governo têm crescido na última década acima da arrecadação e num cenário de baixo investimento do setor público. Neste contexto, o espaço para redução ainda maior dos juros no médio prazo está diminuindo sensivelmente. O que gerará efeitos econômicos e políticos significativos.

Radar "NA REAL"

22/5/9

TENDÊNCIA

SEGMENTO

Cotação

Curto prazo (0 a 6 meses)

Médio Prazo (6 a 12 meses)

Juros ¹

- Pré-fixados

NA

estável

Estável/Alta

- Pós-Fixados

NA

queda

Estável/Alta

Câmbio ²

- EURO

1,3998

alta

alta

- REAL

2,02

estável

alta

Mercado Acionário

- Ibovespa

50.568,49

queda

alta

- S&P 500

887,00

estável/queda

estável

- NASDAQ

1.692,01

estável/queda

alta

(1) - Títulos públicos e privados com prazo de vencimento de 1 ano (em reais)
(2) - Em relação ao dólar norte-americano
NA - Não aplicável

CPI da Petrobras

A inquietação na órbita do governo, dos governistas no Congresso (e alguns oposicionistas) e nas prestadoras de serviços junto à estatal de petróleo é grande. Dentre as maiores preocupações se destacam : a política "cultural" da empresa, os contratos de serviços nas plataformas (construção e manutenção) e as práticas contábeis e financeiras da empresa. Sem contar um financiamento para os usineiros. Há outro aspecto que pode gerar problemas políticos : o relacionamento entre a empresa e seu fundo de pensão. Todavia, a extensão dos interesses relacionados com o fundo de pensão dos funcionários da empresa é bem maior que aqueles que gravitam em torno do governo federal. Talvez neste ponto não exista muito interesse de se alongar nas análises. Por isso, onde se lê, em determinadas reportagens "o governo não está preocupado de fato com a CPI da Petrobras, teme apenas sua exploração político-eleitoreira", leia-se : "o governo está preocupadíssimo com a CPI da Petrobras, e não é por razões políticas ou eleitorais".

Uma CPI de Gabrielli

O presidente da Petrobras, José Sérgio Gabrielli, tem lá seus méritos na instalação da CPI que vai investigar ações da empresa. Irritou oposicionistas e governistas com (i) a sua pose e soberba e (ii) por estar tentando invadir territórios eleitorais demarcados na Bahia.

E o PMDB nada ? Tudo.

O presidente Lula e a ministra Dilma Roussef podem não dar ao PMDB de Renan a "diretoria que fura poço" da Petrobras em troca do bom comportamento do partido na CPI da empresa e da ANP. Até porque, nesta altura, seria escândalo demais. Mas o PMDB terá suas compensações, não duvidem. Afinal, o partido de Renan, Sarney e Temer tem três votos na Comissão que, somados aos três da oposição, formam maioria. Não dá para desprezá-los. O PMDB não atira a esmo. Mirou na "fura poços", mas vai acertar um bom brinde.

A questão geográfica do Presidente

Ontem Lula afirmou que "a tese de que era necessário alterar a geografia comercial mundial e não ficar somente na dependência dos EUA ou da União Européia (UE) deu certo. Os vendedores é que tem de sair, bater à porta dos outros e dizer que nós existimos e que temos produtos sofisticados, além das commodities (matérias-primas)". É certo que é do maior interesse do país diversificar a sua pauta de exportação, seja em produtos, seja em países. Todavia, há um limite neste processo. É igualmente essencial que o Brasil procure romper as barreiras comerciais com os países ricos. Afinal de contas, é nestes que está a grande parcela do mercado mundial, bem como a tecnologia necessária para que o país permaneça atualizado. A estratégia terceiro-mundista do Itamaraty faz sentido, mas tem limites que parecem superados. Voltar a se aproximar da União Européia e dos EUA é essencial. Sob pena de perdermos dinamismo externo no longo prazo.

É eleitoreiro ?

Julguem vocês leitores : o governo acaba de anunciar uma gratificação especial, por desempenho, a ser pago a um grupo de funcionários federais, "apenas uma vez", em junho de 2010. Na aparência, uma ótima medida, pois premia a eficiência. Alguns governos estaduais já fazem isso, como em Minas, em diversos setores, e em São Paulo, com os professores. No caso federal, no entanto, o mérito fica somente na aparência. A gratificação beneficiará apenas os funcionários do DNIT, em obras do PAC, aquele programa cuja mãe, salvo circunstâncias inesperadas, vai ser a candidata de Lula à sucessão.

A sucessão e os compromissos políticos

O deputado José Bonifácio - também conhecido como Zezinho, para não confundir com seu ancestral das glórias da Independência -, líder e "pau-para-toda-obra" no governo do general Geisel, costumava ensinar aos mais incautos que, "em política, todos os compromissos e determinações devem ser cumpridos, menos quando surgem o fato novo e o fato consumado". E é mais ou menos esta máxima que quase todos usam - as exceções são tão mínimas que nem contam - na base aliada em relação à sucessão presidencial. Dilma é a preferida e, em público, ninguém no governismo admite outra hipótese. Mas todas as hipóteses e possibilidades de planos B, C, D, etc. estão sendo analisadas e consideradas seriamente. Desde a escolha de um novo nome - Palocci voltou à berlinda, a ida de Aécio Neves para o PMDB, a retomada da candidatura de Ciro Gomes - até opções mais, digamos, "radicais" como o Lula Três ou uma coincidência geral de eleições em 2012, o que implicaria na prorrogação de todos os mandatos que vencem no ano que vem por mais dois anos. As duas ideias "radicais" já têm projetos prontos para serem apresentados. E qualquer afirmação de que não tem nada disso, de quem quer que seja, não deve ser tomada pelo seu valor de face. O teste pode ser uma proposta de reduzir de um ano para seis meses o prazo de filiação partidária. Na esteira disso tudo, pode vir uma redução total do prazo para a entrada em vigor de quaisquer modificações na lei eleitoral. Até a re-reeleição. O discurso de que isso fere a consciência cívica e jurídica da nação não penetra profundamente em nossa "consciência política". Valem mesmo são as circunstâncias e a oportunidade.

Nosso jogo diplomático

A diplomacia brasileira, com argumentos bem pouco convincentes, decidiu apoiar o egípcio Farouk Hosny para o cargo de secretário-geral da Unesco. Em detrimento do brasileiro Marcio Barbosa, atual secretrário-geral adjunto. Barbosa pode candidatar-se por outro país e tem chances de ganhar segundo alguns especialistas. Homem de sorte esse Barbosa não ter caído nas graças do governo brasileiro. Depois de ter perdido algumas disputas internacionais nos últimos anos - por exemplo, direção geral da OMC - o Brasil acaba de anotar mais um revés : a ministra Ellen Grace foi derrotada pelo mexicano Ricardo Ramirez. O lugar foi deixado no começo do ano pelo brasileiro Luís Olavo Baptista. Ramirez teve o apoio dos Estados Unidos e da China, entre outros. E olha que Lula acaba de voltar de uma visita aos chineses, cercado de grande cordialidade. Ou seja, amizade é amizade, negócios são à parte.

Mulher de malandro

O senador Cristovam Buarque foi demitido do ministério da Educação, no governo Lula Um, pelo telefone, quando estava em viagem pelo Exterior. Esperneou e, depois, aquietou-se. Às vezes tem alguns arroubos de independência, mas que logo passam. Pretendeu disputar também pelo Brasil a vaga de diretor-geral da Unesco. Foi ignorado pelo Itamaraty. Engoliu seco. Foi um dos signatários do pedido de convocação da CPI da Petrobras. Pressionado, retirou sua assinatura, sem muitas explicações convincentes. Não adiantou, porque a CPI acabou sendo instalada, sem seu nome. Dois dias depois recebeu a retribuição do governo : os líderes aliados mandaram cortar dez assinaturas do pedido liderado por ele de constituição de uma CPI destinada a investigar as causas da falência do ensino no Brasil.

E a concorrência ? - 1

Já está visível a estratégia traçada pelos dirigentes da Brasil Foods para tentar convencer os órgãos de defesa da concorrência no Brasil que a concentração de mercado que a fusão da Sadia com a Perdigão inegavelmente provocará á apenas uma ilusão de ótica. As duas empresas estão realizando estudos para demonstrar que a produção "artesanal" de pizzas, salsichas, hambúrgueres e outros tais, a chamada economia informal, é tão poderosa que pode competir com a nova gigante dos alimentos no Brasil. O argumento foi desfiado por Luís Fernando Furlan e Nildemar Secches em uma entrevista com a jornalista Miriam Leitão. É tão pueril que não faz justiça ao talento empresarial dos dois. Vejamos se estes argumentos irão comover os membros do Cade e da Secretaria de Direito Econômico.

E a concorrência ? - 2

O relato de um amigo desta coluna esta semana (e não foi o primeiro) a respeito das dificuldades que encontrou para transferir seu telefone celular de uma companhia para a outra, mostra, na prática o desinteresse das companhias de telefonia móvel de apoiar a tal portabilidade. Os empecilhos, os embaraços - podem ficar pasmos - não foram interpostos pela companhia que perderia o cliente - no caso a TIM - mas pela companhia que teria a vantagem de ganhar um novo assinante - a Vivo. Ao que tudo indica, elas não querem incentivos às trocas de companhias com a manutenção do mesmo número para não despertar os usuários. Não é sem razão que quase não divulgam essas possibilidades em suas campanhas publicitárias. Com os serviços que prestam e os preços que cobram, se o consumidor descobre...

Atualizado em: 26/5/2009 08:07

COORDENAÇÃO

Francisco Petros é advogado, sócio responsável pela área societária, compliance e de governança corporativa do escritório Fernandes, Figueiredo, Françoso e Petros Advogados. Economista e pós-graduado em finanças. Trabalhou por mais de 25 anos no mercado de capital, em instituições financeiras brasileiras e estrangeiras. Foi presidente da APIMEC - Associação Brasileira dos Analistas e Profissionais de Investimentos do Mercado de Capitais (2000-2002).

José Marcio Mendonça é jornalista e comentarista político; editou o Caderno de Sábado, o suplemento de Cultura do Jornal da Tarde e foi chefe de redação da sucursal de Brasília dos jornais: O Estado de S.Paulo e Jornal da Tarde. Apresenta: A Palavra de Quem Decide na Rádio Eldorado e escreve para o Portal Estadão e no Blog: A Política como Ela é.

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