domingo, 29 de novembro de 2020

COLUNAS

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Porandubas nº 282

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Plena absolvição

O rapaz, advogado novo em Princesa Isabel, Paraíba, ia defender um criminoso de morte a faca. Procurou o coronel Zé Pereira, dono da cidade :

- Coronel, preciso conseguir pena mínima para meu cliente. Se não conseguir, não tenho carreira aqui.

O coronel prometeu. Terminou o julgamento, pena mínima. O advogado foi agradecer a vitória ao coronel, que valorizou a ajuda :

- Doutor, o senhor não calcula a força que eu fiz para conseguir a pena mínima. Todo mundo queria absolver o homem.

Mais uma vez, historinha da coleção do amigo Sebastião Nery.

E Gurgel, hein ?

Pois bem, a presidente Dilma decidiu reconduzir Roberto Gurgel ao cargo de procurador-geral da República. Até aí tudo bem. Gurgel acaba de fazer a denúncia formal contra os mensaleiros. Confirma o laudatório do procurador anterior. Pergunta : o que os senadores petistas farão ? Aprovarão ou não a recondução de Gurgel ? Já as oposições alegam : ele foi muito governista. Não quis ir a fundo no caso Palocci. Pergunta : como as oposições avaliarão a recondução ? Parecer deste consultor : há muita firulação. Gurgel deve passar na prova que o Senado fará a ele em agosto. A conferir !

Crises intermitentes 

Sai o ministro dos Transportes, Alfredo Nascimento, e a mídia abre as trombetas : segunda crise ameaça governo Dilma. Ora, mais crises virão. Todas muito previsíveis. O presidencialismo de coalizão obedece a um fluxo de idas e vindas, marés vazantes e marés enchentes. As bases do governo sempre vão fazer pressão ou contrapressão. Trata-se de um jogo. Os partidos querem inserir seus quadros na administração. Os perfis nem sempre agem de acordo com a agenda ética. Por outro lado, o DNA da corrupção se espraia pelas três instâncias federativas. Ante a repercussão negativa, a dona da caneta não tem alternativa que a de despachar os indiciados.

O sal da terra

"Vós sois o sal da terra; e se o sal for insípido, com que há de se salgar ? Para nada mais presta senão para se lançar fora, e ser pisado pelos homens". (Cristo, em O Sermão da Montanha)

O novo ministro 

Paulo Sérgio Passos é um nome da presidente Dilma. Que quer limpar influência e mando do deputado Valdemar Costa Neto. O PR teve de endossá-lo. Trata-se de um técnico que fez amizade com a presidente. Que o trata por Paulinho. Ele é marido da cantora Rosa Passos.

Reforma ministerial 

O Ministério que inaugura um governo é a primeira moldura. Que, ao longo do tempo, vai sofrendo desgastes. Há quadros mal colocados na parede; alguns são muito esmaecidos, outros se quebram ao sabor do vento. As peças vão sendo remodeladas ao longo do tempo. Dilma pensava em fazer a primeira alteração ao final do ano. E ainda conserva esta ideia. A saída de dois ministros antecipa a revisão de quadros. Ante a versão de que coloca no escanteio alguns ministros, a presidente poderá, até, adiar a reforma que imagina e começar a prestigiar perfis considerados marginalizados. É evidente que alguns nomes ainda não mostraram eficiência.

Superfaturamento ?

Costume por estas bandas. Fecha-se o contrato por X. Depois de algum tempo, aparecem os aditivos. E o preço sobe a montanha.

A ousadia

"Desde o condutor dos transportes e o tocador de tambor até o general, a ousadia é a mais nobre das virtudes, o aço verdadeiro que dá à arma o seu gume e o seu brilho". (Clausewitz, em Da Guerra)

Oposições mais fortes 

O poder é um jogo de soma zero. A perda de um jogador é o ganho de outro. Cada vez que um episódio negativo bate no corpo do governo, este perde pontos e as oposições se fortalecem. É o que temos percebido. O governo Dilma, em seis meses, perdeu uns pontinhos. Foi bem até o terceiro/quarto mês. E a indicação apontava para taxas crescentes, sob o conceito de que Dilma é uma presidente técnica, equilibrada e educada com seus acenos bem vistos para Fernando Henrique, a quem escreveu uma carta carregada de encômios. Nos últimos dois meses, o governo entrou numa curva. Que começou com o carro desembestado do ex-ministro Palocci. Por enquanto, a locomotiva governamental ainda desce a ladeira.

Embates conceituais 

Fernando Henrique produziu aquele texto onde procurou descrever o papel das oposições. Sua tese é a de que as oposições cairão do cavalo ao procurarem a montaria do povão. Foi dizer isso e o pau caiu sobre ele. FHC sugeriu que as oposições fixassem o foco nas classes médias. Escrevi um artigo no Estadão reforçando este ponto de vista, mostrando o poder de irradiação de influência das classes médias. Que funcionam como a pedra jogada no meio do lago. Fazem marolas que chegam às margens. Agora, é Zé Dirceu quem faz um texto em resposta à FHC. Li o documento. Trata-se de um arrazoado sobre os programas sociais do PT e uma forçada de barra conceitual na tentativa de enquadrá-los no escopo do socialismo. Pura bobagem. Dirceu faz parte de um time que joga com bolas furadas. Apega-se ao velho vocabulário para discorrer sobre o escudo protecionista que os governos - qualquer um - têm obrigação de formar em defesa das classes mais carentes.

A emoção

"A emoção é necessária, porque sem ela não se pode viver. O importante é sonhar e ser sincero com seu sonho". (Jorge Luis Borges)

Crise externa

A Europa enfrenta novamente a ameaça de crise. Itália, Espanha e Portugal temem que suas economias sejam as primeiras a se romper, caso a gigantesca sombra que paira sobre a Grécia chegue até seus territórios. Os EUA também estão ameaçados. O desemprego não cede. O Brasil, por seu lado, parece esbanjar oportunidades. Há muitos buracos que precisam ser tapados e a gastança chega aos píncaros. Não por acaso, Mantega e sua equipe econômica roem as unhas para evitar ondas mais altas na praia da inflação. Juros altos seguram a barra. Mas a produção brasileira sofre duramente com o dólar pedindo esmola e o real esbanjando pujança.

O centro

"O centro vale mais que os extremos". (Cardeal Mazarino, em Breviário dos Políticos)

PR sairá da base ?

PR ameaça sair da base do governo. Essas ameaças partem de fontes não identificadas, que se valem do genérico : parlamentar que não deseja se identificar, um líder partidário, fontes do Congresso, etc. Bobagem. PR é governista de corpo e alma. Seus participantes jamais trocariam o bem-bom do governismo pela fonte seca do oposicionismo. Seria mais fácil o sol não aparecer, amanhã, que o PR abandonar o curral governista. Por isso, as sinalizações de fontes não identificadas servem apenas como expressão de barganha.

Ensaios para 2012

Lula quer puxar Fernando Haddad, ministro da Educação, para o palco paulistano. Haddad já bebeu muita água no copo governamental e, ao que tudo indica, quer colocar seus lábios em novas taças. É o candidato de Lula a prefeito de São Paulo. Luiz Inácio crê em caras novas. Atenção : ele tem faro. Mas o ex-presidente confessou a um amigo, semana passada : será difícil tirar Marta Suplicy do jogo. Trata-se do perfil com maior recall e índice de votos do PT na capital. E a senadora está muito motivada. Marta mostra-se enjoada com o palavrório do Senado. Gosta mesmo do Executivo. Há uma vírgula em sua pontuação : a rejeição é alta. Se detém, hoje, uns 30% de intenção de voto, registra o mesmo índice na área da rejeição. Pode diminuir ? Sim. Tudo vai depender do clima ambiental : economia, satisfação geral, violência social, imagens dos governos estadual e municipal, polarização entre PSDB e PT, e adversários.

Surpresa 

"Nem sempre vale a pena ser o primeiro a atacar; mas se o inimigo atacar primeiro você pode inverter a situação. Na estratégia, ganha mais quem surpreende o inimigo". (Miyamoto Musashi, em Um Livro de Cinco Anéis)

Safra governamental

Quem está bem nos governos estaduais ? As leituras que faço dão conta de que os governadores, quase todos sem exceção, estão às voltas com a carência de recursos. Estendem o pires na mão no Planalto Central. Afluem aos Ministérios. Que não têm ordem - nem orçamento - para liberar recursos. Não sei quem tem avaliação acima de 7. Regular.

Pastore e os ex-detentos 

José Pastore é um dos mais preparados scholars do país. Tem as mais completas planilhas sobre o mundo do trabalho. Professor renomado da nossa USP, consultor de diversas entidades, a partir da CNI, Pastore lança, em breve, um novo livro : "Trabalho para Ex-Infratores", 158 páginas, Editora Saraiva. Trata-se de uma obra que relata os resultados de uma pesquisa sobre a reinserção de ex-detentos no mundo do trabalho. Ao examinar os determinantes do crime e da reincidência, o autor procura desvendar o que de melhor pode ser feito em prol da recuperação dos que cumpriram suas penas ou estão em vias de cumpri-la. E apresenta sugestões aos que desejam operar programas de reintegração de ex-detentos, além de recomendações práticas para sua execução.

Suplentes sob sombras

A senadora Marisa Serrano, do PSDB, deixa o cargo no Senado para ser conselheira do TCE/MS. Seu suplente é o empresário Antônio Russo Netto. Russo é dono do frigorífico Independência, que entrou em recuperação judicial em 2009, deixando uma enorme lista de credores às portas do Judiciário, até hoje. Com a morte do senador Itamar Franco, o suplente Zezé Perrella ganha um mandato de senador por 7,5 anos. Perrella é presidente do Cruzeiro. Pesa sobre ele denúncia de enriquecimento ilícito.

Criando necessidades

"Um príncipe sábio deve encontrar um modo pelo qual seus cidadãos, sempre e em qualquer tempo, tenham necessidade do Estado e dele; assim, eles sempre lhe serão fiéis". (Maquiavel)

O grito do Capibaribe

O psiquiatra e escritor Luiz Carlos Albuquerque acaba de lançar em Pernambuco o segundo livro voltado para o público jovem. O primeiro, "A Guerra dos Bichos", está na sétima edição e mais de quarenta mil exemplares, fazendo parte de programas MEC e Secretaria de Educação de São Paulo. No recém-lançado "Batra, o Sapo", o autor conta as peripécias de um espécime que nasce no interior de Pernambuco junto aos olhos d'água que dão início ao rio Capibaribe e sente que acompanhar o rio até o mar será o seu destino, a jornada de sua vida. O longo percurso é feito de lenda, ação, humor, perigos e aprendizagem. O sapo é também um animal político.

Bom senso 

A presidente Dilma chamou Luciano Coutinho e ordenou : tire o BNDES desse jogo do Pão de Açúcar com Carrefour. O banco passou mal no teste da opinião pública. A presidente usou o bom senso.

Turismo

O turismo brasileiro atravessa um ciclo de decepções. E demissões. Mais um nome sai da frente turística : a secretária de Turismo e Fomento de Ilhabela, Djane Vitoriano de Jesus, após um ano e três meses de mandato, deixou o cargo na manhã de ontem. Junta-se ao conjunto de outros secretários que abandonaram cargos nos últimos meses, em Búzios, São Francisco do Sul e Angra dos Reis.

Desindustrialização 

A FIESP defende posições avançadas (e corajosas) do governo no território tributário. Mas o governo não está disposto a atender a algumas sugestões da entidade. A Federação defende desoneração total dos encargos trabalhistas da indústria de transformação, transferindo essa carga tributária sobre a folha de pagamento para outros setores da economia. O presidente da FIESP, Paulo Skaf, põe as coisas no devido lugar : "O Brasil enfrenta um processo de desindustrialização precoce. Para revertê-lo, a nova política industrial é fundamental, mas não suficiente. É preciso modificar a política macroeconômica".

Reputação

"Aquele que troca reputação pelos negócios perde os negócios e a reputação". (Quevedo y Villegas)

Conselho ao novo ministro dos Transportes 

1. Faça uma radiografia das obras Federais em todos os pontos do território. Veja orçamentos iniciais e finais.

2. Procure saber como, onde e por que as obras estão atrasadas, são ou foram superfaturadas e os responsáveis pelos projetos - planejamento e execução.

3. Convoque a mídia e mostre resultados da planilha de obras a cargo do Ministério dos Transportes. Indicando o nome dos prestadores de serviços.

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Atualizado em: 13/7/2011 07:58

COORDENAÇÃO

Gaudêncio Torquato jornalista, consultor de marketing institucional e político, consultor de comunicação organizacional, doutor, livre-docente e professor titular da Universidade de São Paulo e diretor-presidente da GT Marketing e Comunicação.

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