terça-feira, 1 de dezembro de 2020

COLUNAS

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Porandubas nº 287

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Que barbeirinho filho de uma figa...!

Djalma Marinho, deputado estadual de 47 a 50 e federal de 51 a 81, era compadre do barbeiro de Nova Cruz, sua cidade natal. Um dia, cortando o cabelo, ouviu o apelo :

- Compadre, vi nos jornais que você vai para Roma visitar o papa. Ele é meu ídolo. Olhe, aqui, a foto dele. Vou lhe fazer um pedido : peça para ele autografar essa foto e escrever uma dedicatória à minha família. Não esqueça. Você é meu maior amigo e não vai me decepcionar.

(Foto do Papa com dedicatória era, outrora, a maior honra que uma família nordestina poderia exibir na parede da sala de visitas.)

O deputado viajou e encaixou o pedido tresloucado na mala do esquecimento. O tempo passa. Dois meses depois, ao voltar a Nova Cruz e ao sentar na cadeira da barbearia, recebeu a cobrança :

- E aí, compadre, o senhor foi a Roma ? Viu o Papa ? E minha foto com a assinatura dele ? E a dedicatória ?

- Pois é, compadre. Vi o Papa. Só me lembrei de você. Falei de sua família, de seu trabalho, da admiração que você tem por Sua Santidade. E ele me olhava com aquele olhar de santo. Quando ia pedir a assinatura dele na foto, ele olhou para minha cabeça exatamente no momento em que me curvei para beijar o anel e, compadre, me deixou sem ação. Pois me perguntou muito contrariado :

- Senhor deputado, que barbeirinho filho de uma figa fez esse estrago em sua cabeça ?

- Você há de compreender, não tive nenhuma condição de fazer o pedido. Não queria comprometer o compadre. Desta vez, olhe bem, compadre, muito cuidado no corte, viu ?

Mutirão de limpeza

O mutirão de limpeza que se atribui à presidente Dilma, e que teve como avenida central o largo espaço do Ministério dos Transportes, propicia uma leitura com esses cruzamentos : 1) A faxina eleva o grau de credibilidade e confiança do governo ; 2) Esse grau de confiança pode ser flagrado pela lupa da opinião pública ; 3) A faxina cria fissuras na base governista, eis que a saída de determinados quadros da estrutura ministerial desagrada determinados partidos ; 4) A presidente toma o cuidado de promover a faxina sem ferir interesses dos grandes partidos ; 5) No caso do PR, com a saída do ministro Alfredo Nascimento e a demissão de quadros, não há possibilidade de reversão, o que seria danoso à imagem governamental. Daí a tendência deste partido de passar a frequentar o movediço terreno da independência.

Papel das oposições

As oposições fazem o papel que lhes cabe : procurar criar racha na base governista e, dessa forma, atrair parte dos quadros governistas para votações em plenário. A tática parece clara : apoiar maciçamente a faxina levada a cabo pela presidente ; massificar esse apoio pela mídia ; criar uma tuba de ressonância em torno do combate à corrupção, de forma a deixar o governo numa encruzilhada : fazer a faxina ou cair na malha dos interesses partidários. Há um grupo de senadores, liderados por Cristovam Buarque (PDT) e Pedro Simon (PMDB), que reforça essa estratégia. Ou seja, as oposições contam com a ajuda de um grupo (mesmo pequeno) de parlamentares da base do governo.

PT e PMDB

O PT e o PMDB se esforçam para evitar que suas bases sejam contaminadas pela estratégia oposicionista. Conversam muito. Decidiram reforçar seus laços. Ambos olham os horizontes do amanhã. A presidente foi alertada sobre o jogo que está por trás da movimentação política. E, ao que se intui, não tomará providências para demitir ministros sob a pressão da mídia e dos clarins congressuais. O que o PMDB deseja é a liberação de emendas parlamentares (nota abaixo). É improvável que continue a fazer acordos para formação de "bloco informal" com outros partidos da base. Seria um suicídio. Ou será que Henrique Alves, líder do PMDB, desistiria da presidência da Câmara no início de 2013 ?

Usos e abusos

O uso de algema, pelo que se interpreta da orientação dada pelo STF, deve ocorrer em casos de ameaça de fuga do preso ou risco de criar embaraços à operação policial. Dentro de aviões, o procedimento é considerado adequado, diante do risco do preso partir para uma agressão que possa ameaçar a segurança do voo. Sob essa leitura, ficou explícito o abuso das algemas nos presos da Operação Voucher. Autoridades, a partir do ministro da Justiça, juízes e advogados rechaçaram aspectos da operação, principalmente o vazamento de fotos dos detidos desnudos, segurando placas com sua identificação.

"Brasil 2014. Já está rolando a contagem regressiva para a Copa do Mundo : faltam 3 anos, 12 estádios e 1 seleção!" (Colaboração de Álvaro Lopes)

PF independente

É evidente que o sucesso de uma operação policial tem muito que ver com o sigilo das ações a serem empreendidas. Até aí tudo bem. Mas essa norma não dá direito à PF fazer o que bem entende. O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, disse que não sabia das operações. Ora, a Polícia Federal é a ele subordinada. Se despreza a hierarquia, comete um ato que atenta contra a norma. Versões : 1) A PF quis dar o alerta de que definha em recursos e equipamentos ; 2) Ao mostrar independência, quis atrair a simpatia da opinião pública ; 3) Há grupos internos em permanente querela ; 4) O ministro da Justiça não consegue pôr ordem naquele espaço, em função da complexidade de interesses em jogo.

Emendas parlamentares

O que efetivamente causa mal estar na base governista é a demora do Executivo em liberar as emendas dos parlamentares. Trata-se de recursos que os representantes destinam às suas bases. Sem eles, o prestígio cai e o próximo pleito fica comprometido. Geralmente, até dezembro, cerca de 70% a 75% das emendas são liberadas. Neste ano, o índice é muito baixo, não chegando a 30%. Daí a grande reclamação. As votações na Câmara contarão com este fator.

Olho atento

O olho da base parlamentar estará voltado para o veto da presidente Dilma ao texto que excluía as emendas dos parlamentares do contingenciamento do Orçamento Geral da União. A conferir a direção dos olhos.

"O que sei de Lula"

O jornalista, comentarista de rádio e TV, escritor e poeta José Nêumanne Pinto, lançou, ontem, no Rio de Janeiro o seu livro "O que sei de Lula". O livro relata episódios inéditos, como a reunião de Lula com um emissário do Planalto no governo Figueiredo, o major Gilberto Zenkner, que tinha montado a rede de espionagem do Exército contra a guerrilha do PCdoB no Araguaia, no apartamento do jornalista Alexandre von Baumgarten, vítima de um atentado em alto mar, cuja autoria foi atribuída à chamada "comunidade de informações". Descreve com as cores da realidade a trajetória do personagem que, segundo Nêumanne, é o maior fenômeno político brasileiro de todos os tempos. O lançamento em São Paulo será dia 23 de agosto, terça, na Livraria da Vila, na rua Fradique Coutinho, 915.

Atenção, tempo seco

Umidade atingiu marca de 10% no DF no início desta semana, recorde desde 2004. Inmet aponta como Estados mais críticos : Tocantins, Goiás, Distrito Federal e oeste e norte de Minas Gerais, onde a umidade relativa do ar deve ficar em torno de 20%. O alerta atinge também os Estados do Pará, Maranhão, Bahia, Mato Grosso, restante de Minas Gerais, São Paulo, exceto no litoral, Piauí e Mato Grosso do Sul.

Instituto Lula

Luiz Inácio abre o Instituto Lula com estardalhaço e com o apoio de ex-ministros de seu governo, que passam a ser sócios. Lula agora tem uma estrutura para amparar - com respaldo legal - os périplos, palestras, discursos e articulação. Pelo visto, a entidade terá muito mais visibilidade que o Instituto Fernando Henrique. O que ex-metalúrgico diz se multiplica por mil. O que Fernando Henrique diz se multiplica por cem.

Mídia e julgamento

Determinados meios de comunicação - e alguns jornalistas - parecem colocar no mesmo balaio informação, interpretação, opinião e julgamento. São escopos muito diferentes. É triste constatar que profissionais que cultivam a liberdade e devem respeitar as instituições democráticas confundam informações factuais - e pontos de vista de fontes - com a condenação. Quem condena é juiz. A imprensa tem, sim, o dever de formar painéis informativos e interpretativos. Que funcionarão como pano de fundo para investigações. Mas a palavra final cabe à Justiça.

"Às vezes eu olho para algumas pessoas e penso... não é possível que esse era o espermatozóide mais esperto." (Enviada por Álvaro Lopes)

Um leão por dia

Alguns textos permitem fazer esta leitura : 1) Certos nomes são os mesmos personagens de todas as semanas das colunas ; 2) Ao acordarem, os autores devem se perguntar : "qual o leão que deverei matar hoje ?" Na ausência de novos reis da selva, os tiros abatem leões carimbados.

Serra de fora de 2012 ?

Essa vem lá dos bastidores : José Serra não vai mesmo entrar na arena de 2012. Razão : medo de perder. Os eleitores desconfiam de que, eleito, renunciará dois anos depois para enfrentar novo páreo. A rejeição de Serra é alta. Se ganhar, encerraria a vida política como prefeito. E isso ele não quer.

Aloysio Nunes

Quem começa a aparecer de maneira mais forte é o senador Aloysio Nunes Ferreira. O mais votado no último pleito. Aloysio não teria nada a perder. Perfil sério. Mais denso que o de outros pré-candidatos tucanos.

Sementes extemporâneas

Valdir Raupp, presidente em exercício do PMDB, gosta de cultivar o jardim de sementes extemporâneas. Lançou, há dias, a semente Sérgio Cabral para a presidência em 2014. Pelo PMDB. E agora sugere Nelson Jobim para presidente em 2018. Pelo PMDB. O presidente licenciado do PMDB é o vice-presidente da República, Michel Temer. Aonde quer chegar o senador de Rondônia ?

E essa greve, hein ?

E essa greve de trabalhadores em educação, que começou ontem, hein ? Associações ou sindicatos de 11 Estados e do DF confirmaram a adesão à paralisação dos trabalhadores da educação básica pública. Que desejam o cumprimento da lei que regulamenta o piso salarial profissional nacional do magistério. Aderem à paralisação as entidades de São Paulo, Rio Grande do Sul, Tocantins, Rondônia, Pernambuco, Minas, Bahia, Sergipe, Mato Grosso, Goiás, Ceará e Distrito Federal. Por enquanto. Interessante : não se fazem mais greves como no passado. Hoje, passam despercebidas. Tornaram-se coisa banal.

PP rachado

O PP está rachado. Esta semana, um grupo do partido destituiu o líder na Câmara, deputado Nelson Meurer (PR) e colocou em seu lugar o deputado Aguinaldo Ribeiro (PB). E o líder do partido no Senado, Francisco Dornelles, recebeu o aviso : em 2012, a liderança deve sair de seu comando.

Dedada poética

1965. Campanha ao Governo do Rio Grande do Norte. Mossoró, a capital do Oeste, está em ebulição. Ferve, respira e transpira política. Poeta popular de extrema alma crítica, Luiz Campos é indagado por que é refratário à candidatura do monsenhor Walfredo Gurgel, candidato do governador Aluízio Alves, ao Governo. Sem pausa, ele usa a própria arte para responder :

"(...) Vou dizer por que não voto
Nesse Monsenhor Walfredo;
É que o partido de Aluízio
Tem uma mão mostrando o dedo.
E pobre só leva dedada.
Quando vê isso tem medo."

(Historinha de Carlos Santos em "Só rindo - A política do bom humor do palanque aos bastidores")

Conselho aos partidos

Esta coluna dedica sua última nota a pequenos conselhos a políticos, governantes e líderes nacionais. Na última coluna, o espaço foi destinado ao ministro da Justiça. Hoje, sua atenção se volta aos partidos :

1. O momento sugere cautela. As principais nações do mundo atravessam uma crise, cujas consequências ainda são muito imprevisíveis. O Brasil não é uma ilha de segurança em um mar revolto. Urge usar o bom senso. Oposição e situação precisam contemplar, primeiro, os interesses da Nação. Depois, os interesses partidários.

2. Há um conjunto de projetos de magnitude a serem votados, dentre eles, a emenda 29, a PEC 300, jornada de 40 horas. O bom senso sugere análise acurada dos impactos desses instrumentos nesse momento da vida nacional.

3. A democracia abriga o balanço de pesos e contrapesos. Nem por isso, a luta política deve ser travada de maneira destemperada e irresponsável. Cautela e caldo de galinha, ensinam os mineiros, não fazem mal a ninguém.

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Atualizado em: 17/8/2011 10:11

COORDENAÇÃO

Gaudêncio Torquato jornalista, consultor de marketing institucional e político, consultor de comunicação organizacional, doutor, livre-docente e professor titular da Universidade de São Paulo e diretor-presidente da GT Marketing e Comunicação.

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