quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

COLUNAS

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Porandubas nº 300

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

A água tá se acabando

Da verve do grande intérprete da alma brasileira, Leonardo Mota, pinço a historinha.

Botão de rosa entreaberto, "menina e moça", Chiquinha era nas redondezas serranas de Campo Grande a mais linda promessa de mulher bonita, a mais perigosa ameaça para os corações adolescentes dos que se faziam homens. Seu pai, o velho Galdino Silva, antevia os cuidados que a filha lhe havia de dar às vezes, quando a sós com a esposa, dizia :

- Biluca, minha velha, se prepare que nós temos de amargar com a Chiquinha... Essa menina, essa menina !

A mãe, envaidecida, achava era graça em tais apreensões. Noite de São João, houve um arrasta-pé na casa de Galdino. As danças iam muito animadas, quando Chiquinha sentiu súbita indisposição : dois ou três cálices de licor de tangerina lhe tinham subido à cabeça. Desculpando-se de não poder dançar aquela "figurada", ela tratou de ir repousar um pouco. No quarto, cuja porta aberta dava para o corredor que levava à sala de jantar, estirou-se a fio comprido numa rede. Mas, naquele estado de torpor, e quase inconsciência, não cuidou de ajeitar as saias curtas, resultando disso ficar meio desnuda. Um rapaz viu-a assim e saiu bisbilhoteiramente a avisar os companheiros. Daí a pouco, sob o pretexto da procura de água na sala de jantar, havia intenso trânsito no corredor... O velho Galdino observou a coisa e acabou descobrindo a razão de tanta sede. Mas, não deu nenhum escândalo. Chamou a mulher e ordenou-lhe calmamente :

- Biluca, vá dizer a Chiquinha que se deite direito; a rapaziada acaba secando todos os potes.

Dilma, primeiro ano

O primeiro ano do governo Dilma certamente será avaliado sob abordagens as mais diversas. A maior parte das análises deve destacar o controle dos eixos macroeconômicos e a relativa tranquilidade no ambiente econômico. Não significa, porém, aplausos entusiasmados dos setores produtivos. Há fortes críticas de segmentos industriais que apontam para a estagnação da economia no último trimestre do ano, para a desaceleração da indústria e a inação na frente das reformas. O governo chega ao final do ano com uma taxa de juros um pouquinho mais alta do que a que se registrava no início do ano. O baixo desempenho do Brasil este ano - crescimento do PIB em torno de 3% - só é comparável ao da Índia. As metas não foram plenamente alcançadas. Para o próximo ano, a expectativa é de crescimento de 5%, prevendo-se crescimento de 4% já no primeiro trimestre de 2012.

Gestão e controles 

O estilo Dilma difere muito do modo Lula de governar. A presidente veste o figurino técnico, com o qual procura expressar a identidade do governo. Esta identidade reveste-se de alguns valores, dentre os quais sobressaem os controles de metas, a eficácia da estrutura governamental, as cobranças constantes aos ministros, não raro resvalando pelo terreno da rispidez. Economista, Dilma começa seu dia no Palácio da Alvorada, lendo, em um iPad, as principais publicações estrangeiras especializadas em economia. Sonha em realizar a convergência entre as taxas de juros brasileiras e as internacionais. Argumenta que, após 17 anos de estabilização, chegou o momento de avançar na normalização financeira do país.

Autoridade

A presidente inclina-se por um uso rígido do conceito de autoridade, fato observável quando despreza certas declarações e posições de subordinados. Exemplo disso teria sido o torpedo usado contra o presidente da Petrobrás, Sérgio Gabrielli, com um comentário considerado impróprio. Dilma teria retrucado nesses termos : "primeiro, ele deve achar 53 milhões de votos, depois ele pode vir aqui e achar o que quiser".

Defasagem

O Programa de Aceleração do Crescimento derrapou na pista, não tendo alcançado as metas projetadas. O programa Minha Casa Minha Vida, um dos carros-chefes da campanha eleitoral de Dilma, é exemplo. Dos 12,7 bilhões de reais reservados para ele no Orçamento de 2011, apenas 0,05% (6,8 milhões de reais) foram desembolsados até agora. Ao mesmo tempo, foram quitados 5,6 bilhões de reais em restos a pagar do programa. Qual a explicação para essa defasagem ? Necessidade de conter a inflação é uma das causas apontadas para a baixa execução do PAC e outros investimentos do governo.

Fechar as contas públicas 

Tem mais : a contenção dos gastos ocorre também pela opção de fechar as contas públicas com saldo positivo este ano, uma medida de prudência diante da crise. O mesmo ocorreu com uma obra-símbolo do governo Lula, a transposição do São Francisco. Registra atrasos em alguns trechos. Rachaduras no concreto denunciam a paralisação de uma das obras mais alardeadas do governo Lula. O custo previsto do conjunto de obras em 2010 era de R$ 5,04 bilhões, mas em agosto o ministério anunciou que o processo ficaria 36% mais caro, saltando para R$ 6,85 bilhões. Problemas gerenciais nos ministérios se acumulam. A pasta dos Transportes, responsável pelo segundo maior Orçamento do PAC, passou meses mergulhado em crise. E outras pastas não tiveram autorização para gastar o que está no Orçamento.

A política no rolo compressor 

O governo Dilma saiu-se muito bem na frente política. Montou-se formidável rolo compressor. Cerca de 350 parlamentares integram a base governista. E as matérias de interesse central do governo foram aprovadas com relativa facilidade, como a DRU. O Código Florestal, apesar do caráter polêmico, acabou incorporando emendas de interesse do Executivo. Em muitas oportunidades, a presidente teve de se valer da experiência e habilidade do vice-presidente Michel Temer.

Fazendo faxina ?

O termo faxina foi usado para definir o estilo Dilma. Ora, a troca de nomes no Ministério se deu em função das pesadas críticas e denúncias feitas por alguns veículos de comunicação. A presidente, em todos os episódios, deu um tempo para que o ministro implicado fornecesse as explicações necessárias. Com a planilha das respostas, a presidente passou a fazer a sua avaliação e a sugerir as saídas dos ministros, evitando a demissão sumária. Seis ministros caíram sob o tiroteio midiático. O sétimo, Fernando Pimentel, ganha um diferencial pelo fato do apoio explícito da presidente, de quem é amigo desde os tempos da ditadura, quando se conheceram e militaram juntos. Apesar de ter incorporado o conceito de faxina - no sentido de depuração ética, assepsia - a série de substituições ministeriais deixa a imagem do governo bastante arranhada. O governo, afinal, tem responsabilidade sobre todos eles.

Receita de crise ?

O Brasil enfrentou a crise de 2008 com políticas de acesso ao crédito e fomento ao consumo. Há quem defenda a ideia de que essa abordagem não convém, agora. Alega-se que os estímulos ao consumo fariam efeito menor que em 2010, porque a população está sendo suprida por muitos produtos importados em detrimento da produção industrial. E há, até, economistas que só apostam em crescimento de 3% ou um pouco mais (e não 5%) em 2012 caso o país lance mão de diversos instrumentos de estimulo à economia. Eis algumas : ampliação dos depósitos compulsórios, fortalecimento dos bancos e agências públicas de fomento e novas rodadas de redução de juros pelo BC e investimentos mais pesados em infraestrutura. Deixo a polêmica com os economistas.

Câmbio e juros  

O governo trabalha com um dólar entre R$ 1,70 e R$ 1,80 em 2012 e um juro real (descontado o IPCA) menor que 4% em 2014. A taxa pode atingir 2,8%, segundo a Austin Rating. Se a projeção se confirmar, terá alcançado a meta da presidente Dilma de ter juros entre 2% e 3%. Pano de fundo : os juros pagos pelas famílias chegaram a 150 bilhões de reais no primeiro semestre de 2011. Os juros pagos pelas famílias refletem a taxa Selic estipulada pelo governo. A propósito, a FIESP acaba de instalar o jurômetro, sistema que permite acompanhar a escalada dos juros no Brasil e o que eles representam em muitas frentes da sociedade.

Quatro ou três cortes 

O economista chefe do Itaú BBA, Ilan Goldfajn, aposta em quatro cortes na Selic em 2012, chegando a 9%, o que resultará em taxa real entre 3% e 4% (perto da estimativa da Austin), já que a expectativa de IPCA em 2012 é de 5,2%. "Toda vez que a taxa real se aproxima de 4% a atividade econômica acelera", diz ele. Goldfajn espera um primeiro semestre mais fraco, mas com aceleração no segundo. Já Gustavo Loyola, ex-presidente do BC, vê Selic a 9,5% em 2012, com três quedas. "Se o ambiente externo se agravar pode ir a 8,5%," avalia.

Pré-candidatos paulistanos 

A pesquisa Datafolha mostrou a primeira tomada de posição dos eleitores paulistanos com os nomes que frequentam a planilha de pré-candidatos. Serra é o tucano com melhor pontuação, 18%. Mas tem a maior rejeição, 35%. Bruno Covas, com 6%, está mais adiante que Zé Aníbal, com 3%. Andrea Matarazzo e Ricardo Trípoli, com 2%. Celso Russomanno aparece bem com 20%, Netinho de Paula, com 15%, Paulinho da Força com 9% e Soninha, com 11%. Mas esses traduzem o recall da última campanha. Não é razoável apostar em Russomanno, por exemplo. Gabriel Chalita, do PMDB, passou de 3% para 6%. E Fernando Haddad, ministro da Educação, exibe 4%. Mas poderá subir sob o empuxo do carismático Lula. Guilherme Afif aparece com 3%, mas é um perfil que poderia crescer bem, caso seja candidato. É bom de expressão televisiva.

João Doria 

O governador Geraldo Alckmin, por sua vez, guarda a sete chaves pesquisa que também encomendou sobre a avaliação dos pré-candidatos tucanos. Inseriu o nome de João Doria, a quem motiva ingressar na política. Até por curiosidade, João topou entrar na lista. E hoje à noite, tomará conhecimento dos resultados.

E Kassab, hein ?

O prefeito Gilberto Kassab é constantemente dado como morto na política. Depois que alguns colunistas fazem festas em seu velório, eis que ele ressuscita e reaparece em cena com toda a força. Tem sido assim em sua trajetória. Criou um partido que tem, hoje, 56 deputados. Começou sua campanha para prefeito com 4% e venceu as eleições. Este colunista considera o prefeito de São Paulo um dos mais hábeis articuladores do país. A conferir em 2012.

Prévias ou trevas ?

Os tucanos vivem novos tempos. O PSDB não dispõe de nomes de peso para a prefeitura de São Paulo. Por isso, decidiu fazer prévias. A base tucana parece eufórica, o nome será decidido nas urnas e não mais pelos caciques que antes, em reuniões muito fechadas, decidiam o candidato a ser "ungido" pela sigla. Hoje, há uma pergunta no ar : se o Serra decidir ser candidato, participará das prévias ou simplesmente os outros declinarão ? E se o ex-governador se dispuser ao sacrifício, os outros entrarão em trevas, cruzando os braços ?

Fundo dos servidores  

A reforma da Previdência, sob o comando do ministro Garibaldi Alves Filho, toma corpo com a aprovação do Fundo de Previdência complementar dos servidores públicos. Hoje, deve passar pela Câmara. No Senado, apenas no início do próximo ano. No novo modelo, os servidores teriam uma aposentadoria complementar garantida até o teto de R$ 3.691,00. O Fundo, que absorveria os servidores concursados, corrigiria, ao longo do tempo, as injustiças e disparidades hoje existentes entre os aposentados dos sistemas privado e público.

Conta não fecha

A conta não fecha. Em 2011, com quase 30 milhões de aposentados, o déficit da iniciativa privada será de R$ 35,5 bilhões, enquanto o rombo provocado pelos 960 mil aposentados do serviço público Federal vai ser de R$ 57 bilhões. São necessários, hoje, quatro servidores na ativa para bancar um aposentado, mas a proporção é de 1 para 1. Daí o déficit que vem crescendo 10% ao ano. O Fundo é a chave da solução. O projeto está há 4 anos no Congresso e atingirá futuros servidores públicos Federais. Para o Fundo, o servidor pode contribuir com quanto quiser e a União, até o limite de 7,5%. Os deputados querem 8,5%.

Partícula de Deus 

A ciência está prestes a fazer a maior descoberta dos últimos 100 anos : comprovar a existência da partícula de Deus, o bóson de Higgs, que garante massa a todas as demais partículas e é considerada ponto central para a explicação do Universo. Há 93% de chances de que a partícula foi achada. Por que Higgs ? Nos anos 60, Peter Higgs desenvolveu uma teoria para tentar explicar o vácuo na ciência que tentava entender os átomos. Sua partícula hipotética (o bóson de Higgs) jamais foi encontrada. A ser confirmada sua existência, abrirá o caminho para detalhar o funcionamento de átomos e até mesmo de como o Universo funciona. Provocará enorme impacto nas religiões e credos. Mas não se acredita que fenecerá a crença em Deus.

Canos furados

Perilo Teixeira, chefe político de Itapipocas, foi ao governador Faustino de Albuquerque pedir para instalar o serviço de água da cidade.

- Mas não há verba.

- Não quero verba, governador. Quero que o senhor me autorize a levar para Itapipocas uns canos furados que estão ao lado da prefeitura de Fortaleza.

- Se estão furados, leve.

Levou e fez o serviço de água. Na semana seguinte, veio o escândalo. Os canos eram para o serviço de água de Fortaleza e tinham sido adquiridos com muita dificuldade pela prefeitura. Faustino Albuquerque mandou chamar Perilo Teixeira :

- Que papel, heim ! O senhor me enganou. Disse que os canos eram furados, eu dei, e depois fico sabendo que os canos eram novinhos, para a água aqui de Fortaleza. O senhor mentiu, coronel.

- Menti como, governador ? O senhor já viu cano que não seja furado ?

Da verve do amigo Sebastião Nery

Conselho aos deputados 

Esta coluna dedica sua última nota a pequenos conselhos a políticos, governantes e líderes nacionais. Na última coluna, o espaço foi destinado aos pré-candidatos. Hoje, sua atenção se volta aos deputados :

1. Analisem e aprovem o projeto que cria o Fundo de Previdência dos Servidores Públicos. O Brasil precisa fazer a Reforma da Previdência. Que começa por uma grande ideia que visa a tapar os buracos do sistema previdenciário.

2. Senhores parlamentares da oposição : nesse momento, urge olhar para os interesses mais altos e nobres da Nação. Vejam, com esse olhar, o Fundo de Previdência dos Servidores Públicos.

3. Claro, se emendas se fizerem necessárias para aperfeiçoar o Projeto, devem ser encaminhadas e defendidas com vigor. E o Executivo, por sua vez, deverá compreender e aceitar emendas lastreadas pelo bom senso.

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Atualizado em: 13/12/2011 10:34

COORDENAÇÃO

Gaudêncio Torquato jornalista, consultor de marketing institucional e político, consultor de comunicação organizacional, doutor, livre-docente e professor titular da Universidade de São Paulo e diretor-presidente da GT Marketing e Comunicação.

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