quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

COLUNAS

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Porandubas nº 302

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

I.N.R.I. - IESUS NAZARENUS REX IUDAEORUM

Abro as primeiras Porandubas do ano com a historinha do impagável folclorista Leonardo Mota.

Conta ele que o mestre Henrique era reputado marceneiro nos sertões de Sergipe. Sua especialidade estava nas camas francesas à Luís Quinze. Quando o freguês achava que o leito era baixo, recebia a explicação de que a cama era francesa, mas era à Luís Quatorze ; se se queixava da excessiva altura, ficava sabendo que aquilo era cama francesa à Luís Dezesseis... O mestre Henrique pôs toda a sua ciência no Cruzeiro do patamar da igreja de Aquidabã. No topo do sagrado madeiro, o vigário da freguesia fizera o mestre Henrique colocar uma tabuinha com as letras I.N.R.I., iniciais de Jesus Nazareno Rei dos Judeus, a irônica inscrição latina de que a ruindade de Pilatos se lembrara na ignominiosa sentença de morte do filho de Deus. Decorrido algum tempo, um sertanejo sergipano, intrigado com a significação daquelas quatro letras, perguntou a um seu conhecido :

- Que é que quererá dizer aquele negócio de INRI, que tem escrito em riba do Cruzeiro ?

- Você não sabe não ? Ali falta é o Q-U-E. Esse QUE não cabeu na tabuinha : aquilo é a assinatura de quem fez, que foi o mestre INRIque...

Ano político

2012 se abre sob o signo do acirramento político. Teremos em outubro o maior pleito eleitoral de todos os tempos : o maior número de candidatos a prefeito e vereador. A disputa aguça o interesse de todas as esferas da sociedade. Por trás dela, as razões : 1) a política deixou de ser missão para ser profissão no Brasil ; 2) a organicidade social exige que os núcleos de defesa de interesse - associações, movimentos, sindicatos, federações, clubes etc - tenham seus representantes na esfera político-institucional ; 3) a esfera produtiva passou a regular sua dinâmica pela régua da representação política nas três instâncias federativas ; 4) a taxa de racionalidade, em expansão, aumenta o civismo e adensa o interesse na participação política.

Foco dos grandes partidos

O pleito de 2012 será a base de lançamento da campanha presidencial / governadores / deputados / senadores de 2014. Quem fizer o maior número de prefeitos em cidades médias e grandes estará na frente da corrida. Os grandes partidos estabelecem como metas a eleição de prefeitos nas maiores 200 cidades do país. As cidades com um colégio em torno de 120 mil/150 mil eleitores estarão no foco das campanhas das maiores agremiações. O PT e o PMDB trabalham com a hipótese de eleger uns 1.200/1.500 prefeitos. Meta bem razoável. As oposições trabalham com a meta de eleger uns 1.000 prefeitos. O PMDB terá candidatos em 22 capitais ; o PT em 19.

Do Congresso

27 congressistas planejam trocar de função e disputar a prefeitura em outubro. Segundo a FSP, 121 deputados federais e seis senadores -21% do total de 594 parlamentares- tentam viabilizar seus nomes. Os congressistas não precisam se licenciar para a disputa. Os parlamentares têm vantagens : visibilidade do mandato, possibilidade de terem, até abril, verba para produzir jornais e vídeos a título de divulgação do mandato. Em 2004, 96 congressistas saíram candidatos a prefeito ou vice. Mas apenas 16 foram eleitos.

"Não há vício que cubra de ignomínia um homem do que o procedimento falso e pérfido". Francis Bacon

PSB fazendo pontes

Chama a atenção nesse início de ano a estratégia do PSB, comandado pelo governador Eduardo Campos, de abrir pontes em muitas direções. O PSB pisca um olho para o PT, outro para o PSDB, enquanto ensaia um namorico com o PSD do prefeito Gilberto Kassab. O neto de Arraes abre a vista para 2014 : quer se habilitar a uma candidatura presidencial ou, como sobra de uma grande arrancada, pegar a vice em qualquer chapa, contanto que a alternativa seja razoável. Faz algum tempo, Eduardo Campos me confessava : "meu sonho é juntar a geração pós-64 e tomar as rédeas do país. Reunindo em um só grupo todos os políticos de minha geração".

PMDB e DEM juntos ?

Ninguém se arrisca a apostar numa futura fusão entre PMDB e DEM. É claro que os Democratas, por exemplo, rejeitam a hipótese porque isso poderá prejudicar sua performance eleitoral de outubro. Mas as conversações foram abertas entre próceres das duas legendas. A ideia é a de formar o maior número de alianças para outubro, um partido cedendo lugar ao outro, dependendo das condições políticas nas regiões. Depois das eleições, os dois partidos fariam um balanço de suas performances. A fusão estaria voltada para a formação de uma agremiação muito forte. E que teria o compromisso de fazer avançar o chamado presidencialismo de coalizão. Os partidos dividiriam a responsabilidade/gestão governativa. Veríamos um presidencialismo mitigado e a aproximação do modelo parlamentarista.

Dez valores emergentes

1. A organização e o controle.
2. A autoridade.
3. A experiência bem-sucedida.
4. A assepsia política.
5. O equilíbrio/bom senso.
6. A objetividade e a clareza.
7. A coragem de enfrentar desafios.
8. O despojamento pessoal.
9. A disciplina para a luta.
10. Mais ação, menos discurso.

(Do meu Livro Tratado de Comunicação Organizacional e Política)

A questão de ACM neto

ACM, de maneira apropriada, pergunta : quem chefiaria, por exemplo, uma agremiação dessas na Bahia ? Ele ou alguém do PMDB ? O deputado tem razão para fazer o questionamento. Mas a política não tem regras. Mais adiante, o DEM poderá constatar que não terá futuro se não se aliar a uma sigla governista. Tem vocação pelo poder. E se os tucanos não tiverem chance em 2014 ? O partido simplesmente se estiolará. O Tempo é o Senhor da Razão. Esperemos que ele seja o juiz.

"Os homens devem ser ganhos com agrados ou destruídos, pois que, se podem vingar-se das ofensas leves, das graves não o podem fazer. Assim, a ofensa que se faz a alguém deve ser tal, que não se tema a vingança". Maquiavel, em O Príncipe

Bezerra seguro de si

O ministro da Integração Nacional, Fernando Bezerra, demonstra muita segurança. Diz que tem a confiança absoluta da presidente Dilma. Com razão. A presidente não quer comprar briga com o PSB de Eduardo Campos. Mas se a onda de denúncias esbarrar em coisas muito graves - no campo dos desvios - o ministro verá a corda apertar em seu pescoço. Ninguém é tão seguro. A presidente dá um voto de confiança - como fez com outros ex-ministros - mas é levada também pelas circunstâncias temporais. O ministro Bezerra não tem apoio firme do PT, que pretende tomar o seu lugar, mas o PMDB está firme com ele.

Não é candidato

O ministro Fernando Bezerra descarta candidatura à prefeitura do Recife. Quer se preservar para 2014. E ser o candidato de Eduardo Campos ao governo do Estado.

Manuela

Porto Alegre poderá eleger, este ano, uma das mais competentes e bonitas prefeitas do país : a deputada Manuela D'Ávila, do PC do B. Com a torcida deste colunista.

As alternativas de Kassab

O prefeito Gilberto Kassab trabalha com algumas hipóteses : apresentar um candidato próprio do PSD a prefeitura de São Paulo, no caso Guilherme Afif ; apoiar José Serra se este decidir ser candidato pelo PSDB ; apoiar o candidato do PT, Fernando Haddad, caso sinta restrições por parte do PSDB. Kassab pensa no futuro. Poderá apoiar o PT mesmo sem ganhar a posição de vice na chapa para seu PSD. Distingue alianças para 2014. Nesse caso, se afastaria da hipótese de apoiar Geraldo Alckmin à reeleição. Os tucanos se acham muito auto-suficientes.

"Desde o condutor dos transportes e o tocador de tambor até o general, a ousadia é a mais a nobre das virtudes, o aço verdadeiro que dá à arma o seu gume e brilho". Clausewitz, em Da Guerra

Vale, a pior ?

A Vale é uma das seis finalistas do prêmio Public Eye Award. Eis a novidade : a empresa frequenta o ranking da pior empresa do planeta. O sistema de voto é on-line. A vencedora será anunciada no Fórum Econômico Mundial de Davos. A indicação da Vale teria sido iniciativa da Organização não-governamental Rede Justiça nos Trilhos, do Maranhão, por supostos impactos ambientais, trabalhistas e sociais. A informação causa surpresa, eis que a Vale sempre aparece como uma das melhores empresas brasileiras.

Adversário e inimigo

Aécio Neves (PSDB-MG), o tucano senador, de quem se espera maior arrojo no Senado, rebateu as críticas de parceiros que se mostram decepcionados com sua postura. O neto de Tancredo rebate : "Não confundo adversário com inimigo, nem tampouco governo com país." Aécio tem hoje o apoio de maior parte da cúpula tucana para ser o candidato do PSDB à presidência da República em 2014. Se continuar peso pluma, ameaça perder a condição.

Dez linguagens para 2012

1. A linguagem da afirmação.
2. A linguagem da factibilidade/credibilidade.
3. A linguagem das pequenas coisas.
4. A linguagem da participação - o NÓS versus o EU.
5. A linguagem da verificação - exemplificação - como fazer.
6. A linguagem da coerência.
7. A linguagem da transparência.
8. A linguagem da simplificação.
9. A linguagem das causas sociais - os mapas cognitivos do eleitorado.
10. A linguagem da tempestividade - proximidade

(Adaptado do meu livro Tratado de Comunicação Organizacional e Política)

Tragédias anunciadas

O Brasil não escapa da imagem de "País do Eterno Retorno". Todo janeiro é mês de tragédias. Chuvas, inundações, desolação, famílias em prantos. Os governos Federal e estaduais prometem mundos e fundos. Nada. O Sudeste, o Sul e o Nordeste continuam a receber pacotes improvisados de ajuda.

Saldo negativo

A balança comercial apresentou saldo negativo na primeira semana de 2012. O resultado do saldo da balança comercial brasileira na primeira semana de janeiro chegou a um déficit de US$ 105 milhões, segundo dados divulgados ontem pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, após registrar em dezembro um superávit de US$ 3,8 bilhões. O saldo negativo resultou de exportações mais fracas do que importações, quando comparamos com os valores registrados em dezembro, já na série ajustada sazonalmente. Nos cinco primeiros dias úteis do mês, as exportações totalizaram US$ 3,539 bilhões, indicando queda de 2,3% em relação ao mesmo período do ano passado. Informações do Bradesco.

A morada do doutor

Fecho a coluna com outro "causo" do mestre Leonardo Mota.

QUEM entra no "Hotel Roma" de Alagoinhas, na Bahia, vai com os olhos a uma tabuleta agressiva em que peremptoriamente se adverte :

PAGAMENTO ADIANTADO, HÓSPEDES SEM BAGAGENS E CONFERENCISTAS

Também, em Pernambuco, o proprietário do hotelzinho de Timbaúba é, com carradas de razão, um espírito prevenido contra conferencistas que correm terras. Notei que se tornou carrancudo comigo quando lhe disseram que eu era conferencista, a pior nação de gente que ele contava em meio à sua freguesia. Supunha o hoteleiro de Timbaúba que eu fosse doutor de doença ou doutor de questão. Por falar em Timbaúba. Há ali um sobrado, em cuja parte térrea funciona uma loja de modas, liricamente denominada "A Noiva". O andar superior foi adaptado para residência de uma família. Eu não sabia de nada disso quando tendo indagado do Major Ulpiano Ventura onde residia o dr. Agrício Silva, juiz de Direito da comarca, recebi esta informação chocante :

- O Doutô Agriço ? O Doutô Agriço está morando em riba d' "A Noiva"...

Conselho à presidente Dilma

Esta coluna dedica sua última nota a pequenos conselhos a políticos, governantes e líderes nacionais. Na última coluna, o espaço foi destinado à comunidade nacional. Hoje, sua atenção se volta à presidente Dilma Rousseff :

1. É complexa a tarefa de trocar nomes de um Ministério dentro de uma aliança partidária. O agrado a uns desagradará a outros. Mas, presidente, aproveite o momento para plasmar um Ministério com a sua Identidade.

2. A hora sugere igualmente um feixe decisório que abrigue os valores da racionalidade, enxugamento de estruturas, simplificação. Diminua a extensão desse imenso Ministério.

3. Escolha os melhores perfis. E, dentre os quadros políticos, aqueles com a melhor ficha de bagagem e conhecimentos especializados.

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Atualizado em: 10/1/2012 13:11

COORDENAÇÃO

Gaudêncio Torquato jornalista, consultor de marketing institucional e político, consultor de comunicação organizacional, doutor, livre-docente e professor titular da Universidade de São Paulo e diretor-presidente da GT Marketing e Comunicação.

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