terça-feira, 20 de outubro de 2020

COLUNAS

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Porandubas nº 412

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Matreirice

31 de março de 1964. Benedito Valadares, raposa mineira, se encontra no aeroporto de BH com outra raposa, José Maria Alkmin, sob o olhar atento de Olavo Drummond, também mineiro e amigo de meio mundo.

- Alkmin, para onde você vai ?

- Para Brasília.

- Para Brasília, ah, sim, muito bem, para Brasília.

Os três saem andando para o cafezinho, enquanto Benedito cochicha no ouvido de Drummond :

- O Alkmin está dizendo que vai para Brasília para eu pensar que ele vai para o Rio. Mas ele vai mesmo é para Brasília.

Gargalhada. Artimanha maquinada para um pegar o outro. Esta modalidade é chamada de engano de segundo grau. Quer dizer : engano meu interlocutor, dizendo-lhe a verdade para tirar proveito da sua desconfiança. A historinha é de origem judia e expressa com humor o refinamento a que leva a tática de ocultar informações. No original, conta-se que dois judeus russos encontraram-se em um aeroporto. Resposta de um para o outro : "Que burla, você está me dizendo que vai a Minsk para que pense que vai para Moscou. Acontece que você vai mesmo para Minsk".

O espírito das ruas

O Brasil ingressou, apressado, no ciclo das mobilizações. Parece desejar recuperar o tempo perdido com a inércia. O espírito das ruas saiu da toca e passou a animar os ânimos de pessoas de todas as classes sociais. As manifestações de junho de 2013, que chegaram a juntar, de uma vez só, cerca de 1,5 milhão de pessoas, precisavam ancorar em algum porto. Em outros termos, alguém deveria canalizar os sentimentos dos becos, vielas, escritórios e esquinas do país. Até a morte trágica de Eduardo Campos, não se sabia quem seria essa pessoa. Ele teria condições de ser o ponto de confluência das manifestações sociais ? Não. Para onde iria o espírito das ruas ? Claro, para a vice de Eduardo, Marina Silva. Não se trata apenas de um ponto de convergência, aberto por comoção social. O perfil da ex-seringueira se adapta ao molde da contemporaneidade. Por isso, ela já tem ingresso para entrar no segundo turno.

"O estadista deve trazer o coração na cabeça". (John Kennedy)

Votos estão cristalizados ?

Estão em processo de cristalização. Forte parcela já aderiu a Marina pelo que ela representa. Expressa o conceito do "diferente do que se vê". Estética que chama a atenção : negra, magra, alfabetizada aos 16 anos, timbre agudo de voz, pequena, coque no cabelo, vestes que lembram uma evangélica entrando em um templo religioso. Uma semântica que abriga um discurso com palavras de difícil alcance - como transversalidade - conceitos conservadores em áreas polêmicas (casamento entre gays, aborto, fé religiosa, etc.) e linguagem que toca os píncaros da abstração. Fala muito e diz pouco, procurando abrigo em platitudes e plataformas genéricas. Mas transmite impressão de sinceridade, honestidade, moralidade. É o vento da vez.

"Os políticos terão de ser, um dia, animais de circo". (Richard Nixon em 1968, referindo-se aos debates na TV americana)

O vento da vez

Meu saudoso pai, falecido aos 86 anos, vivia olhando o nascente e o poente para distinguir sinais de chuva. Antes, porém, sentia o vento correndo em uma direção. Dependendo da direção, ele garantia : vem chuva desse lado de cá, está chovendo nas bandas do CE. Essa onda vem do Norte, do MA. Nossa cidade, Luis Gomes, encravada na fronteira entre RN, PB e CE, servia de biruta para ele nos proporcionar seus cenários de chuva forte ou chuvinha fina. Nunca errava : "quando o vento vem do nascente, ninguém é capaz de mudar sua rota ; é chuva na certa". Pois bem, toda campanha eleitoral tem seu vento correndo numa direção. O vento deste ano se chama Marina Silva.

"Deves parecer clemente, fiel, humano, íntegro, religioso e sê-lo, mas com a condição de estares com o ânimo disposto a tornar-te o contrário". (Maquiavel)

Marina e Lula

Há quem a compare ao ex-metalúrgico Luiz Inácio Lula da Silva. Nascida nas margens sociais, pobre, trabalhadora de seringal no AC, vítima de doenças causadas pelas intempéries da região (mercúrio nos rios, onde se buscava ouro), Marina subiu a montanha da política na locomotiva do discurso da ecologia e sustentabilidade. Criou uma identidade como Lula assim também o fez. Foi, como Lula, fundadora do PT, amiga de Chico Mendes, o ambientalista, assassinado, ícone da defesa ambiental no país. Lula de saias ? A comparação dá a ela mais vigor por encarnar valores que Lula não empunhava, particularmente na frente dos costumes e da moral. É uma pessoa mais contrita, religiosa, uma crente que se vale da Bíblia a todo o momento. Lula, digamos assim, está mais próximo ao dia a dia da vida urbana, incluindo os lazeres e o prazer de um bom prato. Até nisso Marina é diferente. Faz uma dieta rigorosa exigida por um corpo fragilizado pela carga de doenças do passado.

"Não é por culpa do espelho que as pessoas têm uma cara errada". (Gogol)

Ganhará ?

Essa pergunta não passa, ainda, pela bola de cristal de nenhum adivinho, quanto mais pela lupa de um analista político. No final da segunda semana deste mês de setembro, será possível ver onde estará a régua da cristalização de votos. Nesse caso, veremos o que será de Aécio Neves e sua votação. Se os votos em Marina estiverem consolidados e tendência de estabilidade confirmada, a equação ficará mais perto da solução : os votos de Aécio migrarão para Marina e outra parte para Dilma. Aqueles que dizem que o maior contingente cairá nas urnas de Marina podem acertar. Porque a velha polarização PT x PSDB afastará tucanos das urnas do partido de Lula. Dilma, porém, conta com alguns trunfos. A capacidade de recuperação de suas margens históricas no Nordeste, hoje em queda.

"O tom do mundo consiste muito em falar de bagatelas como se fossem coisas sérias e de coisas sérias como se fossem bagatelas". (Montesquieu)

Recuo marineiro

Outro fator em condição de criar um borrão na imagem de Marina é a gangorra que a leva para cima e para baixo. Começa a mostrar uma disposição para se adaptar às regras do jogo político, aceitando posições e abordagens que, anteriormente, não aceitava. O caso do combate à homofobia, por exemplo. Depois de admitir o casamento de gays, ela retrocede, falando de "erro processual", e passa a aceitar apenas a defesa da união entre pessoas do mesmo gênero nos termos já definidos pelo STF. Ou seja, Marina recuou por conta das críticas feitas por grupos evangélicos, como o do pastor Silas Malafaia. Os evangélicos podem decidir a tendência de um segundo turno. O pragmatismo marineiro ficou escancarado.

"Não há nem pode haver aliança entre a política e os meus interesses privados ; a política é e sempre será a inimiga da minha prosperidade profissional". (Rui Barbosa)

Mercado já aceita

A independência do BC agrada ao mercado. Os bancos começam a gostar do programa de Marina na área econômica, que prevê menor intervenção do mercado na economia. Nesse ponto, o programa do PSB é mais próximo ao programa tucano de Aécio Neves que ao escopo do PT. As bolsas sobem no embalo de uma visão menos intervencionista no mercado, que é a visão de Marina. O ministro Mantega, sob esse prisma, é uma carta que começa a ser descartada pelo sistema produtivo. O país está em recessão técnica. E o ministro da Fazenda acha que, mesmo com o pibinho, o Brasil está indo muito bem.

"Tenho um programa com soluções rápidas para o trânsito do Rio : carro novo vai pelo túnel novo ; carro velho só entra no túnel velho". (Antônio Luvizaro, candidato ao governo do Estado da Guanabara, nos idos de 60)

Nomes em alta

Nomes em alta do staff marineiro : Walter Feldman, ex-deputado Federal, ex-tucano e um perfil preparado ; a educadora Neca Setúbal, que nunca esteve na esfera de trabalho do Grupo Itaú, sendo conhecida por sua inserção nas áreas social e educacional ; Maurício Rands, ex-deputado petista, de PE, ex-líder do PT na Câmara dos Deputados.

"As leis são como teias de aranha, os pequenos insetos prendem-se nelas e os grandes as rasgam sem custo". (Anacaris, um dos sete sábios da Grécia)

PMDB mais forte

Ao contrário de alguns prognósticos, o PMDB será muito forte no próximo governo. Deverá fazer a maior bancada de governadores. A conferir. Deverá manter a maior bancada no Senado. E, na Câmara Federal, deverá continuar como a segunda bancada. No jogo de composições, o partido é ator fundamental. Difícil governar sem o apoio do PMDB. Eduardo Cunha, o atual líder do partido na Câmara, é forte candidato à presidência da Casa.

"O voto é secreto, imbecil". (Coronel na década de 30, ao entregar o voto fechado em um envelope para o súdito depositar na urna, assim respondeu à pergunta sobre o nome em quem estava votando)

Debates

Os debates continuam engessados e burocráticos. Este último, promovido pelo SBT, FSP, Uol e Jovem Pan, foi uma chatice. Dilma e Marina entraram num corpo a corpo e, por isso mesmo, lideraram a visibilidade. Aécio foi relegado ao grupo dos nanicos. Quase três horas de debates, dentro de um modelo fechado, agregam muito pouco ao debate político. O debate sobre economia - juros, metas de inflação, políticas fiscal e tributária - não chega às margens. Bate no centro racional e esclarecido. Que já tem posições firmadas sobre o assunto. Logo, o debate apenas reforça pontos de vista já assumidos por grupos de eleitores.

"Ao contrário do que os brasileiros pensam, a Amazônia não é deles, mas de todos nós". (Ex-vice presidente dos EUA, Al Gore)

Pesquisas

Vem mais pesquisa neste final de semana. Datafolha deve divulgar dados sobre a situação para governos de SP, MG, PE, CE, RS e DF. Em SP, deve confirmar liderança de Alckmin (PSDB), mas é bem provável uma subida de Paulo Skaf (PMDB), que está confrontando o governo tucano. Em PE, Paulo Câmara (PSB), o candidato lançado por Eduardo Campos, deverá crescer ; no CE, Eunício Oliveira (PMDB continuará na liderança ; em Minas, Pimentel, do PT, está dando um banho no candidato de Aécio, Pimenta da Veiga ; no RS, a senadora Ana Amélia (PP) lidera ; tende a subir ou a cair ? No DF, como fica a situação ante a impugnação de Arruda e o baixo índice do governador Agnello Queiroz (PT) ? O senador Rollemberg (PSB), pode ser o beneficiário da situação.

Skaf cresce

A pesquisa de ontem do Ibope mostra Paulo Skaf em crescimento. Está chamando Geraldo Alckmin para a luta no ringue. Alckmin desceu de 50% para 47%. Skaf chega aos 23%. Padilha tem 7%. A continuar a tendência de queda de três pontos de um lado e subida de pontos, de outro, poderemos enxergar um desenho de 40% a 30% em meados de setembro. Se Padilha, com a ajuda de Lula, chegar aos 15%, teremos um segundo turno em SP. Esta é a esperança de Skaf e o pavor de Alckmin. O busílis se chama Padilha. Que patina.

Dilma bate

A presidente Dilma compara Marina a Collor e Jânio. A ex-senadora dissera, há dias, que vai governar com os melhores de todos os partidos. Uma forma indireta de dizer que passará ao largo das duas Câmaras Congressuais ? Pessoas são importantes, mas governar sem as instituições é um risco.

Programas de TV

Essa campanha derruba alguns mitos, entre eles o de que um grande espaço na mídia eleitoral é fundamental para o sucesso de uma candidatura. Veja-se o caso de Marina, que não chega aos dois minutos na programação eleitoral. Está nos píncaros da visibilidade. Os programas, ademais, perderam parte de sua essencialidade. Tornaram-se press releases eletrônicos de feitos e eventos. Entraram no poço da descrença. São molduras gráficas e eletrônicas bem feitas, mas sem poder de internalização na cachola dos telespectadores. As mensagens entram por um ouvido e saem por outro.

Cuidado ! Ambição desmesurada

No meu livro "Marketing Político e Governamental", cito um pensamento do cientista político Robert Lane, em Political Life, que explica como a ambição desmesurada pelo poder funciona como um bumerangue. Seria o caso de alguns políticos brasileiros ? Eis o pensamento de Lane: "A fim de ser bem-sucedida em política, uma pessoa deve ter habilidades interpessoais para estabelecer relações efetivas com outras e não deve deixar-se consumir por impulsos de poder, a ponto de perder o contato com a realidade. A pessoa possuída por um ardente e incontrolável desejo de poder afastará constantemente os que a apoiam, tornando, assim, impossível a conquista do poder".

Atualizado em: 3/9/2014 07:57

COORDENAÇÃO

Gaudêncio Torquato, jornalista, consultor de marketing institucional e político, consultor de comunicação organizacional, doutor, livre-docente e professor titular da Universidade de São Paulo e diretor-presidente da GT Marketing e Comunicação.

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