quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

COLUNAS

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Porandubas nº 431

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Abro a coluna com duas historinhas que mostram a verve mineira.

Mudou de nome ?

Mariana, em MG, já foi chamada de Roma brasileira. Terra de fé e de velhas igrejas. E cheia de placas com nomes engraçados nas ruas :

- Cônego Amando

- Armando Pinto

Cônego Amando era conhecido pela verve. Um dia, viajando pelo interior do município, uma de suas acompanhantes caiu do cavalo. Rapidamente ficou em pé. Meio sem graça, perguntou ao Cônego :

- O senhor viu a minha agilidade ?

- Minha filha, respondeu, eu até que vi. O que eu não sabia é que tinha mudado de nome.

(Historinha de Zé Abelha em "A Mineirice")

Pleonasmo

Político tão esperto quanto simplório, Benedito Valadares era governador de MG quando encontrou na ante-sala de Getúlio Vargas o ministro da Educação, Gustavo Capanema, que estranhou seus óculos escuros.

- É uma conjuntivite nos olhos - explicou Valadares.

- Benedito, isso é um pleonasmo ! - reagiu o ministro, professoral.

Valadares ignorou a observação e entrou para falar com Vargas. O presidente também estranhou os óculos escuros. Ele reagiu :

- Presidente, o médico lá em Minas disse que era uma conjuntivite nos olhos, mas o Capanema, que quer ser mais sabido que os médicos, me disse que é um pleonasmo !

Em minha modesta interpretação penso que Capanema estava certo, existe outro lugar para dar conjuntivite, a não ser nos olhos ?

Janot, o nome

O nome mais temido nas próximas semanas : Rodrigo Janot, procurador-Geral da República. Sua expressão : combate à corrupção é prioridade. Sairá dele a relação de nomes de políticos. A ser encaminhada ao STF.

A derrota do governo

O governo saiu bastante ferido da batalha travada no Parlamento. No Senado, até que a vitória de Renan Calheiros contou com o apoio dos senadores do PT, com uma possível quebra de quatro votos. Na Câmara, a derrota foi humilhante, eis que Eduardo Cunha, eleito com 267 votos, deixou Arlindo Chinaglia apenas com 136, enquanto Júlio Delgado, do PSB, teve 100. A que deve essa fragorosa derrota ? Aos articuladores do governo, a começar pelo deputado Pepe Vargas, ministro das Relações Institucionais. Foi áspero no diálogo. Teria feito ameaças. A par disso, o chefe da Casa Civil, Aloizio Mercadante, é considerado auto-suficiente, arrogante.

Desidratar o PMDB

Pepe Vargas foi escolhido pela proximidade gaúcha com a presidente. Não é um parlamentar com experiência de articulação. Mas a presidente, por seu estilo, não olha para essas coisas. Mercadante, por sua vez, é considerado o mentor da ideia de "desidratação" do PMDB, pela qual incentiva Kassab a resgatar o PL e fazer a fusão desse novo partido com seu PSD. A meta é a de atrair uma boa leva de parlamentares, incluindo peemedebistas. Com uma bancada maior que a do PMDB, o novo ente partidário abriria espaço para o projeto de poder de Kassab, que se transformaria no principal aliado do PT. O mundo é mesmo engraçado. O tiro pode sair pela culatra.

Distanciamento

No longo prazo, é possível enxergar distanciamento entre PMDB e PT. Afinal, esses dois partidos já avisaram que não abrirão mão de seus candidatos à presidência da República em 2018. Certamente, esse processo contará com a arrumação dos exércitos de vanguarda, a serem preparados na eleição de 2016, com a eleição dos prefeitos e vereadores. O PMDB quer continuar a ser o maior ente partidário do país. Logo, contará com candidatos próprios no maior número de municípios.

Cunha será uma cunha ?

Eduardo Cunha agirá partidariamente. Se o PMDB continuar maltratado pelo núcleo petista do poder efetivo, certamente o novo presidente da Câmara será instado a dar respostas. Eduardo Cunha está afinado às bases do partido. Portanto, deve corresponder aos anseios do corpo parlamentar. Sua atitude será a de independência, claro, na esteira das atitudes e gestos de boa ou má vontade do Executivo. As camadas tectônicas provocadas pela eleição devem se acomodar. Portanto, Cunha só será uma cunha aos desígnios do Executivo, caso este aja como adversário. Claro, neste caso tem mais a perder do que a ganhar. O novo presidente da Câmara é considerado uma águia : inteligente, rápido, trabalhador, cumpridor de palavra, amigo dos amigos.

PT sem cargos

O PT ficou sem os três cargos a que teria direito na Mesa Diretora na Câmara, porque os cedeu a aliados. E poderá ficar de fora do comando de Comissões importantes como a CCJ. Será um "deus nos acuda". Pela primeira vez em muitos anos, o PT é deslocado para a periferia do centro. O PT tentará, sexta próxima, em BH, unir suas alas. Quem vai pôr cola é Lula, o convidado especial do encontro.

Significados

Afinal, o que significa esse deslocamento para as margens ? O troco que o partido recebe por anos e anos a fio de operações exclusivas com foco nele mesmo. O PT não é solidário, não procura agradar parceiros. A lógica do PT é : primeiro, eu ; segundo, eu ; terceiro, eu. Sem chances para outros. Um dia, esta lógica iria se voltar contra o próprio partido. E é o que acontece. O fechamento do partido, essa sua ânsia de poder absoluto, tem contribuído para formar contrariedades no seio da própria base governista. O PT está em descenso. Corroído pela maior crise de imagem de sua história. Atolado em denúncias que abatem seus quadros, desde o mensalão. De manto puro das vestais, o PT veste, hoje, um esgarçado e sujo trapo.

Desdobramentos

O PT terá, necessariamente, de entrar no purgatório. Para purgar seus males. Vai tentar, em seu 5º Congresso, cuja preparação se fará já nesta próxima sexta, em BH, a reencontrar o fio da meada e tentar consertá-lo. O ciclo petista terá muitas dificuldades para continuar brilhando após 2018. O espectro partidário poderá assim ser dimensionado : um forte grupo conservador, à direita ; uma larga frente social democrata, no centro e uma banda de esquerda. Radicais, em grupos menores, nas extremidades do arco ideológico.

Dominó da crise I

A primeira pedra é : a crise econômica. Sob o seguinte pano de fundo : cortes em todas as áreas ; aumento de impostos ; juros altos ; rebaixamento da nota de investimento do Brasil pelas agências internacionais ; recessão econômica (retração) ; desmotivação de setores produtivos ; derretimento da Petrobras ; ações judiciais contra a Petrobras nos EUA ; efeitos que impactam o topo, o meio e a base da pirâmide.

Dominó da crise II

A segunda pedra é : a crise política. Sob o seguinte pano de fundo : relação de nomes que receberam propina do petrolão ; abertura de investigações pelo MPF ; julgamento pelo STF ; impactos das ações no Congresso ; terremoto político.

Dominó da crise III

A terceira pedra é : a crise hídrica. A falta d'água em SP, no RJ, em Minas, no Nordeste e em outras regiões começa a abrir um clima de calamidade pública. Já se fala em Plano de Evacuação de SP. Para onde iremos ? A seca dos reservatórios deverá atingir seu pico em meados do ano. Até lá, a verborragia será intensa, mas a solução continuará no ar.

Dominó da crise IV

A quarta pedra é : a crise energética. A seca que começa a impactar os reservatórios poderá contribuir para acelerar a ocorrência de apagões. O sistema elétrico em pane abrirá um ciclo de problemas nos estabelecimentos comerciais, industriais e nas habitações. A falta de luz semeará indignação. Com forte impacto sobre a imagem dos governantes.

Dominó da crise V

A quinta pedra é : a movimentação social. Os movimentos sociais irão novamente para as ruas, como já está ocorrendo em SP, e a tendência de recrudescimento é bastante previsível. A contrariedade se expandirá e os aparatos policiais serão convocados a tratar dos atos de vandalismo. Vai sobrar repercussão negativa para os governantes.

Dominó da crise VI

A sexta pedra é : o derretimento da Petrobras. A continuar a aura de escândalos que cerca a ex-empresa orgulho do Brasil, não é fora de propósito acreditar que tanto o ex-presidente Lula como a presidente Dilma sejam jogados no olho do furacão. E o rebuliço na área política será ainda mais forte.

Graça Foster

A última pedrinha do dominó tem a ver com a continuidade ou a substituição de Graça Foster no comando da Petrobras. A continuar, o despenhadeiro é o que se apresenta ; a substituição poderá dar nova vida à empresa. O mercado é um ente vivo. Reage às ondas. Pode ser que a Petrobras esteja perdendo, a par da credibilidade, também a Graça. A conferir.

Famílias dos presos

Os executivos envolvidos no affaire Petrobras estariam recebendo forte pressão de suas famílias para abrirem o bico. Afinal, se estão presos e sem esperança de serem soltos, que abram a boca e apontem os comandantes ou patrocinadores dos desvios. É o que se comenta à boca pequena. Daí o receio de que as denúncias entrem pela porta dos maiorais.

Plano A e B do PT

O plano A do PT ainda é Lula em 2018. O plano B inclui Jaques Wagner. O plano B de uma ala do PT inclui Aloizio Mercadante. Que passa a ser o plano A dele mesmo.

O butim

Começa agora a segunda fase de repartição do butim. Os partidos aliados deverão ser contemplados com espaços no segundo e terceiro escalões. Vai ser pressão e contrapressão de todos os lados. Não haverá cargos suficientes para atender a todos. A insatisfação continuará.

Governos estaduais

Os novos governantes estaduais enfrentarão a maior crise das últimas décadas em suas administrações. Abrirão o ciclo de "vacas magras" com o pires na mão. Mas quem poderia colocar alguma grana no pires vai dizer que seu bolso está sem um tostão.

Fecho a coluna com a verve carioca

O purgante e o efeito

Ao abrir a sessão da Câmara Federal, quando ainda era sediada no RJ, o presidente Ranieri Mazzilli concedeu a palavra a Carlos Lacerda, então representante do DF. Rápido e agressivo, o deputado Bocaiúva Cunha gritou ao microfone, sob os risos do plenário :

- Agora vocês vão ver o purgante !

Lacerda, num piscar de olhos, respondeu :

- Os senhores acabaram de ouvir o efeito !

Nem os adversários prenderam o riso.

Atualizado em: 4/2/2015 08:02

COORDENAÇÃO

Gaudêncio Torquato jornalista, consultor de marketing institucional e político, consultor de comunicação organizacional, doutor, livre-docente e professor titular da Universidade de São Paulo e diretor-presidente da GT Marketing e Comunicação.

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