sábado, 16 de janeiro de 2021

COLUNAS

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Porandubas nº 696

quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

Abro com uma historinha de São Paulo.

Tape os ouvidos

Em Morro Agudo, a 80 quilômetros de Ribeirão Preto/SP, havia um comerciante e chefe político muito ativo, de muito prestígio, mas analfabeto. Tinha um empregado que lia as coisas para ele. Um dia, o comerciante brigou com a mulher, separaram-se, contrataram advogados, foram para a Justiça. E, de repente, chegou uma carta dela de inúmeras folhas, passando a limpo (ou a sujo) os longos anos de vida em comum. Ele não poderia dar ao empregado para ler, chamou o melhor amigo:

- Você pode ler esta carta para mim? Mas você vai me fazer um favor. Eu sei que ela vem falando tudo, contando tudo.

-Então, amigo, leia alto para mim, mas tape os ouvidos.

A vacina, expectativas

A vacina está sendo aguardada com muita expectativa. O Reino Unido e os Estados Unidos já iniciaram a vacinação em massa. Dá gosto ver mudança de discurso. Trump vai à TV para anunciar, orgulhoso e portentoso, que ele estava proporcionando a salvação de milhares de norte-americanos. Quem diria, hein, logo ele que não acreditava que a covid-19 era um bichão papão de vidas. Pois é, as vacinas são um avanço extraordinário da ciência. O mundo civilizado aplaude. O mundo da barbárie acha um paliativo inócuo.

A vacina, politizada

Já por nossas plagas, a vacina ganhou epítetos: vacina comunista, chinesa de João Doria, tem chips para controlar a vida das pessoas, muda o DNA humano, e mais um lote de besteiras. E sabe quem propagou toda essa descrença? Nossa autoridade máxima, o presidente, que acha bobagem vacinar em massa, fazer lockdown, essa dureza de proibição de circulação de carros e pessoas que a primeira-ministra Angela Merkel determinou na Alemanha. Também voltando no Reino Unido. Por aqui, mais de 20% da população diz que não vai receber a vacina. Só quero ver quando a foice da morte pairar em suas casas.

Qual, quantas?

Afinal, qual a vacina, em que quantidade o Brasil deve importar ou comprar do próprio Instituto Butantã? Primeiro, todas as vacinas que demonstrarem eficácia devem ser adquiridas e usadas. Sem restrição. Vacina não tem ideologia. Misturar ciência com fofocagem de grupos de viseira é pensar de forma errática. Mas temos, entre nós, alguns jardins de dinossauros, que estão fossilizados e ainda querem pensar. O Instituto Butantã, ministro Pazuello, integra a estrutura do Governo de São Paulo. A não ser que o governo Federal faça um confisco. Quanta burrice se espraiando no deserto de parvoíces.

Mutante

O Reino Unido acaba de descobrir que a covid-19 é mutante. Transforma-se, ganha novas formas. Por isso, a atenção deve ser redobrada. Imagino que essa pandemia vai durar muito tempo. E novas vacinas deverão ser criadas para enfrentar a pandemia. Trata-se de um luta entre o homem e a natureza, o homem e os males que o cercam, o homem e as incertezas e acidentes que assolam a Humanidade. Chegamos a uma encruzilhada: ou a Ciência continua a avançar, sob a pressão dos bons, ou as doenças acabarão com a existência humana no planeta, sob os aplausos dos maus.

General Santos Cruz

Vi, domingo à noite, a entrevista do general Santos Cruz a Andréia Sadi, da GloboNews. Ali aparece um brasileiro destemido, um homem das nossas Forças Armadas, com linguagem fácil e densa, cheia de hipóteses e conceitos, com números que explicam nossos descaminhos. Como um perfil com essa envergadura pode ser descartado de um governo? Combate a corrupção, a ideologização da vacina, os males que mancham a bandeira nacional. Está acima de um grupo que parece fruir o prazer de ter o poder. Ex-ministro da Casa Civil, com um histórico de trabalho e luta pela paz em países estrangeiros, o general Cruz deve ser ouvido todo tempo por suas oportunas observações.

Governo imprensado

Não dá para apostar em um governo altaneiro, firme, com programas e propostas aprovadas no Congresso Nacional. Esse é o retrato que se flagra nesse momento em que o presidente e seu núcleo duro tentam emplacar os novos presidentes da Câmara e do Senado. Rodrigo Maia continua detendo força, mesmo que não consiga fazer seu sucessor na Câmara. Alcolumbre rejeita a ideia de ganhar um posto na Esplanada dos Ministérios e vir a perder a chance de eleger seu sucessor no Senado. Seja qual for o desfecho das operações, sobra a impressão de que os dois últimos anos de Governo enfrentarão um Congresso mais aguerrido.

Economia em dificuldades

Como tenho repetido, a economia é a locomotiva que puxa o trem da política. A pandemia está deixando marcas fortes na paisagem das Nações. O prejuízo não será reparado em curto prazo. Nossa dívida chega a 96% do PIB. Inflação ameaça subir. Os setores econômicos se levantam devagar. 2021 poderá não abrir muito espaço para folgas. O terceiro ano de governo é o de abertura de cofres para tentar fechar alianças e apoios. Sob pressão das margens sociais carentes, classes médias empobrecidas e corpos políticos famintos. Poupança, teto fechado para gastos ou abertura dos cofres? Só populismo não elege mais.

Centros

A previsão deste consultor é a de que, com o olhar de hoje, dá para ver um arco político dividido entre extrema direita, esquerda, centro-direita e centro-esquerda. Protagonistas: Bolsonaro (sem partido) pela extrema direita, um perfil de esquerda ainda não definido, o centro-esquerda apresentando Ciro Gomes (PDT) e o centro-direita, João Doria (PSDB). O centro, portanto, com suas bandas esquerda e direita, terão dois candidatos. A esquerda, com PT e PSOL, talvez mais uns agregados, vai olhar a cena e deixar para indicar em cima da hora. Bolsonaro contará com seus 20% ou um pouco mais. Tende a disputar com o candidato de um desses dois centros.

IDH

Brasil cai cinco pontos no ranking do desenvolvimento humano, medido por órgão da ONU. Baixa da 79ª para a 84ª posição. Fator principal: estagnação na educação.

E aí, Biden será cumprimentado?

E agora, presidente. Joe Biden foi confirmado vitorioso do pleito. Recebeu, ontem, cumprimentos de Putin, da Rússia, por ter recebido 306 votos do Colégio Eleitoral, que rejeitou qualquer denúncia de fraude. Bolsonaro é o último da fila.

Orlando Duarte

Meu adeus a Orlando Duarte, grande comentarista esportivo, meu aluno de pós-graduação na Cásper Líbero. Ceifado pelo demônio da pandemia.

Chance de vir a ser candidato (visão de hoje)

De 1 a 10

Luciano Huck - 3
Luis Inácio - Lula - 2
Fernando Haddad - 5
Guilherme Boulos - 6
Jair Bolsonaro - 9
João Doria - 8
Ciro Gomes - 9
Álvaro Dias - 4
Eduardo Leite - 4
Romeu Zema - 3
ACM Neto - 4
Rodrigo Maia -3
Ronaldo Caiado - 1
Paulo Hartung - 2
Paulo Câmara - 3
Camilo Santana - 1
Sérgio Moro - 3
Luiz Mandetta - 2

O voto pandêmico

O final de 2022 ainda puxará as sequelas da pandemia. Daí a inferência de que o coronavírus vai passar um bocado de tempo dando seus recados aqui e ali. Com a aplicação de vacinas, análises de seus efeitos, poderemos distinguir um processo de engajamento mais forte na frente da ciência. O que significará a aprovação aos cientistas e desaprovação ao negacionismo. Os negacionistas sairão manchados desses tempos de pandemia, quando queimaram todos os seus esforços para desacreditar os avanços científicos.

Nietzsche

- Não devo ser pastor nem coveiro. Não quero mais, sequer, falar novamente ao povo; pela última vez, falei a um morto. Quero unir-me aos que criam, que colhem, que festejam; quero mostrar-lhes o arco-íris e todas as escadas do super-homem. (Assim Falou Zaratustra)

Fecho a coluna com Sócrates.

(Atenas, 469-399 a.C.)

Discípulos que visitavam Sócrates na prisão e o aconselhavam a fugir. Ele respondia:

- Uma das coisas em que acredito é no reinado da lei. Bom cidadão como tantas vezes vos tenho dito, é aquele que obedece às leis de sua cidade. As leis de Atenas condenaram-me à morte, e a inferência lógica é que, como bom cidadão, eu deva morrer.

Ao se aproximar a hora fatal, rodeado de amigos, chega o carcereiro, a quem pergunta:

- Agora, você que entende dessas coisas, diga-me o que fazer.

- Beba a cicuta, depois levante-se e ande um pouco até sentir as pernas pesadas. Então, deite-se e o torpor subirá ao coração.

Fez o que foi recomendado. Quando andava, lembrou-se de algo:

- Crito, devo um galo a Esculápio. Providencie para que a dívida seja paga.

Deitou-se, fechou os olhos e quando Crito lhe perguntou se havia mais recomendações, ele já não respondia. Morreu o mais justo e o mais sábio dos homens - diria depois Platão.

Atualizado em: 16/12/2020 07:41

COORDENAÇÃO

Gaudêncio Torquato jornalista, consultor de marketing institucional e político, consultor de comunicação organizacional, doutor, livre-docente e professor titular da Universidade de São Paulo e diretor-presidente da GT Marketing e Comunicação.

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