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Um ano da morte do meu querido amigo Saulo Ramos

Ser seu Amigo foi uma das circunstâncias mais importantes e felizes de minha já longa vida. Saulo foi a mais preciosa vocação de amigo, que conheci.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Atualizado às 09:01

No dia 28 de abril faz um ano que Saulo Ramos nos deixou. O mesmo turbilhão de sentimentos, vividos no dia de sua morte, continua a repicar em minh'alma. Se saudade é palavra que não se define, por ser única na língua portuguesa, só sei que ela dói e dói muito.

Faz um ano que estou impossibilitado, no fim de cada tarde, de ir vê-lo e dele ouvir: "Ovídio, entre". De usufruir de sua prosa inteligente, culta, de suas gostosas tiradas de humor e como exímio malabarista a descrever gestos e pronunciar palavras sobre as coisas da vida, como se fossem temas de sua alma de poeta. De conversarmos sobre as lições do velho Ráo, como chamávamos o nosso querido professor Vicente Ráo e do orgulho santo que sentíamos, pela certeza de que em todos os nossos trabalhos jurídicos, elaborados sozinhos ou em parceria, sempre estavam presentes as lições do professor.

Como era bom e gratificante. Faz um ano que não tivemos mais a sua presença nos almoços de sábado em minha casa, cuja presença era motivo constante de alegria e, porque não dizer, de veneração por alguém que sempre foi amigo, bom e generoso, não escondendo sua satisfação de estar entre nós. Um ano se passou e nunca mais tive a oportunidade de beijar suas mãos, em agradecimento pela sua amizade, bondade e generosidade e de poder dizer-lhe, com contida emoção: Bendito e louvado seja o dia em que o conheci. De ser seu Amigo de alma e coração. Ser seu Amigo foi uma das circunstâncias mais importantes e felizes de minha já longa vida. Saulo foi a mais preciosa vocação de amigo, que conheci.

Em dia tão doído, resolvi, mais uma vez, mergulhar em sua poesia, porque sei - e sei bem - que o poeta vive em outra dimensão diferente da nossa, pois sabe ouvir e entender a alma humana, para exprimi-la em versos.

No Poema a meu Pai, exprime que tão grande amor que os unia, levava a certeza: "chegaremos um, na eternidade". Quando da morte de seu irmão Luiz Carlos - ambos formaram um dos mais encantadores amores fraternos que conheci - o sentimento profundo pela perda, levou o Poeta a expressar este verso tão carregado de emoção:

"Teve a piedosa graça da precedência
de acordo com seu antigo desejo
como sempre quis,
bebendo cachaça e rindo.

Mas eu estou condenado à sanção do amargo espanto
de viver sem você
e sobreviver
mata mais do que a morte que o levou de mim".

É encantadora a sua certeza de que "sempre fui menino, menino fui sempre" e o susto: "Havia uma criança em mim, aqui desde que nasci, uma criança, havia sim, onde foi que a perdi?".

Sempre calou fundo em mim, a frase de Borges: "Acreditar no sonho, entregar-se ao sonho, porque só o sonho existe". Em resposta, a carta que lhe escrevi, onde expressava o sentido profundo da frase de Borges, Saulo lembrou outra de Alberto Caeiro: "E posso estar na realidade onde está o que sonho". Também, cultivava "a maravilhosa importância do sonho", recordando que no seu "Recado ao Caseiro" disse: "É possível que eu seja uma fonte de verdade e de existência enquanto sonho e isto tudo seja a vida de outras vidas" - "Deve existir um universo no processo de criar pelo sonho" - "Tantas vidas dependem de mim quando sonho inclusive a vida de meus mortos, que talvez tenham morrido porque alguém parou de sonhá-los antes de mim".

Em Saulo, tudo era grandioso, Sabia ser gente em todos os momentos de sua vida. Era a sentinela pronta e vigilante para cuidar de que a vida vale a pena de ser vivida, com Amor, Bondade e Generosidade, emoldurados por sua fulgurante inteligência, inteligência esta que o Presidente Sarney disse a mim, no dia de sua morte: "No Brasil, foi uma das maiores inteligências que o século XX conheceu".

Para ele, a "morte está de olho na gente" e os poetas abandonados "fecham timidamente os braços crucificados, quando já não cantam mais".

O Poeta já não canta mais, mas a sua alma continua viva, como hino, no coração daqueles que o amaram. Se a vida humana não é eterna, o Amor seguramente é eterno.

Encontrei um verso que diz: "eu morto serei chão, serei terra em minha terra" e no poema dedicado a Brodowiski há uma estrofe que diz:

"bem fez meu pai que morreu
cedo para voltar logo
a encontrar na morte o jeito
de ter sua terra de volta".

Seu filho, também, encontrou um jeito de ter sua terra de volta.

Para mim, para Eunice, a sua querida Santinha, Márcia, Antônio, Fernando, Márcio, minha querida Ana Helena, meus queridos filhos,.minha família, e todos aqueles que o amaram em vida, você é eterno em nosso Amor.

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* Ovídio Rocha Barros Sandoval é advogado do escritório Rocha Barros Sandoval & Ronaldo Marzagão Sociedade de Advogados.



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