sábado, 24 de outubro de 2020

MIGALHAS DE PESO

Publicidade

A MP 232 e a contramão da razão

O embrutecimento do agir leva ao embrutecimento da cognição. É por essa via que o país desce ladeira abaixo, bem aprumado com a refinada coleta seletiva axiológica do que de pior se nos oferece a globalização sócio-econômico cultural.

sexta-feira, 18 de março de 2005

A MP 232 e a contramão da razão


Eduardo Dietrich e Trigueiros*

O embrutecimento do agir leva ao embrutecimento da cognição. É por essa via que o país desce ladeira abaixo, bem aprumado com a refinada coleta seletiva axiológica do que de pior se nos oferece a globalização sócio-econômico cultural.

Enquanto os demais países imprimem criteriosamente sua capacidade seletiva sobre o caldo cultural globalizado, preocupados em instalar filtros culturais e contornar os excessos do pseudo-pragmático "conhecimento de consumo", caminhamos na direção oposta, a passos céleres e firmes, fazendo uma grande confusão entre política e cultura, popularizando, na pior acepção do termo, o que deveria ser implementado, e vice-versa.

A MP 232 é mais um desses brutais exemplos do empobrecimento cognitivo que nos assola, porque cria dificuldades em setor de vital importância à manutenção do nível de emprego e à própria economia nacional.

A medida provisória pretende recolher mais impostos à custa da acachapada capacidade contributiva dos prestadores de serviço, e, em contrapartida, devolver a burocracia demagógica que manda, por exemplo, majorar as vagas no ensino superior, apenando sua qualidade e esvaziando conteúdos programáticos amiúde, vertendo à sociedade, desta forma, um caldo aculturado de graduados aptos a perpetuar a mesmice.

A razão se perde na equação, porque aprioristicamente se pressupõe a necessidade de arrecadar, e, apenas a posteriori, é que vem a destinação, que, como testemunha a história recente, devolve ao combalido contribuinte compulsório não um Estado melhor e mais apto a cumprir sua missão constitucional primordial - que é para com seus cidadãos, mas, sim, a triste nivelação pelo pior, pelo barato, pelo simples e fácil, que transforma aquele que podia ontem no que menos pode hoje, empobrecendo, como um todo, o verdadeiro conceito de cidadão, que passa a ser tomado simplesmente por contribuinte.

Está-se vivenciando a ditadura da caneta, que assiste dos altiplanos o ocaso da reta razão, que tão bem se fazia representar pelo direito positivo. A maleabilidade de preceitos ditos inalienáveis já não escandaliza uma sociedade que, assolada por verdadeira crise da razão, estarrece-se diante da avalanche 232, mais uma filha caçula da hecatombe legislativa oportunista que vem atingindo nosso país, terra que, com ineditismo, desaprendeu a simplicidade do termo bem-estar social.
____________

*Advogado do escritório Newton Silveira, Wilson Silveira e Associados Advogados









____________

Atualizado em: 17/3/2005 11:42

AUTORES MIGALHAS

Busque pelo nome ou parte do nome do autor para encontrar publicações no Portal Migalhas.

Busca

AUTORES MIGALHAS

Marcelo Sacramone

Migalheiro desde 2020

Marcos de Abreu

Migalheiro desde 2020

André Santos

Migalheiro desde 2020

Felipe Navas Próspero

Migalheiro desde 2018

Synomar Oliveira de Souza

No Migalhas desde 2019

Gabriela B. Maluf

Migalheira desde 2018

Julio Engel

Migalheiro desde 2018

Beatriz Bispo

Migalheira desde 2020

Gamil Föppel El Hireche

No Migalhas desde 2011

Larissa Nunes Pietoso

Migalheira desde 2020

Ana Lúcia Pereira

Migalheira desde 2005

Nina Diniz

Migalheira desde 2020

Publicidade