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Às vezes os movimentos buscam mobilizar milhares de pessoas para grandes ações. Em alguns casos, basta uma mãe.

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

"Deus não poderia estar em todos os lugares e, por isso, criou as mães"

Provérbio Árabe

A rua Apinagés, uma das ladeiras mais íngrenes de Perdizes, era depósito de lixo no final da década de 70 quando cruzava com a avenida Alfonso Bovero em seu lado direito. Um terreno abandonado pelo estado foi adotado por uma organização de mães, que bateu na porta de uma delas, a jornalista Rose Nogueira.

"As mães do bairro vão limpar o terreno. Cada uma traz uma muda. Vamos chamar a reportagem", disse a mãe organizadora.

"Deixa que a reportagem eu chamo", falou a então editora do Jornal Nacional. E levou uma muda de abacateiro. Apesar de sua origem japonesa, a ativista do bairro levou uma muda de "Árvore da China". Ambas estão até hoje no mesmo lugar- e sim, o abacateiro dá frutos.

As mães não têm apenas o dom e o poder de dar vida como também mudar vidas. Lucinha Araujo salvou a vida de centenas de milhares de crianças ao fazer sua Fundação Viva Cazuza. Glória Perez, historiadora e dramaturga, conseguiu fazer do assassinato um crime hediondo após colher um milhão de assinaturas. Dona Sarah Kubitschek criou um hospital que hoje é uma rede de referência mundial ao pensar nas mães de crianças como a dela. Ou a Débora Silva, das Mães de Maio, que investigam e lutam para que os crimes de maio de 2006 em São Paulo sejam resolvidos e haja justiça. As Mães das Praças de Maio na Argentina. As Mães da Sé, que buscam pessoas desaparecidas em São Paulo. E como estas, há ONGs, leis, projetos sociais, enfim, todo tipo de ação que começou com uma mãe.

A de ontem, 23 agosto, não poderia ser diferente. O PL 1.901/15, votado com unânimidade na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados, foi gestado junto com uma menina, hoje uma criança cheia de saúde e vida, mas que chegou ao mundo prematuramente após o ministro Joaquim Barbosa impedir que sua mãe fizesse uma sustentação oral no Conselho Nacional de Justiça. Após seis horas de espera, ela saiu dali direto para o hospital.

Do hospital para a caixa de entrada de e-mail uma triste constatação: ela não era a única. Advogadas de todo o País aguardavam por horas para ter uma audiência. Partos prematuros. Demissões. Desistências da carreira. Tudo pelo atendimento vexatório a que gestantes inscritas na Ordem dos Advogados do Brasil eram privadas de direitos mínimos. Pior: impostas a riscos gravissímos, como passar pelos aparelhos de raio-X dos fóruns.

Mãe que é mãe faz tudo pela cria e, com esta, não seria diferente. Tentou alterar os regimentos internos dos tribunais, mas, como só seria possível com a alteração do Código de Processo Civil, modelou-se a proposta para um projeto de lei. E, ontem, ele nasceu.

Sua certidão de nascimento ainda não foi registrada pois ainda faltam passar pela Comissão de Constituição e Justiça do Senado e sanção presidencial. Mas que destas histórias tristes e infames nasceu um fruto de justiça e cidadania não dá para se negar afinal agora as gestantes advogadas terão suspensão de prazo por até 30 dias se forem as únicas advogadas constituídas em uma das partes, não precisarão passar por raio-X, terão atendimento preferencial em sustentações orais e audiências, além de vagas especiais nos fóruns. Uma bela muda que dará muitos frutos assim que se tornar lei.

Às vezes os movimentos buscam mobilizar milhares de pessoas para grandes ações. Em alguns casos, basta uma mãe.

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*Ivy Farias, 35 anos, é jornalista e estudante de Direito. Militante dos Direitos Humanos e dos Animais, feminista e uma das fundadoras do movimento Mais Mulheres no Direito. Não é mãe mas sempre leva um casaco. E não discute com a sua quando a frase começa com "Ivy Cristina".








*Foto: Gustavo Scatena/Imagem Paulista/Divulgação.

Atualizado em: 26/8/2016 14:43

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