sábado, 31 de outubro de 2020

MIGALHAS DE PESO

Publicidade

#SomosTodosDesembargador

Nesse exato momento está acontecendo, em algum canto do Brasil, um ato no mínimo semelhante ao proporcionado pelo desembargador. Acontece que não o vemos.

quarta-feira, 29 de julho de 2020

t

O único espanto legítimo causado pelo episódio do desembargador Eduardo Siqueira foi o espanto ilegítimo causado pelo episódio do desembargador Eduardo Siqueira.

O experiente colunista Josias de Souza chegou a escrever no UOL que a futura punição dada ou não ao desembargador pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), responsável pela investigação do caso, e que sequer possui instrumentos que possamos chamar minimamente de severos para punição de seu corpo de magistrados, mostraria o país que somos.

Caro Josias, ainda não sabe o país que somos? Somos isso, meu caro. E somos todos, e desde sempre. Nos nossos empregos, nas redações, nos escritórios, na rua, na praia ou em uma casinha de sapê. Desancamos o próximo, se o próximo for socialmente distante, que desancará o próximo, e assim por diante, girando a roda da fortuna de nosso país. 

Nesse exato momento está acontecendo, em algum canto do Brasil, um ato no mínimo semelhante ao proporcionado pelo desembargador. Acontece que não o vemos.

E não o vemos por duas razões: porque não queremos ver, nos incomoda saber que somos assim, e porque quanto maior a distância entre o cargo da autoridade e o alvo de seu esculacho, maior a virulência.

Deste modo, a maior parte de nós, classe média na qual me incluo, e na qual acredito esteja incluída parte razoável dos leitores, tem contato bastante suavizado com esse tipo de autoritarismo.

Não é difícil imaginarmos que será branda a repreensão destinada ao desembargador pela autoridade robusta de seus colegas. Para termos uma ideia, o ministro Marco Aurélio veio a público nos últimos dias e inaugurou a série de pitos, insinuando que o desembargador de cabelos brancos possuía o juízo de um rapaz.

Imaginemos agora o que não aconteceria com esse guarda municipal, caso o episódio não fosse filmado, e caso fossem a cabo as reivindicações de todas as ligações inflamadas que o magistrado fez, e ainda decerto faria, às autoridades conhecidas suas.

Imaginemos mais, e, para isso, mudemos de cenário: uma batida na favela, com policiais orientando os cidadãos - não os engenheiros civis, mas os cidadãos - a colocarem suas máscaras.

Suponhamos que um deles, acreditando, de fato, ser cidadão, ou mais que isso, rasgasse a multa e a jogasse no chão, não sem antes ameaçar o policial de que o faria. Será que o policial se reportaria aos seus superiores e à imprensa se dizendo humilhado? Será que o cidadão estaria circulando livremente?

Enquanto não acolhermos o nosso pior, enquanto ficarmos esperando que punições mágicas nos apresentem soluções assépticas para aberrações como as que vimos, seguiremos gastando mais e mais séculos com oferendas ao nosso lado sombrio.

Se há algo a fazer com o episódio em questão é não esperarmos nada de ninguém. Olharmos bem para o rosto do desembargador e nos percebermos nele, avaliando se é nosso desejo que sigamos sendo assim, e, sobretudo, se estamos, de fato, dispostos a abrir mão do famoso "você sabe quem eu sou?", quando estivermos em meio a alguma enrascada.

Qualquer saída que esperar algo do outro, das instituições, e não de nós mesmos, além de não solucionar a questão, ainda nos apresentará uma nova, que é também muito típica de nossa conduta cultural: a hipocrisia.

Acompanhe os comentários sobre a matéria no LinkedIn

_________

t*André Marsiglia Santos é advogado especializado em liberdades de expressão e de imprensa. Membro da Comissão de Liberdade de Imprensa da OAB/SP e da Comissão de Mídia e Entretenimento do IASP (Instituto dos Advogados de São Paulo). Idealizador da L+ Speech/Press e sócio da Lourival J Santos Advogados.

 

Atualizado em: 6/8/2020 08:48

AUTORES MIGALHAS

Busque pelo nome ou parte do nome do autor para encontrar publicações no Portal Migalhas.

Busca

AUTORES MIGALHAS VIP

Marília Lira de Farias

Migalheira desde 2020

Abel Simão Amaro

Migalheiro desde 2004

Vantuil Abdala

Migalheiro desde 2008

Carlos Barbosa

Migalheiro desde 2019

Júlio César Bueno

Migalheiro desde 2004

Sérgio Roxo da Fonseca

Migalheiro desde 2004

Luis Felipe Salomão

Migalheiro desde 2014

Guilherme Alberge Reis

Migalheiro desde 2020

Anna Carolina Venturini

Migalheira desde 2014

Publicidade