quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

MIGALHAS DE PESO

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Os princípios ESG versus o lucro na governança corporativa

A sustentabilidade como um caminho para o desenvolvimento econômico, não um obstáculo.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

(Imagem: Arte Migalhas)

(Imagem: Arte Migalhas)

Em um célebre artigo publicado no New York Times intitulado "A responsabilidade social das empresas é aumentar lucros", Milton Friedman argumentou que o dever social de uma empresa é o lucro1. Crítico da chamada responsabilidade social das empresas, o economista defendia que os administradores das companhias, cumprindo seu dever para com os acionistas, devem buscar o retorno financeiro, utilizando os recursos disponíveis exclusivamente para o propósito de maximizar os lucros da companhia.

O artigo de Friedman, publicado há cinquenta anos, influenciou decisivamente o debate. Desde então, o mundo e o mercado mudaram, organizações internacionais passaram a exercer maior pressão sobre as companhias para que se responsabilizem sobre as externalidades negativas de suas atividades. Nesse contexto, surgiram os princípios de Environmental, Social and Corporate Governance ("ESG"), que orientam a governança corporativa também para proteger o meio ambiente e os demais stakeholders de uma empresa.

Os princípios ESG tratam de diretrizes que visam identificar se um investimento é cuidadoso em relação ao aspecto ambiental, social e de governança corporativa. Assim, à primeira vista, é intuitivo concluir que haverá um aumento de custos para que uma empresa possa zelar pelos pilares ESG, ao mesmo tempo que suas políticas internas terão que se adaptar para não considerar apenas o lucro como objetivo final. Afinal, as empresas terão que diligenciar mais severamente suas atividades que envolvem o meio ambiente, instituir programas de compliance? ?mais elaborados e criar programas de diversidade, inclusão e engajamento de colaboradores.

Entretanto, além dos custos, há benefícios tangíveis e intangíveis às empresas que aderirem a essa tendência e também aos investidores que investem aplicando os princípios ESG. Sob a perspectiva financeira, estudo do Centro de Estudos em Sustentabilidade constatou que fundos com a classificação de Investimentos Sustentáveis e Responsáveis ("ISR") tiveram, no período de 2006 a 2012, maior rendimento e menor volatilidade que o índice IBOVESPA2??. Esse desempenho é explicado pela organização e robustez dos fundos classificados como ISR, ou seja, empresas que se adequam a tais práticas tendem a possuir processos mais estruturados, gestão com maior transparência e menores riscos reputacionais e financeiros. Talvez se a Petrobras tivesse melhores práticas de governança corporativa seu valor de mercado não teria tido uma queda de 43,6% na época da deflagração da Operação Lava Jato3.? O mesmo ocorre para a Vale, que perdeu mais de R$70 bilhões em valor de mercado no dia do rompimento da barragem de Brumadinho4??. As perdas para os acionistas poderiam ter sido evitadas se essas empresas tivessem incorporado os princípios ESG à sua governança.

Empresas que se engajam nesse tipo de prática tendem a atrair investidores em busca de diversificação, possuem ganho reputacional com o mercado e com o público e possuem oportunidade de participar de índices específicos da B3, como o Índice de Sustentabilidade Empresarial, por exemplo. A soma dos benefícios tangíveis e intangíveis caracterizam um sólido incentivo para que empresas se engajem em tais práticas e apliquem os princípios ESG.

Portanto, a experiência demonstra que os princípios ESG se traduzem em valor econômico para as companhias e seus acionistas. Ao observar as novas diretrizes, os administradores atendem os interesses dos acionistas em maximizar os lucros, especialmente num contexto onde tanto os investidores quanto os consumidores buscam investimentos e produtos ou serviços, que sejam mais sustentáveis e responsáveis socialmente. Por outro lado, não atender aos critérios buscando simplesmente o retorno financeiro geraria o efeito contrário, além de abdicar de todos os ganhos mencionados, os prejuízos podem ser devastadores.

Assim, parece que os ESG são mais uma ferramenta de governança que auxilia no alinhamento de interesses dos administradores e acionistas. Friedman não estava errado, mas certamente incompleto, pois a sustentabilidade pode ser mais um caminho para o desenvolvimento econômico.

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1 FRIEDMAN,  Milton. The Social Responsibility of Business is to Increase Profits. New York Times, 13 de setembro de 1970.
2 GVCES. O valor do ISE: Principais estudos e a perspectiva dos investidores. Índice de Sustentabilidade Empresarial. São Paulo, p. 14. 2012.
3 FOLHA DE SÃO PAULO. Queda no valor de mercado da Petrobras sofre 'efeito Lava Jato'. Disponível aqui.
 Acesso em: 22 out. 2020.? 
4 TERRA. Vale desaba 24,5% e perde mais de R$70 bi em valor de mercado após tragédia em MG. Disponível aqui. Acesso em: 22 out. 2020.

 

Atualizado em: 10/12/2020 10:49

André de Campos Chinez

Acadêmico da FGV Direito SP e graduado em Administração de Empresas pela FGV EAESP.

Rafaella Rodrigues da Cunha

Acadêmica da FGV Direito SP e graduada em Administração Pública pela FGV EAESP.

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