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Adorno e o casamento

Tenho ido às festas de casamento que se transformam em grandes bailes ornados por músicas em altos megatons. Não sou exigente. Gosto de tudo. Gosto também das clarinadas altas. Mas tenho me perguntado qual o sentido do modelo dessas novas cerimônias. Antigamente essas festas eram menos barulhentas.

quinta-feira, 13 de setembro de 2007


Adorno e o casamento

Sérgio Roxo da Fonseca*

Tenho ido às festas de casamento que se transformam em grandes bailes ornados por músicas em altos megatons. Não sou exigente. Gosto de tudo. Gosto também das clarinadas altas. Mas tenho me perguntado qual o sentido do modelo dessas novas cerimônias. Antigamente essas festas eram menos barulhentas.

Sobre a mesa dos convidados, são aplicados grandes arranjos de flores que me impedem ver as pessoas que estão sentadas a minha frente. Sobre isso, uma luz oscilante e escalafobética roda no teto transformando o salão num sonho de Salvador Dali.

O barulho me deixa calado para enorme aflição daqueles que suportam a minha silenciosa e inútil companhia. Faço esforço para falar, mas o som dela é mortiço a minha visão se desloca para zero.

Calado, fico lembrando as palavras de Adorno sobre o significado da indústria cultural que transforma em objeto o seu consumidor. Adorno foi filósofo da Escola de Frankfurt, afastando-se dali para fugir do nazismo. Lecionou na Inglaterra e depois nos Estados Unidos, antes de voltar para a Alemanha, onde morreu em 1969. Estudou música com Alban Berger e deixou interessantes reflexões sobre a arte.

A indústria cultural transformou o consumidor no seu objeto e não no seu consumidor, disse ele. Os compositores levaram para a música o barulho da fábrica. O homem trabalha enquanto supõe descansar, ainda diz ele. A atividade física dos novos bailarinos parece demonstrar a verdade contida na afirmação. Festejar um casamento importa em ouvir o som eletrizante das máquinas, pulando no seu ritmo até o limite da exaustão como se os presentes estivessem submetidos às pesadas cargas de um trabalho árduo. E quase sempre noturno. Os dançantes rebolam seus corpos em desenhos geométricos, esticando ou contraindo braços e dedos, como se buscassem alguma coisa inexistente que no ar não flutua.

O mestre alemão acrescentou que quem ouve a tal música não ouve. Ou seja, a capacidade intelectiva não acompanha a composição sonora. A música está ali como qualquer música pode estar ali. A música não faz diferença basta que atinja os pavilhões auriculares como torpedos megatônicos. A música não é a música, mas, sim, um barulho eletrônico. A música que se ouve não é para ser ouvida.

A frase tem sentido figurado pois quem está ali ouve e ouve muito bem a enorme barulheira produzida pela música industrializada. Ouve tanto que não consegue ouvir a voz do vizinho que, aos berros, tenta lhe dizer qualquer coisa. Não tem importância ouvir qualquer música e nem ouvir qualquer coisa. O convidado não ouve e, por conseguinte, não fala. O tambor parece bumbar no interior de seu peito ou no vazio da sua barriga.

Não ouve, não fala e também não vê, pois o enorme vaso de flores do meio da mesa o impede de enxergar a pessoa sentada na cadeira da frente. A única saída é ir trabalhar, ou melhor dizendo, aderir aos frenéticos movimentos desenvolvidos pelos dançarinos, passando a saracotear pelo salão. A música que ouve, ele não ouve. A palavra que fala não fala. O olhar que olha não vê. De consumidor passa a objeto da relação artística, submetido a uma experiência mística, próxima do nirvana, prelibando o ingresso no paraíso perdido. Não ouve, não fala e não vê.

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*Advogado, Procurador de Justiça aposentado do Ministério Público de São Paulo, professor das Faculdades de Direito da UNESP e do COC.








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Atualizado em: 27/8/2007 16:36

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