quinta-feira, 26 de novembro de 2020

MIGALHAS DE PESO

Publicidade

Saudades

Poetou Drummond de Andrade que "Não há vivos; há os que morreram e aqueles que esperam a vez...". Pois bem. Enquanto paciente (e irresignadamente!) aguardo a minha, assisto à partida dos amigos e contemporâneos.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008


Saudades

Manuel Alceu Affonso Ferreira*

Poetou Drummond de Andrade que "Não há vivos; há os que morreram e aqueles que esperam a vez...".

Pois bem. Enquanto paciente (e irresignadamente!) aguardo a minha, assisto à partida dos amigos e contemporâneos. Alguns, de partidas antes anunciadas pela velhice, pelas doenças ou pelos riscos negligentemente assumidos. Já outros, todavia, apartando-se de súbito, sem os pré-avisos que servem, ao menos, para suavizar o choque futuro.

Destes últimos, pensava eu durante o concorrido velório na Assembléia Legislativa, Hélio Quaglia Barbosa foi o derradeiro, carregando consigo o patrimônio moral, intelectual e jurídico, que suas imensas virtudes, e apenas elas, souberam construir.

O "Quaglia", como o chamávamos, a um só tempo era visceralmente ético, sem ser farisaico; inteligente, sem ser presunçoso; culto, sem ser pedante; tenro, sem ser demagogo; sensível, sem ser piegas; arguto, sem ser ladino. Tinha, dos bacharéis de sua geração, a magnânima emoção e o calor humano. Juiz na essência e na imanência, reverenciava a lei, mas jamais a manejou como édito inflexível, transformando-a em jus durum alheio ao drama concreto submetido a julgamento.

Tais talentos, o mais tarde ministro do Superior Tribunal de Justiça exerceu-os desde os idos em que, no Secretariado Paulista, colaborou com Hely Lopes Meirelles. E transportou-os à Magistratura, onde os autos que recebia não representavam mero e achavascado papelório de intermináveis laudas, mas sim fiel tradução das imensas angústias de litigantes aflitos.

Dizia Rolland que a verdadeira justiça não permanece sentada diante de sua balança, limitando-se a ver oscilarem os seus pratos. Ao contrário, Quaglia pertencia à categoria dos juízes ativos e conscienciosos, estes que esmiuçam as particularidades de cada litígio antes de fazer sobressair o peso de um daqueles pratos, cientes de que, antes de corresponder a um medíocre e glacial cumprimento da disposição legislada, a justiça há de conformar-se à vontade constitucional e homenagear o que for adequado.

Faz pouco, contou-me certo ilustre membro de tribunal superior que, ao receber qualquer processo, desde logo forma convicção lastreada na noção de justiça, para aí então - e somente então - averiguar se o seu projeto decisório combina com aquele adotado pelo legislador. Sem chegar a tanto, mas disso próximo, Quaglia teimosamente perseguia o justo, pelo que, preservado o objetivo maior buscado, a justiça, cuidava de emprestar à lei a interpretação ditada pela eqüidade.

Tudo isso relembrei, esperando a minha vez (...), durante aquela vigília póstuma na qual, a evidenciar a tocante simplicidade do ali velado, a bandeira do São Paulo Futebol Clube ocupava lugar destacado. Quiçá tenha sido, no apaixonado torcedor, a melhor oportunidade em que, vencendo a inata timidez de menino, conseguiu alardear a (justíssima...) preferência tricolor.

É, a imortalidade principia com a morte. O nosso querido Quaglia deixa riquíssimas lições e infindáveis saudades, ainda que, nessa transitória ausência física, graças a Deus eternamente presente...

_____________

* Advogado



 

__________

Atualizado em: 6/2/2008 13:37

AUTORES MIGALHAS

Busque pelo nome ou parte do nome do autor para encontrar publicações no Portal Migalhas.

Busca

AUTORES MIGALHAS VIP

Gilberto Giusti

Migalheiro desde 2003

Lenio Luiz Streck

Migalheiro desde 2005

Roberto Rosas

Migalheiro desde 2015

Pablo Domingues

Migalheiro desde 2017

Anna Carolina Venturini

Migalheira desde 2014

Stanley Martins Frasão

Migalheiro desde 2002

Scilio Faver

Migalheiro desde 2020

Lilia Frankenthal

Migalheira desde 2020

Publicidade