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Bode na Sala

O bom político hoje em dia, diz-se por aí, não é o que trabalha sob a inspiração das grandes idéias, querendo vitoriosas pelos embates democráticos as aspirações populares, mas sim o que friamente apenas persegue resultados.

quarta-feira, 4 de junho de 2008


Bode na sala

Edson Vidigal*

O bom político hoje em dia, diz-se por aí, não é o que trabalha sob a inspiração das grandes idéias, querendo vitoriosas pelos embates democráticos as aspirações populares, mas sim o que friamente apenas persegue resultados.

Consola saber que com o tempo, se não tomarem jeito, na medida em que forem mais conhecidos por seu clientelismo acendrado e, por isso mesmo nada surpreendentes, logo terão mais visibilidade, porem como o bode da sala.

O nosso herbívoro ruminante, de tão bom animador de pastos baldios e também de quintais, bem que não merecia ser comparado com gente tão hipócrita. Mas o que fazer quando a lenda incorpora a personagem?

Antes de se tornar metáfora política, o bode sobreviveu como espécie não porque fosse abençoado, mas ao contrário porque, grampeado, caiu na listagem do Velho Testamento e, assim, proibido de freqüentar o cardápio judeu.

Lendo com calma vamos notar uma certa contradição. Ora, se o carneiro, ou cordeiro, é um herbívoro, por que o bode, que também é parente do carneiro, talvez um primo não muito distante, foi tão discriminado?

As pessoas rezam, cordeiro de Deus que tirai os pecados do mundo e quanto ao bode o que se sabe é que ele até serve para os rituais de magia nas cercanias do Calhau, dos Lagos em Brasília, e do Codó. Espalha-se sempre a onda de que o bode não toma banho, fede muito, e que serve, talvez por isso, para ser comparado aos políticos indesejáveis.

De outra parte, o bode é usado para denominar a pessoa injustamente colocada numa situação na qual todos a atacam e, assim, desviando atenções de algum cenário moralmente devastador e sobre o qual, pela estratégia dos poderosos, ao povo em geral não interessa saber.

Daí o bode expiatorio.

No mais antigamente, se uma coisa não prestava a culpa era do bode. Aí agarravam o primeiro herbívoro ruminante, berrante e espalhafatoso que encontrassem, e o levavam para o deserto onde o abandonavam para expiar suas culpas.

As pessoas acreditavam que, assim, estavam livres de todos os seus pecados. Ou seja, elas pecavam e o bode é que pagava o pato, e no deserto.

Você sabia que dentre todos os herbívoros ruminantes o bode é o que tem o maior tubo digestivo? Eu também não sabia. E agora entendo porque ele é resistente à seca, é porque come tudo de tudo, sem perder o bom humor. O bicho, em tudo, é muito competente.

Em política, sempre que se pretende alcançar um objetivo polêmico, busca-se diluir a controvérsia inventando outra bem maior, ou seja, um bode. São propostas inimagináveis, que causam tanta indignação quase levando as pessoas ao desespero.

Há quem sustente que essa metáfora do bode na sala começou como parábola na China, e tem bode lá? Mas ha também quem a descreva como algo da sabedoria política nordestina.

Mais ou menos assim.

O camarada reclamou ao companheiro que sua vida em casa estava um inferno, sabe aquela coisa de mesa onde falta comida todos brigam e ninguém tem razão?

Aí o companheiro perguntou, você cria um bode e o camarada disse sim. Então, camarada, leva o teu bode para a sala. Ele levou e não deu outra, reação de todo mundo, o bode berrava alto e espirrava feio, exalava um mau cheiro insuportável, a situação só piorou.

O camarada aborrecidíssimo procura o companheiro, ó cara você é meu amigo ou amigo da onça? Por quê? Ora, você me aconselha a botar o bode na sala e a minha situação lá em casa só piorou. Dando uma de guru, responde o sábio companheiro, tira o bode da sala e depois me volta aqui.

Dias depois o camarada voltou, e aí?, quis saber o companheiro. Deu certo, respondeu. O bode causou tanto problema que até esquecemos os outros, e agora que não está mais na sala está tudo bem.

Quando se diz sobre uma situação que vai dar bode é porque o que vem por aí pode ser infernal.

Na feira, numa dessas de subúrbio, encontrei uma cartomante, dessas que garantem tudo, até a volta do desertor raivoso aos braços da amada, e eu então lhe perguntei, que tens a me dizer oh comadre?

Ela quis saber, é sobre essa política aí de vocês? Também, respondi. Ela embaralhou as cartas e as expôs sobre uma toalha vermelha, não, não era bandeira de partido algum, ela disse, ih tem tudo aí para dar bode, e já tem bode até demais na sala.

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*Ex-Presidente do STJ e Professor de Direito na UFMA

 

 

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Atualizado em: 3/6/2008 08:34

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