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O Grande Sertão da alma humana e os diabos-nossos-de-cada-dia

Comemora-se, no dia 27 deste mês, 100 anos do nascimento do escritor brasileiro João Guimarães Rosa, autor do romance Grande Sertão: Veredas e de outros belos livros de contos, dentre os quais, Sagarana, No Urubuquaquá, no Pinhém, Corpo de Baile, Primeiras Estórias.

quinta-feira, 26 de junho de 2008


O Grande Sertão da alma humana e os diabos-nossos-de-cada-dia

Roberta Resende*

A todos os professores que me falaram do Grande Sertão: Veredas

Comemora-se, no dia 27 deste mês, 100 anos do nascimento do escritor brasileiro João Guimarães Rosa, autor do romance Grande Sertão: Veredas e de outros belos livros de contos, dentre os quais, Sagarana, No Urubuquaquá, no Pinhém, Corpo de Baile, Primeiras Estórias.

Tem sido cada vez mais comum ouvir que Guimarães Rosa é "o maior escritor brasileiro do século XX" (o título do século anterior estaria nas mãos do não menos célebre Machado de Assis), e que Grande Sertão: Veredas seria o grande momento do romance brasileiro, em razão, principalmente, da grande inovação lingüística e narrativa que representou.

Muito já se escreveu sobre o livro - que uma de suas grandezas é exatamente proporcionar leituras sob olhares diversos - mas eu peço licença para arriscá-lo também. É que outro dia, instada a pensar sobre o papel da religião na vida humana, lembrei-me imediatamente que em Grande Sertão: Veredas, João Guimarães Rosa registra, dentre outras maravilhas, o momento em que um homem conheceu o diabo e como esse encontro mudou a sua vida. Tive vontade de retomá-lo, e a data que se aproxima foi um bom pretexto. Abusei das aspas, que o encanto do texto faz-se pelas palavras do autor.

Deu-se mais ou menos assim:

Tendo deixado a vida de jagunço pelo sertão dos Gerais de lado, já com certa idade, "nas escorvas", Riobaldo resolve contar sua vida para um interlocutor que lhe aparece, um visitante. O ouvinte é mero observador: não participou da trama, acaba de conhecer Riobaldo. Nada fala além dos assentimentos que Riobaldo lhe pede, e a partir do que ouve, vai "enchendo suas cadernetas".

O discurso de Riobaldo remete a uma vida de perigos e valentias, ataques e perseguições, andanças e mortes. São várias as ocasiões em que a estória é entremeada pelo aposto "viver é muito perigoso", com pequenas variações: "O senhor sabe: o perigo que é viver".

Perigoso é viver para matar, podendo ser morto a qualquer momento. Mas perigoso é, sobretudo, viver no sertão, que não tem "janelas nem portas", que "está em toda parte", que é "dentro da gente". Um sertão do qual não se escapa: "Sertão é isto: o senhor empurra para trás, mas de repente ele volta a rodear o senhor dos lados".

Riobaldo relata as batalhas e escaramuças de que participou; descreve as terras que percorreu, a fauna e a flora que encontrou (e aqui aprendemos a amar até os buritis), apresenta os companheiros de bando. Fala especialmente de um, a quem chama por um carinhoso apelido, Diadorim.

A grande ação da trama que conta consiste na difícil e arriscada travessia do Liso do Suçuarão por seu bando, no encalço dos hermógenes, os integrantes do bando rival. E aqui, o romance embebe-se na tradição, é épico em absoluto. Qual um Moisés do sertão, Riobaldo guia seu bando pelo deserto das Gerais. Sobre esse Liso, é ele que nos conta: "pra lá, pra lá, nos ermos. Se emenda com si mesmo. Água não tem. Crer que quando a gente entesta com aquilo o mundo se acaba."

Sua estória é comprida, plena de detalhes, recheada de estorietas. Traz um espinho no coração, e esse é o eixo de sua narrativa. O demo, o Outro, existe? Sua sina foi demarcada por ele? Foi "pactário"?

No seu desassossego, deixa seu ouvinte saber que vez houve que marcou, de fato, encontro com o diabo, com hora, dia, local e ritual: "nas Veredas Mortas, à meia-noite", "no ermo da encruzilhada". Queria força e poder, ser líder do bando, vingar a morte de Joca Ramiro. Mas ele veio ou não veio? Se veio, não mostrou sinal inequívoco naquela madrugada, não foi explícito.

Riobaldo consegue, com seu bando, atravessar o Liso do Suçuarão. Mas já tendo alcançado o outro lado, perde Diadorim. E na dor, reconhece, por fim, sem margem a dúvidas, "o diabo na rua, no meio do redemoinho". Nesse momento, toda sua vida de glórias guerreiras carece de sentido, fica virada de cabeça para baixo. Acabou o mar, a água, e fez-se, para sempre, sertão. Do meio da dor delira: "Satanão! Sujo... [...] É você o Sertão?"

Transfigurado pela perda, descobre, ainda, que Diadorim não era Reinaldo, e sim Maria Deodorina. O amor entre eles não era proibido. Sentencia, então: "Sertão é o sozinho".

Chega-se, pois, ao famoso trecho, a alegoria da vida humana como travessia que não se consegue planejar por inteiro: "Assaz o senhor sabe: a gente quer passar um rio a nado, e passa; mais vai dar na outra banda é num ponto muito mais embaixo, bem diverso, do que em primeiro se pensou. Viver nem não é muito perigoso?"

"Narrei ao senhor. No que narrei, o senhor talvez até ache mais do que eu, a minha verdade".

O "senhor" a quem Riobaldo se dirige somos nós, cada leitor que atravessa com ele o deserto que se tornou sua vida, e que ao final, pela religião ele busca recompor (nunca é demais lembrar que religião vem de religare = tentativa humana de se reconectar com o sagrado, com o divino).

E assim me parece, como no belo relato que João Guimarães Rosa criou para o sertanejo Riobaldo, por alcunha Tatarana, que acontece com todos nós, de nossa raça, essa chamada humana. (É a tal da "universalidade do tema", de que nos falam os teóricos da literatura). Atravessar o deserto, todos nós o fazemos. E onde nossa travessia vai dar, não o sabemos. Pactos, também os buscamos: filosofia, ritual, trabalho, companhia, erudição, arte, ofício. Uns em maior grau, outros de modo menos nítido.

Riobaldo descobre que se a morte é o demo, é irreversível. "Aoh, mas ninguém não vê o demônio morto...". E é inevitável: "Quem muito se evita, se convive". (A dúvida, a angústia, a perda, estão onde está a gente humana). Daí, talvez, a necessidade de inventar uma fórmula: "E a regra é assim: ou o senhor bendito governa o sertão, ou o sertão maldito nos governa".

Não é mesmo, de fato, uma beleza de relato?

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*Formada pela faculdade de Direito do Largo de São Francisco/USP (Turma de 1995) e pós-graduada em Língua Portuguesa, com ênfase em Literatura



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Atualizado em: 25/6/2008 12:14

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