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A política e o Zé do Caixão

Não é difícil saber quem é a vítima de um homicídio. Em primeiro lugar, claro, o morto. Indiretamente, os que lhe eram próximos.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008


A política e o Zé do Caixão

Dirceu Augusto da Câmara Valle*

Não é difícil saber quem é a vítima de um homicídio. Em primeiro lugar, claro, o morto. Indiretamente, os que lhe eram próximos.

Difícil é saber quem são as vítimas da corrupção. Ou melhor, difícil é individualizá-las. Por outro lado, é fácil concluir que toda falcatrua praticada por agentes políticos gera um número indeterminado de atingidos, agredindo violentamente todo o corpo social, em especial os mais humildes. Pessoas adoecem, gente sofre e crianças morrem. Muito pior que puxar um gatilho.

José Mojica Marins, cineasta brasileiro, tempos atrás escreveu o conto "O político", o qual, por conta do momento eleitoral, merece ser reproduzido:

"Ele era um político de sucesso. Sua energia e disposição fizeram com que, cargo a cargo, atingisse tal poder que decidia sobre destinos como se escolhesse a cor da camisa que usaria.

Na sua subida, corrompeu-se de tal forma que já não recusava qualquer trato. Desviava verbas, favorecia hipócritas e demagogos, cercava-se de abutres. O poder o cegava. Afinal, havia chegado o dia de realizar o negócio de sua vida. Havia tanto envolvido, que sua força seria inigualável. Poderia comprar tudo e todos, nada mais o deteria. Chegaria ao topo, nada mais poderia detê-lo.

Havia escondido de todos aquele negócio. Não poderia confiar tamanho segredo a ninguém. Foi, então, sozinho, ao encontro decisivo. Estranho encontro, aquele, à noite, num cemitério. Mas como ele mesmo dizia, as paredes tinham ouvidos. Seus parceiros tinham razão.

Não encontrou, porém, as pessoas que esperava. Logo, corpos, cadáveres, zumbis, o rodeavam. E um deles falou, até onde permitia a boca, já carcomida pelos vermes.

Aquela gente havia morrido de fome, pela comida que não viera, morrido de frio, pelo agasalho trocado por ouro. Havia morrido por doenças que simples remédios curariam. De todas aquelas mortes ele era acusado.

O político então notou, em cima de uma tumba, uma urna. Seria uma eleição, onde os mortos votariam o seu destino. A última eleição".

Tomara que nessas eleições saiam derrotados aqueles que - ainda que indiretamente - mataram homens, mulheres e crianças.

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*Advogado





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Atualizado em: 1/10/2008 13:58

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