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A crise e seus contornos

Nascemos e crescemos sob a égide de uma premissa: "quando os EUA pegam resfriado, o resto do mundo pega pneumonia." Só que ninguém nos contou o que acontece quando os EUA pegam pneumonia. Pois é, ... pegaram! E aí vem duas perguntas?

terça-feira, 14 de outubro de 2008


A crise e seus contornos

Mauricio Gomm Santos*

Nascemos e crescemos sob a égide de uma premissa: "quando os EUA pegam resfriado, o resto do mundo pega pneumonia." Só que ninguém nos contou o que acontece quando os EUA pegam pneumonia. Pois é,... pegaram! E aí vem duas perguntas?

1) Por que pegaram?

2) E o que fazer?

A primeira pergunta tem resposta nos jornais, na TV, nos economistas, nos políticos, filósofos, empresários, etc, cada um com sua versão. Na realidade é um aglomerado meio baratinado de "especialistas" despejando informações nas nossas cabeças, bolsos e humor que logo é desmentido no dia seguinte com uma notícia pior ainda.

Tenho comigo que o problema é fruto de duas causas principais; uma somando-se à outra: free market na sua mais radical extensão + greed (mercado livre radical + ganância)

É injusto culpar o Bush por este furacão, tanto quanto é ridículo creditar ao Lula o sucesso (até agora) da economia brasileira. A coisa é mais profunda e antiga!

Todos sabemos que, dentro do ícone do capitalismo americano, as forças de mercado devem se encarregar de expulsar a maçã podre da caixa. Com isso, respeitados alguns limites da transparência (lembram-se da Enron?) e proteção às minorias (sob o guarda-chuvas do FED, SEC, etc), o mercado, segundo o ideal do Laissez-Faire Laissez Passer, deve deixar o barco correr e ajeitar o seu rumo na medida em que navega e enfrenta as marolas, ondas e tempestades. Esse é o ideal americano. O lema é (ou era até agora) "Os mais fracos e incompetentes que darwinianamente sucumbam."

Só que agora, o "mais fraco" é a própria economia, o próprio mercado, e, com ele, todos nós!

O capitalismo, numa extensão máxima, é uma ditadura do mercado, ou, visto do outro lado, uma anarquia. Imaginem uma cidade movimentadíssima sem sinaleiro ou com poucos sinais de transito. Funcionaria maravilhosamente bem se todos respeitassem os cruzamentos. Porém é utópico. Nos EUA, as tais forças do mercado imaginavam que a economia sempre iria crescer e aí veio a ganância sem limites de todos: desde o cidadão comum (preparado e despreparado) até os Lehman Brothers da vida. Ninguém, de uma forma geral, cometendo crimes ou violações contratuais; todos fazendo negócios, mas todos com apetite desmedido e "desfiscalizado." Todos formados, conformados e deformados pela idéia do lucro fácil e do rochedo debaixo do qual se alicerçavam os fundamentos econômicos americanos. Todos (usando a expressão da moda) se alavancando; apostando com a certeza (onde já se viu apostar com certeza) de que estariam blindados e que muito dinheiro ganhariam. De fato, ganharam. Mas, quiseram (todos os players) ganhar mais.

Para se ter uma idéia, o corretor da casa que aluguei aqui em Miami tinha uma Ferrari na garagem e outras casas "próprias"; obviamente que tudo financiado. A equação era a seguinte: Comprava uma casa, financiava-a e vendia um tempo depois (transferia a hipoteca) e fazia um respeitado lucro na valorização da casa. Agora, multipliquemos este quadro exponencial, vertical e horizontalmente para todo o país e para o mundo já que a relação interbancária dos bancos e lenders é sem fronteiras. Todo mundo super endividado, inclusive o setor bancário. Algo como a estória da corrente; uma hora explode. E infelizmente para o mundo (ninguém passará incólume, nem os exportadores brasileiros, pois a economia mundial e o poder de compra de todos diminuirá) explodiu nos EUA: o maior importador, exportador, financiador e outros "dors". Ironicamente, o mundo parece que passou a estar cheio de "dor".

O mundo, a partir de agora, não mais será o mesmo. Já ouvimos isso antes: queda do muro de Berlim (evento positivo), do 11 de Setembro e agora do Setembro/08; as duas últimas catástrofes são fruto do ser humano: típicos man-made hurricanes.

Como ocorreu após a grande depressão de 29/30, estima-se que surgirá um poder regulador maior do Grande Irmão. Viveremos infelizmente uma época de um necessário Big Brother Empresarial Global. A figura de Franklin Roosevelt é cultuada nos EUA porque é tido como o presidente americano que salvou o país da depressão. Mas, o que fez o Roosevelt foi criar as agências federais para disciplinar o tal mercado fracassado, derrotado, cruel e injusto do final dos anos 20. Antes, e dentro do federalismo americano, os Estados tinham (e em certa medida ainda têm) autonomia para tudo. O Banco Central (FED), o Tesouro americano, as autoridades monetárias estarão mais atentos para evitar que o Laissez-Faire, Laissez-Passer econômico seja mais forte do que o governo. O governo passará a intervir mais, exigir mais, o que - parece ser - paradoxalmente o que todos desejamos neste day-after.

Porém, a coisa pode desandar para uma outra vertente. Lembremo-nos que após a Grande Depressão (decorrer dos anos 30) surgiram regimes totalitários (o outro lado da moeda). Hitler, na Alemanha nazista, Mussolini na Itália Fascista e, em certa medida Getulio Vargas, no Brasil. Todos culpando o free market pelo ocaso econômico e social em que viviam suas sociedades (na Alemanha ainda com a sombra da humilhação da derrota na 1ª. G. Guerra). O resultado todos sabemos: legislações chancelando poder do Estado para tudo (algumas ainda teimosamente persistem) e, no campo político-militar, a 2 GGuerra.

Preocupa-me que se fortaleçam e se proliferem lideres do naipe de Hugo Chavez (embora, parece que deverá perder muito de sua força com a queda do preço do petróleo), Evo Morales, Rafael Correia, (para ficarmos apenas com a América Latina) e surjam Sasás Mutemas (os populistas salvadores da pátria de plantão) com um discurso até certo ponto coerente e convincente para as massas, já que ficará fácil culpar os gananciosos, os estrangeiros, o mercado, os bancos; enfim "o vizinho." E hoje, não nos esqueçamos que o mundo está mais nervoso e sofisticadamente mais armado.

O momento, de fato, é complicado. Não sou pessimista (porque grandes soluções saíram de grandes crises), mas realista. Concordo que ninguém sabe o que acontecerá daqui uma semana, um mês, etc. Um novo presidente americano pode (e espera-se) trazer mais calma (menos nervosismo) neste mundo absolutamente neurótico destes últimos dias. Mas, não será fácil. Estamos tendo o desprazer de impotentemente assistir a uma realidade que até então tínhamos estudado apenas nos livros escolares. Uma crise econômica sem precedentes somada a uma crise de credibilidade (psicológica) tão ou maior ainda. Em 08.10.08, foi divulgada uma pesquisa que 70% dos americanos passaram a não confiar em ninguém. Uau? Convertamos este sentimento para o dia-a-dia, para os negócios, para as relações interpessoais.

Como acontece quando estamos sendo facilmente derrotados numa partida de tênis, precisamos contar com um fato novo (um winner diferente) para tentar reverter o jogo.

Espera-se que este fato novo venha logo; tentou-se o PROER dos 700 bilhões, mas não foi suficiente, o que nos deixa ainda mais atônitos. Ora, como que um galáctico "cheque de quase um trilhão de dólares" pode não ser suficiente para acalmar o tal mercado? Espera-se que as autoridades monetárias dos EUA e do G-8 tirem o coelho da cartola e o novo presidente dos EUA forneçam a tranqüilidade que todos (absolutamente todos os cidadãos mundiais) precisam.

Quanto à segunda pergunta, (o que fazer?), a resposta vem da minha saudosa Vó Luisa Gomm: ficar sempre atento, mas... sei deixar de tomar o chá das cinco!

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*Advogado no Brasil e EUA. Professor de Arbitragem na América Latina da Universidade de Miami





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Atualizado em: 13/10/2008 14:13

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