dr. Pintassilgo

Santana

Caros migalheiros, no meu retorno à capital (gosto de aqui retornar, pois sempre que posso gosto de bisbilhotar os jogos políticos na cidade onde, hoje, alcaide e governador estão a se bicar) estou voando em círculos na Zona Norte, mais precisamente no bairro de Santana.

A princípio isolado por questões meramente geográficas, a Serra da Cantareira e o Tietê, foi interligado à cidade por meio de obras.

Obras que a alçaram a condição de grande centro comercial. Nas proximidades da ponte das Bandeiras, elo com o resto da cidade, os tradicionais “Clube de Regatas do Tietê”, “Clube Espéria” e “Atlética: foram erguidos.

Vem-me a mente então uma imagem em preto e branco, das mulheres trajadas graciosamente para passeio enquanto os cavalheiros estão elegantemente prontos para o flerte ; todos em volta do sinuoso rio, vibrando com a competição do remo, onde os atletas não profissionais esmeram-se fantasticamente na saudável e lendária disputa.

E na fugidia imagem, célebres eram as travessias a nado. Fechando meus olhinhos, bem posso ver Herbert Levy e João Havelange com seus indefectíveis bermudões listrados.

Uma nostálgica cena que só me faz pensar o quanto perdemos de inocência. Fico a pensar na séria vocação do homem para destruir, muito desproporcional à de preservar. De fato, hoje essas são amareladas fotos, distantes do presente. Aqueles momentos não existem mais, assim como não existe em SP o rio Tietê.

Erramos, muito e de maneira grotesca.

Foi aqui neste bairro que se impunha de forma aterradora o Complexo do Carandiru, construção que nenhuma saudade me deixou. Este local era a constatação máxima de nossa falência social. O prefixo “sub” era sua marca e na verdade lei: uma subvida, num submundo, cheio de subcondições, todos oriundos do subterrâneo da alma dos homens, seja dos de dentro e como dos de fora do presídio. Ainda à distância, como muitos migalheiros que contam tantas primaveras como eu, pude presenciar horrores como o de 1992. Nenhum filme, por mais elaborado que seja, pode representar aquele dia perante minhas retinas.

Notem que, em poucos anos saímos da inocência romântica, para um abrutalhar das paixões nada nobres, que a vida pode oferecer: dinheiro, poder, corrupção do corpo e da alma.

Filosofias aviárias à parte, na longa e aprazível conversa com os juízes, pude perceber que todos querem a mudança.

O bairro de Santana sofreu muitas mudanças. Agora, magistrados e causídicos querem e esperam por mudanças no Judiciário. Nada de pirotecnia eleitoreira (este ano será de vital importância e urge a vigilância total) para afagar ânsias. O que noto é uma serenidade para resolver o problema de forma eficaz.

Os ventos mudam as coisas ao seu sabor. Num jogo dual de vida, morte, inocência e perversão, os calendários vão sendo mudados. As folhinhas perdem sua importância muito rapidamente.

O que me anima, migalheiros, é a vontade férrea de lutar que não se curva nem próxima ao calor da fundição.

As pontes vão se construindo. Ainda que as tempestades que caem no final da tarde a surrem.

Pontes como as das Bandeiras que podem nos levar ao mundo que desejamos ir.

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