dr. Pintassilgo

Pacaembu

Migalheiros, amigos ! Antes de chegar a meu destino, peço sua atenção para mais um "cadim" de prosa.

Gosto de conversar, de papo. Nada, na minha modesta visão de pássaro, substituirá a boca. Nem bytes, nem satélites.

Peço essa pausa, para falar sobre a língua indígena. Confesso que aprecio muito a sonoridade, ouso dizer musicalidade, dos dialetos indígenas. E digo isso porque meu norte hoje é a cidade de Pacaembu, no oeste paulista.

Nome sonoro, antes dado a um bairro paulistano. De lá veio a inspiração para denominar esta paragem, aberta nos inícios do século passado.

Na capital, o bairro é montanhoso, arborizado e charmoso. Lá, bem sei, leitores de Migalhas têm seus escritórios, outros suas moradas.

Dia desses, depois de visitar um Fórum da capital, me vi em meio às árvores do bairro do Pacaembu. Um local bucólico, com um banco e um belo jardim era um convite para o descanso às asas. Sem que nosso amado Diretor saiba (ele não permitiria gozar o ócio em pleno expediente), ali pousei.

Sentado numa deleitosa árvore, pude ver pela porta, cujo vidro escorria até o chão, dr. Arnaldo Malheiros Filho, elegantemente - como sempre - compulsando suas obras na busca da melhor defesa para seus clientes. Fiquei a observar por alguns minutos, entretido com a inusitada cena. Afinal de contas, que ventura a minha pousar justo no jardim da banca do ilustre criminalista...

Posso até imaginá-lo agora, olhando para a árvore, procurando-me (ou seria caçando-me ?). Não, doutor, neste momento não estou aí. Mas no próximo sobrevôo pela capital, quem sabe...

Porém, falar no bairro paulistano do Pacaembu é falar de seu maior monumento, dedicado ao "nobre esporte bretão" (que moldamos à nossa feição mulata e elevamos a uma condição além do esporte, pois somente no Brasil se diz "futebol-arte").

Paradoxalmente, chegando a cidade de Pacaembu, eis minha surpresa : o esporte mais praticado aqui não é o futebol ! A bola é menor e os jogadores, apesar de atuarem em "escretes" (ecos das Copas de 1950 a 1962) e correrem como os do futebol, praticam é o beisebol !

A agigantada colônia nipônica que aqui aportou é a responsável pela proliferação dos tacos e das bases.

Debalde, tentei acompanhar a movimentação de alguns jogos...

...mas logo pensei no nobre e olímpico Diretor que, mesmo apreciador de esportes, com certeza bateria seu taco de golfe na mesa se soubesse que ando de boné, visitando os campos de beisebol na Alta Paulista.

Apressado, passei na frente de uma mercearia, onde havia uma tradicional folhinha. Olhei e vi em números vermelhos : 31 de Março. Minha diminuta memória histórica - proporcional ao também pequeno encéfalo - me repuxou, como um peso de chumbo, 42 anos atrás : 1964.

Não poderia haver maior coincidência (o reforço está no fato de que os amigos bem sabem que não creio em "coincidências"). Quando aconteceu a "Revolução", que veio nos "libertar" e proteger da "Onda Vermelha", do perigo criado pelos soviéticos, houve um fato histórico e pungente aqui nesta cidade. Fato este que nunca foi divulgado, mas que hoje - mesmo em migalhas - vem à luz aos milhares de ledores de Migalhas.

Cioso dos princípios que jurou defender quando se tornou bacharel na Disciplina da Convivência Humana, o juiz titular de Pacaembu, o jaboticabalense Dr. José Francisco Ferreira, no gesto solene de verdadeiro patriota e numa forma de protesto contra o que considerava - e como tinha razão! - um absurdo naquele ano de 1964, baixou a bandeira do Fórum a meio pau !

A mão de ferro agiu de imediato, orientada que foi por cabeças (entre elas, a do chefe de polícia local) que pensavam tais quais os "revolucionários", ou na minha modesta opinião, os golpistas (pois a tomada do poder, que era para ser "transitória", ficou por vinte anos, custando vidas, liberdades e outras coisas que nem seria bom aqui ressaltar).

O Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, em atitude que merece ainda ser, quem sabe, revisitada, achou melhor enquadrar o Dr. José Francisco Ferreira, colocando-o em disponibilidade, impedindo-o de exercer a magistratura, por agir com tamanho 'desrespeito" ; na certa foi considerado inimigo da pátria e convidado àquela tradicional e ridícula visita ao DOI-CODI. O presidente da Corte paulista na época, dr. Euclides Custódio da Silveira, era um homem íntegro, mas que, talvez, não tivesse alternativa no caso do juiz insurreto. Hoje, sem que isso recaia sobre sua memória, bem poderia o Tribunal prestar, aos dois, a justa homenagem.

Mas como a justiça tarda (nossa luta é para que essa parte do ditado seja reescrita) mas não falha, depois de alguns anos, o Dr. José Francisco Ferreira, recebeu do Estado uma indenização por conta do tempo que foi impedido de exercer o ofício do qual era, indubitavelmente, um expoente. Recusou-se a voltar à toga. Preferiu continuar advogando, vez que já era um renomado defensor, cuja fama já tinha rompido os limites da pequena Pacaembu, chegando até ultrapassar a cidade de Marília. Era, verdadeiramente, um causídico. Um causídico que advogou, como pretor, a causa maior, a causa da legalidade.  

Agora tenho em mente de forma clara : um ato vale pode valer mais que horas e horas de discurso.

O que fazemos, mesmo no dia-a-dia a história registra e leva adiante, para todos os ouvidos e todos os olhares. Enfim, fica marcado e para sempre. Parece óbvio, mas fica mais lindo quando tem significado.

Assim, despeço-me das águas de março relembrando a 'redentora" no que - se é que posso dizer dessa forma - ela teve de mais "belo", e que hoje tanto nos falta : a indignação escancarada e destemida dos brasileiros, que enfrentaram, às vezes até com suas vidas em risco, o aviltante tolhimento das liberdades.

Aqui na cidade de Pacaembu, chantada num acidente geográfico parecido com o do estádio de futebol na capital do Estado, Dr. José Francisco Ferreira foi o símbolo desta indignação, não só para os moradores, como para todos os integrantes do Judiciário paulista.

Se há algo a ser lembrado, é isso. Só isso.

Que venha abril, com suas noites encantadoras...