quarta-feira, 21 de outubro de 2020

ISSN 1983-392X

Caldo-de-cana

de 17/4/2005 a 23/4/2005

"Estava preparando um comentário a respeito do surto atual dessa doença em Santa Catarina. Achava que pouco interesse poderia despertar em nossa região.  Depois de algumas manifestações, vi que eu não estava só no meu pensamento. Sugiro a leitura e meditação sobre o assunto e, se puder uma manifestação a respeito. Acho muito importante para todos os brasileiros. Realmente o atual surto é muito estranho mesmo. Será que terei de reaprender a etiopatogenia do mal? Quanto falamos no assunto não devemos nos esquecer de quem foi Carlos Chagas. Um médico pesquisador extraordinário que, com outros não menos ilustres, como Osvaldo Cruz e Emílio Ribas tanto fizeram pelo progresso da  medicina no início do século passado. Foi no ano de 1909 que ele concluiu seus estudos publicando sua descoberta, que ficou registrada como Doença ou mal de Chagas. E com os parcos recursos de então. Nada mais que um microscópio comum, reativos, corantes e muita vontade e capacidade. Por quê o inseto vetor é chamado de barbeiro? O nome científico dele é Triatoma infestans ( tem 3 variedades). O ciclo da doença é este: O inseto pica um doente chagásico, sugando o sangue que contem um micro organismo chamado Tripanosoma cruzi ( em homenagem a Oswaldo cruz, o sobrenome foi traduzido para  o Latim cruzi). Entra o agente da doença no organismo do inseto pela boca, sofre as transformações comuns ( parecidas com outros tipos de doenças infecciosas) e é eliminado nas fezes. O inseto habita sempre locais conhecidos como casa de pau a pique (bambus trançados e ligados com barro) onde se desenvolve. Quase sempre ataca as vítimas à noite. Normalmente o indivíduo está dormindo apenas com o rosto exposto e neste local se dá o ataque. Daí o nome “barbeiro”. A pessoa sente a picada e instintivamente coça o local ficando com as fezes do inseto sob as unhas. Ao acordar de manhã, como muita gente faz, leva as mãos aos olhos para melhor despertar. Neste momento o agente presente sob a unha, é colocado em contato com a mucosa ocular ou a pálpebra, cuja pele é muito fina. Por aí ele penetra . Dentro de algumas horas surge o sinal de irritação com edema local, chamado “sinal de Romaña”, que desaparece em poucos dias. Entra então na circulação e se aloja de preferência nos fibras musculares do coração,  do esôfago ou do intestino grosso.  E a evolução é bastante conhecida. Desde 1909 que este ciclo está definido sem alterações. .  Há apenas um caso descrito de infecção via oral acontecida com um professor assistente de parasitologia na FMUSP. Ao pipetar uma amostra de sangue altamente contaminado pelo Tripanosoma, acabou engolindo uma grande quantidade e realmente se infectou. Mas felizmente não ocorreram as terríveis conseqüências.  Vejamos o seguinte : Pé de cana não é e nem nunca foi habitat natural do inseto. A cana usada para ser moída sempre é raspada em toda a extensão, não deixando fissuras onde poderiam ser colocadas fezes do bicho.  Qualquer consumidor pode conferir isso. A cana é colocada no moinho totalmente branca e sem casca. Onde está a contaminação? Não há portanto nenhuma explicação até agora para se colocar a ingestão da garapa como causa da transmissão da doença que se faz sempre por via circulatória e nunca por via digestiva, a não ser a exceção citada. Algo de estranho está acontecendo. Nossas autoridades sanitárias nos devem – com a máxima urgência – uma melhor explicação para o caso. Ou existe algum “interesse diferente’? No Brasil de hoje é caso de se pensar muito..."

Plínio Zabeu - Americana/SP - 20/4/2005

Comente

Cadastre-se para receber o informativo gratuitamente

WhatsApp Telegram