domingo, 25 de outubro de 2020

ISSN 1983-392X

Exame de ordem

de 15/5/2005 a 21/5/2005

"Prezados amigos do Migalhas. Sua notícia de ontem (Migalhas 1.168 – 16/5/05):

Exame de ordem - Apenas 12,21% dos candidatos foram aprovados na primeira fase do último exame da OAB/SP, divulgado ontem.

Não surpreende. As faculdades de Direito, especialmente as particulares, estão numa feroz concorrência mercadológica, que se traduz em prejuízos aos alunos. Esclareço: como existem mais vagas disponíveis do que interessados, nas mais de 200 faculdades do Estado de S. Paulo, e a inadimplência, em algumas delas, chega a 35 % das classes, estão em plena "guerra de preços", com algumas faculdades anunciando em outdoors o valor das mensalidades; outras colocam renomados esportistas nos outdoors, também (eles, que ou nunca fizeram faculdade ou mesmo, nem precisem de um curso superior). Relembro: As melhores universidades do mundo enfatizam os Prêmios Nobel, ou Pulitzer, ou ainda, Goncourt, dos professores que lá ministram cursos. Mais: as faculdades de Direito de S. Paulo mandam embora os doutores, pois, para poder "fechar as contas", pois é mais barato pagar mestres ou especialistas (o MEC diz apenas que "1/3 do corpo docente deve ser constituído por mestres e doutores" - mas não estipula a proporção entre eles). Nas salas de aula, reina enorme balbúrdia, com alunos entrando e saindo a qualquer momento, desrespeitando professores e impedindo que a maioria do alunato - que paga e precisa do diploma - aprenda. As faculdades, com medo de perder alunos, não prestigiam os Professores, que são humilhados nas salas de aula. Em relação aos cursos jurídicos, tudo funciona como um Código de Defesa do Consumidor às avessas: "pago mas quero a pior qualidade possível de ensino", sem reprovações, sem trabalhos, sem estudo. Querem professor bonzinho, que dá tapinhas nas costas e não exige nada dos alunos. Forma-se o pacto da mediocridade: o aluno finge que estuda, o professor finge que ensina e a faculdade finge que dá um diploma. A OAB não tem poderes para fiscalizar as faculdades e nem vetar a abertura de novas. Seu parecer é meramente "consultivo". Deveria abster-se de opinar e participar desse bordel junto ao MEC, o qual tornou o ensino jurídico no País uma vergonha. E continuar a aplicar exames rigorosos e a divulgar amplamente os resultados obtidos pelas faculdades - quem sabe estas deixem de enganar os alunos e melhorem o ensino?"

José Cretella Neto - escritório Cretella Advogados - 17/5/2005

"O colega Cretella tem razão. É um horror mesmo! Continuando... Dicas (parte II) para quem passou e se encontra na segunda fase: 1) dias antes da prova comprar caderninho de caligrafia e começar pelo a, e, i, o, u e por aí vai (porque examinador adora 'garrancho', tanto que nem lê aquilo!); 2) arrumem um carrinho de supermercado (dos grandes!); 3) dentro deverá conter: livros de gramática; dicionário português, alemão, chinês, angolano e outros; jurisprudência brasileira e estrangeira; muito direito comparado e o mais importante... 5) fiquem sempre do lado do mais forte (da maioria, dos graúdos na peça prática) mesmo que seja injusto, usem e abusem da 'Lei de Gérson'! Confiem em mim, valerá a pena! Enfim, boa sorte e beijinhos."

Tathiana Lessa - 18/5/2005

"Muito se reclama do obstáculo que o exame de ordem representa para os recém formados, para que possam exercer a profissão para a qual, durante cinco anos freqüentaram faculdades. Realmente, é incrível que 88% dos aprovados nas Faculdades de Direito no país não estejam preparados para exercer a advocacia. É o cúmulo que se mantenham, em nosso país, faculdades de direito que não tem condições de preparar, de fato, seus alunos. Faz muito bem a OAB em impedir que sejam lançados no mercado de trabalho, a cada ano, milhares de despreparados, que dificultarão, ainda mais, a administração da justiça. Mas, por outro lado, o que preocupa é o fato de não haver exame de ordem para outras profissões, como engenharia e medicina, por exemplo. Não se pode acreditar que essa proliferação de cursos vagabundos se limite ao direito. Assim, dá até arrepios pensar que um percentual do mesmo nível de engenheiros e médicos sem condições estão sendo colocados no mercado de trabalho, à disposição da população. O rigor da OAB, de todo louvável, visa permitir o exercício da profissão somente aos que tenham conhecimentos e condições para tanto. E isso veio já a destempo, de vez que existem, no Brasil, um número absurdo de advogados sem qualquer condição de exercer a profissão, colocando em risco os interesses de seus clientes desavisados. O dano, de outro lado, que um engenheiro despreparado pode causar é infinitamente maior, com viadutos e tetos de shoppings despencando, prédios (como os do Naia) caindo etc. São vidas que se perdem em razão do despreparo.  o que pensar, então, dos médicos despreparados? É sempre a vida do paciente que está em risco. A Folha de S. Paulo de 19/5 publicou a notícia abaixo:

19/5/05 – 7h04

Mulher morre após ser liberada de consulta no PS de Santana

Uma mulher morreu no início da noite de quarta-feira (18) na porta do pronto-socorro municipal de Santana, na zona norte de São Paulo, após passar por uma consulta médica.

De acordo com a polícia, a empregada doméstica Fátima Gonçalves, 49, foi levada ao pronto-socorro pelo marido, Anderson Mendes Pereira, 65, com forte dores abdominais. Ela passou por uma consulta e foi liberada em seguida.

Segundo o marido, havia oito dias que Fátima ia ao PS, diariamente. Ela recebia soro e era liberada.

Segundo o marido, havia oito dias que Fátima ia ao PS, diariamente. Ela recebia soro e era liberada.

O caso foi registrado no 13º Distrito Policial (Casa Verde). A polícia vai abrir um inquérito para apurar a responsabilidade da morte."


Note-se que a mulher acima referida compareceu, durante 8 dias, ao pronto-socorro municipal de Santana, sendo atendida por oito vezes, recebido soro e liberada. Todos os dias foi atendida por um médico, diplomado com certeza, que não identificou e nem desconfiou do mal da paciente. 
Deu-lhe soro (sic) e a liberou para a morte. Sem dúvida nenhuma, todas as profissões deveriam, obrigatoriamente, sofrer a mesma atenção que a do advogado vem tendo de sua ordem. Certamente isso obrigaria as faculdades a realmente ensinar, que é, exatamente, sua função. Ao contrário de, como dizia um antigo ministro da educação, referindo-se à educação no Brasil, que tudo não passava de um "faz de conta". A faculdade faz de conta que paga os professores convenientemente; os professores fazem de conta que ensinam e os alunos fazem de conta que aprendem."

Wilson Silveira - escritório Newton Silveira, Wilson Silveira e Associados - Advogados e CRUZEIRO/NEWMARC Patentes e Marcas Ltda - 20/5/2005

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