segunda-feira, 26 de outubro de 2020

ISSN 1983-392X

Duplipensando

de 5/6/2005 a 11/6/2005

"Relendo George Orwell (1984), ocorreram-me algumas semelhanças com o que vivemos hoje, principalmente em relação à novilíngua. No livro de Orwell, a novilíngua, idioma oficial do poder, tinha como objetivo reduzir o vocabulário ao extremo, afim de diminuir a capacidade de pensamento, tornando os cidadãos mais vulneráveis às vontades do poder, o que pode explicar as falas do nosso presidente, que seriam calculadamente proferidas com tal objetivo. Senão, porque ele falaria dessa maneira estranha, utilizando expressões "danda de barato", ou reduções como "teje" e "muié"? Dentre as palavras em novilíngua, uma das principais era duplipensar. Duplipensar seria a capacidade de, perante duas crenças contraditórias, aceitar ambas. Uma palavra em novilíngua, que explica o duplipensar seria negrobranco, já que o que é negro pode ser branco, dependendo das circunstâncias. No livro, as diretrizes do partido eram "guerra é paz", "liberdade é escravidão" e "ignorância é força". Era obrigatório acreditar nessas diretrizes e, para isso, era necessário duplipensar, ou seja, cada um dos temas poderia ser utilizado em sentido oposto, dependendo de seu uso. Com certeza, duplipensar é essencial, nos dias de hoje, para entender a realidade como é tratada pelo nosso governo e pela mídia em geral. Senão, como entender o discurso do presidente no Forum anti-corrupção? Ou o governo aprovar a CPI dos correios desde que não se investigue outras estatais? (haverá corrupção nelas, ou não devemos acreditar nisso?)? Ou o próprio Roberto Jefferson assinar o requerimento para instalação de uma CPI para desvendar o que ele diz que sabe, mas ainda não falou? Ou a coletiva do Delúbio, com esclarecimentos perfeitamente claros (!!!) sobre os motivos pelos quais o tesoureiro de um partido político vive indo a Brasília para manter encontros com dirigentes de outros partidos? (será qualquer coisa como “vou mandar nosso financeiro falar com você?). Certamente, o duplipensar facilita aceitar as acusações contra certos políticos em fitas e vídeos nos quais aparecem corrompendo e sendo corrompidos e, contrariamente, as ferozes negativas do próprio fato, ou a contradição do Dep. Roberto Jefferson, de um lado acusado de fatos gravíssimos e, de outro, cantando canções italianas aos berros. Não há dúvida que não existem as contradições aqui levantadas, o que só ocorre a quem não está duplipensando com competência. Quanto às classes sociais descritas no livro de Orwell, realmente ele via o futuro. Os da casta mais alta, os do "partido interno", tinham os melhores postos e suas casas não sofriam apagões e nem privações de consumo, como acontecia com os considerados do "partido externo", a segunda classe, De resto, 85% da população, as "proles" eram os mais atingidos pelos resultados da novilíngua, cujo objetivo era o de impossibilitar pensamentos conflitantes com os interesses do partido. As "proles", ou seja, a maioria da população, não precisavam de muita explicação, já que não ofereciam perigo real ao partido. Aquela parte da população só desejava ser feliz e morar tranqüilamente na miséria em que haviam nascido. Já naquela época, previa Orwell que, no "futuro", a população poderia ser mantida entorpecida e influenciada por meio de freqüentes eventos com fachadas políticas e patrióticas. (Aí, de novo, os pronunciamentos ufanistas do poder!). Deu para entender? O "Principal guardião das instituições", como se auto qualificou nosso presidente, é o Grande Irmão! Ou será o Zé Dirceu? É difícil entender essas coisas. Será tudo uma grande conspiração, através da qual se pretenda controlar a realidade, como meio de controlar o nosso futuro, através do controle do passado e do presente? Até mesmo um dos slogans do governo Lula, "o brasileiro nunca desiste", certamente veio de uma outra obra de George Orwell, "A revolução dos bichos", já que, como sabemos, não obstante as terríveis condições em que viviam na granja e, ainda, com a desconfiança de que o lider, o porco Napoleão vinha bebendo demais, o grito da bicharada era: "não desistimos nunca". Sintomaticamente, a edição original do livro trazia como subtítulo "A vitória dos porcos". E quem o leu se lembra que o porco Napoleão galgou o poder para, depois, trair os princípios que até ali o levaram, portando-se exatamente como os seres humanos que antes controlavam a granja e exploravam o trabalho dos animais em benefício próprio. Na sede pelo poder e pelos frutos do poder, Napoleão entra em contato com os inimigos, os homens, para com eles negociar, comprar, vender, tudo graças ao trabalho dos seus antes iguais, tanto assim que, como explica a história, após algum tempo, já não era mais possível distinguir, quando reunidos a mesa, o porco tirano e os homens com quem se confraternizava. Como membro das "proles" atuais, creio que estou entrando em paranóia, desenvolvendo uma absurda teoria de conspiração, começando até mesmo a duvidar da realidade. Qual realidade? Do que estamos falando mesmo? Estou, por certo, precisando melhor me duplipensar."

Wilson Silveira - escritório Newton Silveira, Wilson Silveira e Associados - Advogados e CRUZEIRO/NEWMARC Propriedade Intelectual - 10/6/2005

Comente

Cadastre-se para receber o informativo gratuitamente

WhatsApp Telegram