sexta-feira, 23 de outubro de 2020

ISSN 1983-392X

Vida

de 27/8/2006 a 2/9/2006

"VIDA E PROGNÓSTICO – Resposta a Zé Preá

Obrigado amigo Zé Preá,
Agradeço teu prognóstico,
Ainda não fiz diagnóstico,
Mas meu fim não sei qual será,
O criador é que decidirá,
E se meu desejo for atendido,
Como o Imortal e aguerrido
João Vargas poeta e irmão:
- 'Que não seja de doença,
Nem com vela na mão,
Quero guasquear no chão
Com um balaço bem na testa
E que seja em dia de festa
De carreira ou marcação' -.

Acho que será bom pra mim
Que sempre vivi cantando,
Com o Criador me ajudando
E já que tudo tem seu fim,
Melhor que seja assim,
Depois de uma gauderiada
Em fandango de cola atada
Nalgum rancherio mimoso,
Sou quebra mas carinhoso
E nunca volteio por nada."

Mano Meira - Carazinho/RS - 27/8/2006

"Meu querido Mano Meira, se você entendeu assim, tenho que lhe pedir desculpas. Mas é que o povo daqui do Nordeste se acostumou a rir da sua pouca sorte (Deus me livre de falar desgraça, como muitos chamam a gente: 'povo desgraçado'). Eu tentei fazer humor pra você e pra mim, já que estou aspando os 58. Pra desfazer esse mal entendido cito o escritor Dyonélio Machado que um dia disse: 'Eu sou duma terra de imaginação. O gaúcho, aquela vida segregada na estância, com um convívio muito limitado, aquilo leva às fantasias, aos sonhos, ao conto, à história'... Está explicada a razão dessa sua poesia maravilhosa e o desejo de morrer dessa forma! Se eu soubesse o seu endereço até lhe mandaria um CD do Luiz Gonzaga (imitador confesso de Pedro Raimundo), onde ele canta com sua sanfona e acompanhado somente por um violão, a valsa famosa de Lupi (Lupicínio Rodrigues) Jardim da Saudade. A gravação é de 1952 e recentemente fiz a conversão pra CD. É coisa pra gaúcho nenhum botar defeito. Vou citar os primeiros versos:

'Ver carreteiro na estrada passar

e o gaiteiro sua gaita tocar

ver campos verdes cobertos de azul

isto só indo ao Rio Grande do Sul.

Ver gauchinha seu pingo montar

e amar com sinceridade

Ah o Rio Grande do Sul

é pra mim o jardim da saudade

Ah que bom seria

se Deus um dia de mim se lembrasse

E lá para o céu

O meu Rio Grande comigo levasse'...

Assim, em nome do Zé Preá, espero que acolha esta migalha como um pedido de desculpas. Que Deus seja generoso com você! Abraços de"

Abílio Neto - 28/8/2006

"Abílio Neto. Querido amigo Abílio Neto. O Mano Meira solicitou-me, lhe transmitisse esse recado ou chasque como ele diz em seu modo xucro de falar, já que ele é um índio criado em fundo de campo: Diga lá ao Zé Preá, que o Mano não ficou triste, nem chateado com aqueles versos, mas, pelo contrário, soltou efusivas gargalhadas, pois na realidade é tragicômica a situação da maioria de nós brasileiros quando nos vimos às voltas com o tal de INSS. E a resposta que fez em verso não teve a intenção de apouque nem de ser ríspida, mas sim, refletir o mundo poético no qual se envolve o homem da campanha no sul do país e que acredita ou teima em acreditar numa vivência temperada com a presença desse mito, dessa fantasia, que muitas vezes se corporifica e ultrapassa os umbrais da saudade para nosso mundo real, que é a figura do gaúcho fanfarrão, esse que nunca dobra o penacho e brinca com tudo e até com a própria morte, e que na realidade é eterno, porque até hoje não se tem notícia de seu fim. Por isso peço desculpas, porque também fui muito mal domado, mas se não for pedir muito, quero lhe dizer que aceito de todo o coração àquele CD que me ofertaste a título de presente pela passagem dos sessenta anos no lombo da minha existência. Pela letra, noto que essa música não consta existir em minha seleção, é realmente uma raridade e esse presente marcará uma imensa amizade nascida entre dois migalheiros, um grande poeta repentista do nordeste e um arremedo de payador gaúcho. Em troca, se tiver seu endereço, prometo mandar um CD do meu eterno guru Jayme Caetano Braun, para quem o INSS seria luxo, pois como dizia em seus versos:

'Verão – primavera – inverno,
Ali não faz diferença,
Para curar qualquer doença
Cada gaúcho é um interno;
Quem vive naquele inferno
Não se assusta nem se acanha,
Nas urgências de campanha
É rápida a cirurgia
E se estanca uma sangria
Com terra e teia de aranha!

O braço – a perna quebrada,
Todo e qualquer acidente,
Se atende imediatamente,
Sem anestesiar a indiada;
Faca sempre bem afiada
E a segurança na cura,
Talho grande se costura
Sem alteração nem teima
E – quando um cristão se queima,
se mija na queimadura!'"

Eldo Dias de Meira – migalheiro, Carazinho/RS - 28/8/2006

"Quando vejo algum menino
se queixando da velhice,
digo como sempre disse:
- Falo grosso ou falo fino.
Grosso, enquanto és masculino,
pro inferno esses marmanjos!
Falo fino pr' estes anjos:
as crianças e as mulheres.
E tempero meus arranjos
pelo tom com que vieres."

Ontõe Gago - Ipu/CE - 29/8/2006

"Sobre a velhice

O Zé Preá e o Meira
e um outro de Carazinho
revelam certo escaninho
de sua velhice faceira:
isso aviado me cheira
prá revelar abundância
de antiga via da ânsia
de se mostrar desviado,
algum desvio ocultado
de feminil baitolância."

Ontõe Gago - Ipu/CE - 30/8/2006

"Ontõe pára de besteira
não agüento mais teu papo
só não te dou um sopapo
porque véio tem caganeira
mas vou te mandar da feira
um vestido de organdi
tu vais ser um travesti
lá na praça do Ferreira!

Tu ali no 'quem me queira'
pertinho daquele cinema
só cheirando a alfazema
que nem filho de 'barbeira'
ao te ver nessa trincheira
vou sair soltando prosa:
Eita bicha horrorosa
Cão vestido de romeira!

Passeando a noite inteira
sem achar um pretendente
encontrarás um cliente
que gosta de bebedeira
vai te bater na moleira
e te deixar um problema:
não sendo a índia Iracema
terminarás como freira!"

Zé Preá - 30/8/2006

"Vida severina

Ontõe Gago eu não conheço,
mas uma coisa eu lhe digo:
Guimarães Rosa, assim penso,
se encantaria contigo.

Nome assim de cangaceiro,
se me permite o reparo,
brigador e arruaceiro.
Tô sendo injusto, meu caro?

O gaúcho Mano Meira
mais Zé Preá, nordestino,
falam de moça e rameira
e de home bem feminino.

Sei que tudo é brincadeira,
mas com isso não me afino.
Penso em João Guimarães Rosa,
diplomata e escrevente,
homem muito competente,
cabra bom pra contar prosa,
sabia tudo de gente!

Inventou um Manuelzão,
Riobaldo e Miguilin,
nas veredas e sertão
daquelas terras sem fim.
Mas ele não criou não
alguém com um nome assim.

Se ele ainda vivo fosse
- esta aposta eu faço e pago
com rapadura e pão doce -
esta certeza eu lhe trago
dentre os nomes que ele trouxe
- pena que ele se finou-se -
punha esse: Ontôe Gago!"

A. Cerviño - SP - 31/8/2006

"O outro de Carazinho:

Pra não ficar esquecido,

já que de outro me trata,

um Ontõe louco varrido,

se mete a cantar bravata.

Tu tá morrendo de ciúme,

Zé Preá já respondeu,

se é de alfazema o perfume,

eu serei o macho teu.

Embora meio ofendido,

concordo com o Cerviño,

tu tens um nome querido,

pro Roseano figurino.

É rica nossa cultura,

e o folclore nem se fala,

pra o índio de alma pura,

não carece meter bala.

Então Ontõe vem comigo,

c'o Mano Meira e o Preá,

e tu fica nosso amigo,

ou te tiro pra dançá."

Cleanto Farina Weidlich – migalheiro, Carazinho/RS - 1/9/2006

"Tá havendo muita gente

se metendo na poesia

no passado ainda havia

mais pudor que atualmente

mas já era o antigamente

quando o povo se metia

a meter-se qual fazia

mais que hoje nisso tente

não tem mais é quem agüente

tal desgraça de mania

Zé Preá e companhia

c'os do Sul quebrando o ritmo

no espondeu pouco legítimo

me agravando na porfia

Disso eu viro pr' outra via

da política dos home

quem dos quais é que mais come

quem mais rouba e mal se esconde

onde tá os ladrão, onde?

que didonde não havia?

Zé Prea tu me arresponde

tu mais tua companhia!"

Ontõe Gago - Ipu/CE - 1/9/2006

"Mudança de Rumo (Resposta ao Ontõe Gago)

Veio água na fogueira

Desse assunto de velhice,

Alguém já me disse

Que virou prosa de lavadeira,

Se inda hái lugar pra asneira

Posso trançar outro tento;

Mas Ontõe! Tu vens lá do relento,

E esse tema de baitolância

É conversa sem importância,

Mudemos pra político ou jumento.

Onde eles se esconde

Não é em nenhum deserto,

Até o mais analfabeto

Logo descobre a onde;

No fim da linha do bonde

É lugar onde não estão,

Essa turma do mensalão

Anda por aí faceira

Tapando o sol com a peneira

Candidatos à reeleição."

Mano Meira - Carazinho/RS - 1/9/2006

"Cunvite Ontõe Gago e Zé Preá, gente boa num repente, se encontraro em Cabrobró pra alegria dos presente. Fizero um forrobodó de até invejá a gente. Desafia um daqui arremete outro de lá e ameaça arrebentá a cara desse sagüi. Eis que chega um forasteiro para entrar na brincadeira. Quem é ele? Mano Meira, vindo do sul brasileiro. No Nordeste é no repente lá no sul é califórnia. Veja o senhor que esbórnia que ele tem na sua frente. Zé Preá puxa o punhal Mano Meira sua espada. Bota ela ali deitada no terreno do quintal. E o gaúcho vem bailando saltitando sobre a espada. Zé Preá não entende nada Ontõe Gago só mirando. Toda lida ali termina com gritinho e alegria, com abraço e cantoria. Coisa munta feminina. Devo agora terminá este modesto repente. Me desculpe, Zé Preá, se lhe fui tão renitente. Mano Meira vem pra cá comer churrasco co’a gente. Ontõe Gago vai dançá xaxado, todo contente."

A. Cerviño - SP - 1/9/2006

"Cortivo homem valente,

você me roubou a carreira,

Migalhas também tem gente,

como o Preá e Mano Meira.

Tem uns homens-menino,

que não deixam passar uma vasa,

há a erudição do Cerviño,

sempre arrumando a casa.

Então Migalhas pra mim,

que a visito todo dia,

é o repicar do clarim,

para boa companhia.

O Outro,"

Cleanto Farina Weidlich – migalheiro, Carazinho/RS - 1/9/2006

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