segunda-feira, 26 de outubro de 2020

ISSN 1983-392X

Voto secreto

de 10/9/2006 a 16/9/2006

"Acho que a questão do voto ser secreto ou não é um pouco mais complexa do que aparenta. Com o voto aberto, assim como a população, o Executivo, as Empresas e diversos 'grupos de pressão' poderão verificar quais os congressistas que estão descumprindo a ordem do partido, a negociação escusa, dando chance a uma pressão mais 'focada' (ou 'mensalão mais eficiente'). Pode ocorrer também o fato de, com o voto aberto, o congressista passar a utilizar o seu voto como 'agrado' para grupos de pressão do momento (contra ou a favor do aborto, contra ou a favor das armas, etc.) deixando de lado os interesses nacional e do povo, para o qual foi eleito. Ao mesmo tempo, o voto secreto acaba com a possibilidade de saber qual é a atitude do parlamentar perante determinado assunto e confrontá-la com suas promessas de campanha e o posicionamento que prega durante o mandato. Talvez haja um caminho para solucionar os problemas, mas é difícil ter certeza de qual é esse caminho..."

Daniel Silva - 11/9/2006

"Realmente difícil saber qual é o caminho certo para solucionar os problemas levantados pelo migalheiro Daniel Silva, sobre a questão do voto secreto. Em princípio, em razão de vivermos uma democracia representativa, é essencial que o voto dos representantes do povo sejam abertos e não secretos. Isso porque, obviamente, como poderiam os eleitores saber se os seus representantes votaram ou não atendendo aos desejos dos seus representados, que são exatamente os que lhes conferiram os mandatos que exercem, que só podem ser legitimamente exercidos pelo exercício de tal representação? No entanto, o migalheiro aponta vários 'se'. E se o voto não secreto servir apenas para que o partido do deputado possa saber se ele votou ou não cumprindo ordens do próprio partido, o que necessariamente não significa estarem representando seus eleitores ou, pior ainda, se tais votos, em cumprimento de ordens do partido, contrariarem, frontalmente a representação de seus eleitores? O deputado representaria os interesses de seu partido ou seus eleitores, afinal? E se a ordem do partido se referir a uma negociação escusa, que nada tem a ver com a representação dos eleitores? Como é que fica a tal democracia representativa? E se, pergunta o migalheiro, o voto aberto servir como 'agrado' para grupos de pressão do momento, deixando de lado os interesses nacional ou do povo? Na minha opinião, caro migalheiro Daniel Silva, tudo depende de quem representam, afinal, os deputados. E, pelo que se tem visto, em nenhuma hipótese representam os interesses nacionais ou do povo que os elegem. Aliás, a primeira coisa que faz um eleito, ao ser eleito, é se afastar, por completo, de seus eleitores, com os quais não mantém nenhuma relação, a não ser por ocasião de outra eleição. Esse é o sistema que vige no Brasil: o da mais absoluta falta de representatividade por parte do eleito, com relação a quem o elegeu. Na verdade, e a verdade é simples e clara, um parlamentar representa a si próprio e a seus interesses pessoais, escusos ou não. É por isso que o eleitor não tem o mínimo interesse em votar. E exatamente por isso que o Tribunal Eleitoral tem de vir a público com campanhas afirmando que o voto tem interesse para o eleitor, e que este deve votar, não obstante seja claramente o contrário o que acontece. É por isso, afinal, que o voto é obrigatório, contrariamente ao que ocorre em qualquer outra democracia no mundo. O povo, o eleitor, sabe perfeitamente que não tem a mínima chance de ser representado. É por isso, afinal, que ninguém sequer se lembra do nome do deputado no qual votou nas últimas eleições. É por isso que os votos dos deputados, secretos ou não, continuarão a atender políticas internas dos partidos (o que quer que isso signifique), possibilitando uma 'pressão mais focada' sobre os deputados, ou a servir de 'agrado' a grupos de pressão. Pretender que o voto aberto possibilitaria confrontar o parlamentar com suas promessas de campanha é - lamento caro migalheiro - esperar demais, face à qualidade dos candidatos e das estapafúrdias e ocas promessas que fazem. Se o migalheiro acessar o site do Tribunal Superior Eleitoral, encontrará mensagens como

'Vota Brasil'

'O Brasil é tão bom quanto seu voto'

'Dia 1º de outubro somos mais de 125 milhões de patrões'

'O Brasil está nas suas mãos'

Então, é isso aí. Como vê o migalheiro, a questão do voto, secreto ou não, é bem mais complexa do que parece a princípio. Só em São Paulo, são 1.098 candidatos a deputado federal e 1.779 os candidatos a deputado estadual. Cada deputado federal custa aos cofres públicos R$ 99.467,00 mensalmente. E dos 513 deputados federais, somente 22 não disputarão cargos em outubro. Ninguém quer sair de lá porque, é claro, representar os interesses do povo, de seus eleitores, deve ser o desejo que move nossos nobres parlamentares... Na condição de 'patrões', podemos escolher nossos empregados, se bem que jamais nos ocorreria ter algum tão custoso. 'Assim é, se lhe parece', parodiando Pirandello. De minha parte, se o Brasil é tão bom quanto nossos votos, acho que estamos mal arrumados, encrencados mesmo."

Wilson Silveira - CRUZEIRO/NEWMARC PROPRIEDADE INTELECTUAL - 12/9/2006

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