Dia da Consciência Negra

10/11/2006
Ruy Nepomuceno Filho – Itapevi/SP

"Sou um brasileiro, engenheiro e... migalheiro! Não posso ficar calado vendo essa discussão de homens da Lei sobre assunto que me toca tão fundo. Pelo amor que tenho à Humanidade, quero, faço questão, de colocar minha colher torta nesse tema fascinante e mostrar meu ponto de vista, minhas convicções aos senhores. Data Vênia. A priori, quero informar-lhes que até onde pude investigar meus antepassados, sou tido como branco. Descendo de holandeses, italianos, espanhóis, alemães, franceses e portugueses. Todos europeus e portanto brancos. Já minha filha, esta tem sangue negro e índio, mas, como é pouco, é tida também como branca (será que é?). Ela casou-se com um japonês (do Japão), 100% amarelo. Com isso, minha neta, uma criaturazinha encantadora, tornou-se uma mistura complicada. Prefiro tê-la como branca pois na ótica (ciência), da mistura de todas as cores obtém-se o branco. Por ironia, sem a menor intenção de definirem um padrão de cor, deram-lhe o nome de Bianca. Lindo nome! Ainda na introdução, quero aqui agradecer e dar meus parabéns ao migalheiro Nei Lopes (Zé do Morro) (Migalhas dos leitores – "Dia da Consciência Negra" – clique aqui). Seu poema me fez chorar. A foto dos meninos pôs  por terra toda essa discussão estéril. O que é preto ou negro? O que é branco? Esta é a questão básica! No Museu do Homem em Paris, há um painel que mostra uma quantidade imensa de tipos humanos bem definidos, que vai desde o branco mais branco, aquele escandinavo com os cabelos e sobrancelhas brancas até o africano mais retinto que chega a ser azulado, e passa por um dégradé fascinante de brancalhos, menos brancos, morenos, mulatos, hindus, mouros, etc. O objetivo desse painel é mostrar que brancos e negros são os extremos da escala de cor de pele da raça humana e que é estupidez, ignorância, mediocridade querer definir simplesmente, de forma maniqueísta, os homens em pretos e brancos. A maior parte da raça humana está no meio da escala. Atacando o tema, pergunto: Há preconceito racial em nosso país? E respondo: É claro que há. E não só racial. Há muito preconceito pois temos muitos ignorantes em nossa sociedade. Todo preconceituoso é ignorante. Outra pergunta: esse preconceito é prejudicial aos negros? Sim e muito. Podemos vê-lo no nosso dia a dia, na valorização quase que exclusiva da beleza branca, no comportamento de certas pessoas associando o ruim ao negro, etc., etc. num desfiar de exemplos que só os negros conhecem bem pois são eles que sofrem na pele. Devemos combatê-lo? Como? Sim, se acreditamos nos ideais da Revolução Francesa - liberdade, igualdade e fraternidade que norteiam nossa democracia, se acreditamos nos valores cristãos que constituem a base de nossa sociedade, se acreditamos que os negros e seus assemelhados são também seres humanos como nós, devemos combatê-lo e com muito ardor. Devemos combatê-lo pela eliminação da ignorância sobre o assunto. Pela discussão do tema como observou o amigo Nei Lopes. Sou completamente a favor de se escolher um dia (20 de Novembro por que não?), para se discutir o preconceito. (Aliás só estamos discutindo porque o dia foi criado). Esse dia deveria se chamar o Dia da Consciência apenas. Retira-se, por ser limitante,  a palavra Negra.  Quem mais precisa se conscientizar sobre o assunto são os brancos (consciência branca?), os mais preconceituosos, mas também há muitos negros igualmente ignorantes e preconceituosos que fazem desse assunto o veículo de extravasão de suas frustrações e fraquezas  imputando aos brancos, ao preconceito, seus fracassos. O Dia da Consciência não deveria ser feriado. Deveria ser um dia especial para se discutir nas escolas, nos escritórios, nos teatros, nos bares, o que é  preconceito, quais os tipos identificados, por que existe e o mal que causa. Os jornais do dia trariam matérias a respeito, as televisões fariam programas específicos sobre o assunto, haveriam palestras e conferências, tudo de tal forma que a atenção do país estivesse voltada a esse tema. Cada minoria vítima dessa aberração que trouxesse nesse dia seu problema à baila.  Seria a melhor forma de diminuir a ignorância e abrirem-se os espíritos. Seria um dia de glória para a Democracia. Sou absolutamente a favor da Lei Afonso Arinos e tenho horror, náuseas com a asquerosa política de cotas nas escolas. A visão de uma boa parte das entidades que tratam do problema do negro na Brasil é a meu ver preconceituosa, tola, quando não de má-fé. Procuram pelas estatísticas comparar o posicionamento social, os salários, o número de universitários negros com o dos brancos. Verificando a enorme disparidade dos números decidem: a razão é o preconceito racial. Esquecem que até há 120 anos o negro era escravo e portanto absolutamente pobre. Ficaram livres e miseráveis. O Brasil é um país injusto, uma oligarquia de brancos e aqui pobre não tem vez, quanto mais negro. Não espantam esses números vista a desigualdade... O que espanta é a injustiça social que prevalece entre nós. É ela e não o preconceito que explica a baixa ascensão dos negros. Por que os japoneses que sofreram e sofrem com o preconceito conseguiram se distinguir na sociedade? Porque vieram com educação que é o maior obstáculo que se opõe aos pobres. Se lutarmos para educar os pobres desde a pré-escola até o segundo grau da mesma forma que  se educam os ricos, não há a menor dúvida que a porcentagem de negros na universidade será superior às cotas hoje impostas pelo populismo. E lá estarão por mérito e jamais acusados de entrarem pela porta dos fundos como faziam os escravos. O preconceito no Brasil é muito menor hoje do que era há vinte anos. Pouco a pouco está diminuindo, seja pela miscigenação (é difícil ver um negro bem escuro), seja pela ascensão de negros excepcionais que vencem as barreiras sociais e se impõe, seja pela conscientização da sociedade (programas de televisão, maior contato social, educação da sociedade). A população brasileira está se caracterizando por ter um moreno lindo que é a soma das raças que nos compõe, como maravilhosamente demonstrou Darcy Ribeiro e outros. Querer dividir nosso país em brancos e pretos, sulistas e nordestinos, ricos e pobres é um crime de traição. É jogar com a ignorância para se perpetuar no Poder. Que hora vieram os gêmeos em preto e branco! Será que o  neguinho vai entrar na escola pelos fundos e o branquinho vai ter que ralar para chegar lá? Não, não acredito! Prefiro vê-los juntos, entrando de mãos dadas e com a cabeça erguida, sentindo-se Homens!"

Envie sua Migalha